TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

DESVENDO  O  RIO  QUE  LEVE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 241 e 392 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como umensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

241 – Desvendo o rio que leve

 

Desvendo o rio que leve

À paisagem mais ignota,

Desde uma ilhota mui breve

À cachoeira que teve

O condão de erguer-me a cota

 

Vou por meus mistérios fora,

Ao canto aponto a lanterna

Onde mora o que demora

A cara a mostrar-me eterna.

 

Canto cada descoberta

Em cadência bem medida,

Metro e rima sempre certa,

 

Na pegada conhecida

Canto a terra prometida.

 

 

242 – Lei

 

A lei, máquina imperfeita,

Algo se achega à justiça

Quando o servidor que a estreita

Por tal se empenha na liça.

 

Porém, quando a advocacia

Não é prática do bem

Mas em tudo propicia

Manter dela a lei refém,

 

O padrão do que é aceitável,

Em trucagem de advogado,

Em queda livre é provável

Que se veja em todo o lado.

 

Então, da lei à justiça

Todo o caminho se enguiça.

 

 

243 – Dois

 

Há dois modos, sobretudo,

Fáceis de a vida passar:

Acreditarmos em tudo

Ou de tudo duvidar.

 

Ambos evitam, contudo,

Que tenhamos de pensar.

 

 

244 – Crescer

 

Envelhecemos por fora,

Por dentro amadurecemos:

Crescer desconcerta agora

Se reparo no que temos.

 

O melhor de nós aclaram

Mais anos que nós levemos,

O que nos distingue encaram

Ao vogar no barco a remos:

 

Mudam-nos em mais iguais

A nós mesmos, à medida,

Desassossegos vitais

Tranquilizam-se em seguida.

 

Quem se assusta é que mais feio

Se vê na perca dos anos,

Perdido algures no meio,

Devagar, nos desenganos.

 

Envelhece dentro então,

Que só se autoriza agora,

Do imo perdido o pendão,

A amadurecer por fora.

 

 

245 – Montanhas

 

Estas montanhas não rezam,

Já são a oração de Deus.

Têm o lugar que prezam,

Permanecem ante os céus.

 

Estão aí bem desde antes

De alguém as poder olhar,

De ouvir os trovões distantes,

De quem cria perguntar.

 

Nascemos e morreremos

E as montanhas sempre aí.

Vale a pena o que corremos?

Por que não ser como ali

 

A montanha sábia, antiga,

Em seu lugar adequado,

Esperar, sem qualquer briga,

Que o saber finde espalhado?

 

Nós, porém, somos os rios,

Transmudamos a paisagem,

Enfrentamos desafios,

- Nunca nos pára a viagem.

 

 

246 – Fogo

 

Tal como o fogo, o dinheiro

Não é mau nem bom em si,

É neutro, que é por inteiro

Determinado, certeiro,

Pelo olho que o vir ali,

Pela mão boa ou escusa

Daquele que o no fim usa.

 

 

247 – Iguais

 

Homem e mulher diferem,

Não de educados a tal

Na família patriarcal,

Mas porque os anos conferem,

 

Ao fim de quatro milhões

De rumos de evolução,

Modos de ser que não são

Nada iguais nos dois talhões

 

E os cérebros dos dois lados

São muito, enfim, diferentes.

Não é dos tratos presentes

Nem dos brinquedos doados…

 

 

248 – Dádiva

 

Dádiva doutrem apenas

Não é nunca a liberdade.

Antes esta das mais plenas

Dádivas de Deus emana

Que visam a saciedade

Que convém à alma humana.

E é porque é de Deus um dom

Que ninguém lhe anula o tom.

 

 

249 – Culpa

 

Que culpa teremos nós

De que as palavras em si

Sejam vazias, vazias?

Ao mas dizer, logo após,

Tu preenche-las ali

De teu sentido e magias.

Ao recebê-las, porém,

Eu, inevitavelmente,

Preencho-as de meu sentido.

Acreditámos, pois bem,

Concordar em toda a frente.

Nada nos há mais mentido:

 

Se olharmos bem, nós bem vemos

Que nunca nos entendemos.

 

 

 250 – Acto

 

Quando um acto é praticado

Não se muda nunca mais.

Se duma ou doutra maneira

Alguém agiu nalgum lado,

O que fez, fica, jamais

Se lhe apagará da ombreira,

 

Mesmo que depois não sinta

Nem sequer se reconheça

Naquilo que praticou.

É pior que trela ou cinta,

É na prisão que tropeça

Quem num acto se afirmou.

 

São tentáculos, espiras

Que nos vêm tirar ar.

Como a libertar-te aspiras

Se não há como escapar?

 

 

251 – Tua

 

Se me vens representar

Em que realidade ocorre?

Na tua terá lugar,

Que a doutrem não te socorre.

 

Há-de ser única, acaso,

A realidade de todos?

Se houver mil no mesmo prazo,

Mil serão e de mil modos.

 

Mesmo para cada qual

Único o real não é,

Muda, constante e fatal…

- Então em que farei fé?

 

 

252 – Cicatriz

 

Na vida dum ser humano

Não há cicatriz curada.

Reduz-se a uma agulha o dano

Mas lesa na encruzilhada.

 

É como a perda dum dedo

Ou duma vista no assédio.

Não sinto a falta? Num credo

Vejo que não tem remédio.

 

Fica lá sempre o vazio,

Por mais voltas que dê o rio.

 

 

253 – Mulher

 

Mulher de dezanove anos

Atraente é jovial.

A de vinte e nove é igual

Mas já não cai nos enganos

 

De exigir o mundo à volta.

A primeira é uma insolência,

Tem de cadete a envolvência,

Outra é a combatente solta.

 

É um excesso de atenção

Que traz confiança à mais nova.

A mais velha põe à prova

O poder que tem à mão.

 

Ambas os anos vindoiros

Não antecipam, no medo,

Vivem no absoluto credo

De nunca haver maus agoiros.

 

 

254 – Foge-nos

 

A vida foge-nos, foge,

Voam mais rápido os dias

Que arvéloa sem ter que a aloje,

Pedra ao ar que lançarias

 

E que na queda acelera

Trinta e dois pés por segundo,

Ao quadrado, flecha mera

No abismo a tombar profundo.

 

Horrível velocidade

A que de nós se aproxima

A morte, a fatalidade,

Através de qualquer clima.

 

Como o tempo gostarias

Que fora tão lento, lento,

Como em criança o verias

Sem ter nele o pensamento,

 

- Sempre, na brisa ligeira,

Cada dia a vida inteira!

 

 

255 – História

 

É da História o que ocorreu

E o que tempos fora ocorre

E é também discurso meu

Narrando o que em terra morre.

 

Quanto mais escavo ali

A raiz de nosso ser,

Mais longe os limites vi

Carnais de mais “eus” que houver.

 

Isto determina o dia,

Aproxima, em hora certa,

O momento em que diria

Que sou quem ali desperta,

 

Tal se a carne fora minha

De todo  tempo e lugar.

Que fardo a vida adivinha

Ter então de suportar!

 

Mas como digno me acalma

O nosso sentido de alma!

 

 

256 – Debaixo

 

Tal se debaixo dos pés

O chão fora transparente,

De camadas de través

De cristal alvinitente

 

Que descem cada vez mais

Até mesmo ao infinito,

Aos ignotos abismais,

Iluminados, se os fito,

 

- Em minha carne revivo

Os eventos do passado

Que preenchem todo o arquivo

Dos fundos donde sou nado.

 

E assim é que em mim resumo

Do Universo inteiro o sumo.

 

 

257 – Disfarce

 

O pensamento é roupagem,

Disfarce de aspirações,

Antes de qualquer linguagem,

Dois corsos de foliões.

 

Está disposto a mentir

Antes mesmo de falar.

Se honesto o termo surgir,

Não é dele o falsear,

 

- É que anda no pensamento

A máscara que eu invento.

 

 

258 – Espera

 

Uma espera é uma tortura

E ninguém aguentaria

Uma semana a postura,

Sentado ali todo o dia,

E menos se dura um mês,

Um ano tal entremez.

 

Melhor aguenta umas horas

Tal espera tais demoras.

 

Quando o tempo se prolonga

Não se alonga tal tormento,

Enfraquece quão mais longa

For a talhada que enfrento,

Que as ocupações do dia

Distraem quem as avia

 

E no esquecimento cai

A dor que a espera então trai.

 

As horas de pura espera

São mais temíveis, cruéis,

Para a paciência mera

Do que as esperas fiéis

Que se estendem vida fora

Por decénios de demora.

 

Aurora que se anuncia

Morre se não nasce o dia.

 

O que espero logo em frente

É pela proximidade

Que afecta precisamente,

Estímulo que me invade,

Que é muito mais penetrante

Por me estar logo adiante,

 

Transforma-me a paciência

Na arrasadora premência.

 

Uma espera a longo prazo

Deixa-me em paz e permite,

Obriga a cuidar, dar azo

A qualquer outro palpite,

A mil rumos empreender,

Porque tenho de viver.

 

Quão mais tempo se alongar,

Mais fácil nos é esperar.

 

 

259 – Marcha

 

A marcha não vem de fora,

De dentro de ti provém.

A legião de mortos mora

Por cerrada noite além,

 

Léguas de profundidade,

E de lá sobem os gritos,

Camadas de cada idade

São dentro em ti mil conflitos.

 

Homem, és o mais profundo,

Escavado entre os mais pulcros,

Espalhado pelo mundo,

O mais vasto dos sepulcros.

 

 

 260 – Hoje

 

Para mim o hoje não é,

De amanhã sofreguidão.

Ora, amanhã, morte em pé,

Já perdi de vez o chão.

 

Só dou por tudo o que é belo

Quando já passou por mim,

Já não ressuscito o apelo,

De vez mergulho no fim.

 

Há só na vida um momento,

Um momento que sorri,

É de agora este elemento

Que tudo concentra em si.

 

Se pelo absurdo o troquei

É só da morte que sei.

 

 

261 – Eclipsa

 

Papa que eclipsa uma igreja,

Rei que substitui seu reino:

Que excelente um só se veja,

Não todos juntos, em pleno.

 

E que preguiçosamente

Se vão resignando os mais

Ao culto dum eminente

Como a norma dos sinais

 

Da natureza das coisas.

- E assim, mundo, tu repoisas.

 

E, por mor desta preguiça,

O mundo inteiro se enguiça.

 

 

262 – Exigência

 

O que nunca ponho em causa

É exigência radical

De, em todo o campo e sem pausa,

 

Pôr tudo em causa, leal.

Com temor mais alegria,

Por ser breve, chamo a tal

 

Deus, tal como é no meu dia.

Conforme a visão de Deus,

- Senhor ou Rei, numa via;

 

Revolvendo Terra e Céus,

Em outra, em alternativa –

Dois lados nos camafeus

 

Se abrem à fé de que viva:

A religião do poder,

Dos crimes em recidiva;

 

Ou, derrubando quen          quer,

A da Humanidade inteira,

De Homem como de Mulher,

 

- Que a todos nos emparceira.

 

 

263 – Mandamento

 

Jesus fez da caridade

O seu mandamento novo?

Não é, não! Não é verdade,

Mas do amor mútuo que provo,

Mas da reciprocidade.

 

Caridade é o movimento,

Que é sempre unilateral,

Por aquele objecto amado:

Nem por ser amado real

Mais é que um objecto dado,

Fora de mim no momento.

 

O amor requer dois sujeitos,

Toca igual ambos os peitos.

 

 

264 – Reside

 

Mais nos povos que em governos

Reside a força da História.

Do corpo deles, supernos,

 

Mais do dos pobres sem glória

E dos marginalizados,

Brotam germes de memória,

 

Do Deus da vida habitados.

No corpo dos povos mora,

A partir dos deserdados,

 

Quanto a História revigora.

 

 

265 – Juntos

 

De viver juntos capazes

Ou somos em relação,

Cooperações audazes,

 

Cada qual do outro irmão

- Isto então será Política –

Ou uns outros caçarão,

 

Cada qual a fera mítica,

Um lobo para quenquer,

E a guerra será mefítica

 

- Isto então será Poder.

Eis a verdade apodíctica:

Entre os dois há que escolher.

 

 

266 – Inviável

 

Se com Jesus entre o povo

Fica inviável continuar

A manter, sem mais renovo,

 

Um mundo mui regular

Em que o doutor, sacerdote,

Fariseu, gente do altar,

 

Governador, o zelote,

O terratenente, o rei

Têm garantido o dote,

 

São os senhores da lei

Bajulados e temidos,

Vivem do suor da grei;

 

- Se com Jesus os bramidos

Gritam não e ultrapassaram-no,

Tais reis, já não garantidos,

 

- Vai daí, crucificaram-no!

 

 

267 – Política

 

Política de verdade

E jamais de ideologia,

De justiça que persuade

E não de demagogia,

 

Toda feita de ternura

E nunca de violência,

Misericórdia que apura

As vítimas da existência

 

Do poder, religião

E do cinismo a evidência

Rejeite em condenação

Contra qualquer prepotência,

 

De solidariedade

Feita até à doação

Da própria vida, pois há-de

Privilégios pôr ao chão,

 

Política de serviço

Da dignidade roubada

Do Poder por todo o enguiço

A cada mente castrada,

 

Que jamais, como convém,

Domina sobre ninguém,

 

- Eis a política a sério:

Quer servir, não quer o império.

 

 

268 – Monstro

 

O rico devém deveras

Um monstro de forma humana

Se o pobre não vê, nas eras,

Que aos milhões dele dimana.

 

Quanto mais acumulada

A riqueza que tiver,

Menos humana a fachada

Com que ele há-de aparecer.

 

No limite se mascara

De humano quando, em verdade,

De humano não tem a cara,

Tem dum monstro a realidade.

 

 

269 – Mostra

 

Deus não se mostra em milagres

Nem mesmo em sinais do céu

Que são os meis e os vinagres

De alienar o sandeu,

 

Que oprimem e que amedrontam

Indivíduos e nações.

Mas antes onde se contam,

Se livram de alienações,

 

Das opressões e dos medos

Dos deuses embora até,

Os que a vida enfrentam, ledos,

E a tomam em mãos de pé.

 

 

270 – Paredes

 

Deuses das religiões

Que vivem paredes meias

Com palácios de mandões,

De ricos de panças cheias,

 

E que se fazem servir

Por padres subservientes

Dos grandes que cada vir,

De ricos incontinentes,

 

Não são nunca o Deus da fé

Que é sempre outro totalmente.

Não ergue altares de pé,

Não mora em templo que mente,

 

Mas anda sempre a cruzar

A história da Humanidade

Como um fogo a incendiar

Tudo e que então tudo invade,

 

Do pobre ouvindo o clamor

Com entranhas de piedade

E que não poupa o suor

Para o livrar da maldade.

 

 

271 – Falta

 

Falta de padres é graça,

São graça igrejas vazias.

Muitos cuidam que é desgraça,

Trocam fé por miopias.

 

A hierarquia emurchece,

Tem menos a quem sugar.

Confunde, enquanto falece,

Isto com Deus a mingar.

 

“Igreja de padre e bispo”,

Anda o Espírito a clamar,

“Não é, não, de Jesus Cristo,

Esta de povo é vulgar.

 

Não é só de homens, machista,

É de homens e de mulheres,

Nem de eunucos, passadista,

Mas dos lares que quiseres.

 

É Igreja povo de Deus

Com ministérios variados

Servindo a todos, que seus

São todos que forem nados.

Também tem quem coordene,

Unifique, autoridade…

Mas não tem quem o condene

A sacral ser entidade.

 

Construirá tanta ponte,

Será tão pontifical

Que dentro em seu horizonte

Cabe toda a fé real,

 

Venha lá donde vier,

Seja cristã ou judaica,

Budista, hindu, de quenquer,

Seja maometana ou laica…

 

A todos fiel servirá

Nas carências que tiverem

E a todos libertará

Das opressões que sofrerem.

 

A igreja de Jesus Cristo

Não é de hierarquia e templos,

Resume-se apenas nisto:

- É de amor a dos exemplos!”

 

 

272 – Ruma

 

Em vez da comunidade

Que ruma à humanização

Com todos protagonistas,

Que cultiva e persuade

Aos valores do perdão,

Da ternura e das conquistas,

Da comum fraternidade

E solidariedade,

 

Do mútuo acolhimento,

Da paz e felicidade,

Da festa da liberdade

Que atende cada elemento,

Integral o valoriza,

Nele atenta e o realiza,

 

Em vez disto estará sendo

A sociedade do avesso,

Cínica e fria correndo,

Uns doutros feitos tropeço,

 

Todos de costas voltadas

Como anónimos, estranhos,

Com diversões alienadas,

Robôs a granel e ganhos,

 

E cada qual é ninguém,

Nem sequer um inimigo

Que se odeia um tempo além,

Uma coisa sem perigo

 

De que as outras se desviam,

Coisas tudo em solidão,

De asfixiar (nem se viam…)

Numa incomunicação.

 

- Escasso aquilo, a mais isto,

Que é que quero, a que resisto?

 

 

273 – Trampolim

 

A política, das artes

É porventura a maior.

Corrompida, tem apartes

Duma epidemia-mor

 

Que sem piedade ceifa

A população inteira.

Não é física a tarefa

Com que a mata, é mais leveira.

 

Tira ao povo a consciência,

Faz dele gato-sapato,

Um trampolim da eminência,

Não o preserva a recato,

 

Ser ele próprio o não deixa,

Tira-lhe o protagonismo,

Tapa-lhe a boca, se queixa,

Ameia iminente sismo.

 

Em resumo, a falcatrua

É que o povo sempre desça:

Faz com que ele diminua

Por que o político cresça.

 

 

274 – Posto

 

Muda o tempo e a liderança

É tal qual a do passado.

Cuidam que o que o posto alcança

É mais, de tão elevado,

 

Muito mais do que ser povo:

Presidir é ter poder,

Domínio sobre o renovo,

Maior bolo que quenquer,

 

Privilégios sobre os mais.

E cuidam que é natural

Morar em palácios reais

Com carrão junto ao portal,

 

De graça e com motorista,

Com proventos bem acima

Da média de qualquer lista,

Reforma que o resto encima,

 

Doirada e muito exclusiva…

E outros privilégios mais

Perversos e em recidiva

Que os líderes, como tais,

 

Reivindicam e usufruem

Com a naturalidade

De não ver, em quanto fruem,

Que é tudo perversidade.

 

Não querem prestar serviço,

- Mas liderar é só isso!

 

 

275 – Trepa

 

Quão mais trepa a hierarquia

Pelos degraus do poder

Mais decresce, em simetria,

Naquilo que logra ser.

 

Quem quer ser mestre e senhor

Não faz disto um privilégio,

Mais serve com mais amor,

Criativo sortilégio.

 

O senhor não é quem manda,

É quem dar a vida quer

Por aqueles que comanda,

Se a ocasião o requer.

 

Ele nunca infantiliza

Com ensinamento e norma

E dependentes não giza,

Jamais súbditos conforma.

 

Promove antes crescimento,

A livre cidadania,

Responsável o elemento

Que cada qual anuncia

 

Até mestre ser também

De igual jeito e qualidade,

Prolongando um passo além

A aposta da liberdade.

 

Por não ver isto, o empresário

Crê que é dele enriquecer

Com o suor proletário

Dum subalterno qualquer,

 

Que pode pôr e dispor

Do tempo do contratado,

O reles trabalhador,

Pondo-lhe a vida de lado,

 

Sem escrúpulos viver

Um estatuto social

Muito acima de quenquer

Com requinte oriental…

E nem vê que isto é uma afronta

Aos demais membros da empresa,

Ao País que a pouco monta,

Ao pobre que ele despreza.

 

 

276 – Aberto

 

Em vez de cada vez mais

Devir o povo ilustrado,

De olho aberto e consciente

Das estruturas causais

Do mal de que anda marcado

Sempre impenitentemente,

 

O que o mobilizaria

Contra o mal de que padece

Num combate dia a dia

E que então não esmorece,

 

Continua a ser levado

A acreditar que é castigo

Todo o mal que padecer,

Que é de incapaz ser talhado,

Ou dum fado sem abrigo,

Ou dum mistério qualquer…

 

E é um povo então conformado

E resignado à desdita,

Pronto a ser manipulado

Por quem jamais o desquita.

 

 

277 – Ministros

 

De ministros é o governo

Que são os criados, servos,

Nunca de seu povo os donos,

Nem o seu patrão superno,

Nem no privilégio os nervos

Dos que sofrem abandonos.

 

São ministros entre os povos

E sempre, sempre com eles,

Em comunhão de renovos,

Fundindo músculo e peles.

 

Tal como nos corpos nossos

Formam um a carne e os ossos.

 

 

278 – Rituais

 

Rituais sem vida, amor,

Regularmente nos templos,

Encenações de senhor,

Têm-se em conta de exemplos

De quem é profissional,

De Deus funcionário real.

 

Entretêm e enganam

Multidões no mundo inteiro,

Os que de medo se esganam,

Até do Deus mais cimeiro,

Peados por moralistas

Sem moral deles nas pistas.

 

Quanto mais os frequentarem

Mais impedidos acabam

De dentro se libertarem,

De crescer, que menoscabam

Ser, primeiro, solidários

E responsáveis primários.

 

 

279 – Grandes

 

O homem, em maioria,

É tal qual grande criança:

O medo a Deus preferia

A pôr nele a confiança,

 

O culto religioso,

À comunhão solidária,

Opressões dum poderoso,

À liberdade primária,

 

A dependência de alguém

Com um ar de benfeitor,

À independência que vem

Dum clima comum de amor.

 

Preferem ser oprimidos

Por um escol poderoso

Que já desde tempos idos,

Atrevido, habilidoso,

 

Se lhes tem apresentado

Como de oficiais de Deus

Dentro da Igreja ou do Estado,

Com poder vindo dos céus,

 

Auréola que os diviniza.

Escol que aquilo que faz

Será que os desumaniza,

Quando não arrasta atrás

 

Quanto ao Homem demoniza.

 

 

280 – Cumeeira

 

Da cumeeira da encosta

Tomba em cascata a miséria

Dos telheiros e da bosta,

Da poeira, da galdéria,

Gargalhando de alegria

Na meninada bravia,

Com pés nus a batucar

Sonhos de sol e luar.

Junto ao cais, gruas, suor,

Trabalho de estiva e mestre

Mascarando doutra cor

Quem em ser feliz se adestre

Fugidio, fugidio

Corpo de fome e fastio.

 

Entre os de cima e os de baixo

Outros há que nunca encaixo.

 

Aferrolham no caixote

A faúlha de infinito,

O infindo do alto com mote,

Como o do mar com o grito.

Guardaram-no a sete chaves,

Com armas, torres e traves…

 

- O esquecimento, leveiro,

Cobre-os como o nevoeiro.

 

 

281 – Dista

 

Dista o colonizador

Sempre do colonizado.

Nunca fim tem tal pendor,

Tal fora maldito fado,

 

Anti-humano isolamento,

É do valor o total,

Total desconhecimento

Do que noutrem nada iguale.

 

Assim finda empobrecido

De ambos o mundo e o sentido.

 

E ganha uma nova pista

Toda a pegada racista.

 

 

282 – Poeta

 

O poeta que não seja

Realista é que está morto,

Mas o que apenas o almeja

Já da morte busca o porto.

 

Se for irracionalista,

Só ele e a amante se entendem.

Mas, se for racionalista,

Asnos mesmo o compreendem.

E até um triste se contrista

Com os vazios que vendem.

 

É que nestas equações

Não há, não, cifras na pauta,

De Deus não há decisões,

Do Diabo, a pata incauta,

 

Apenas luta constante

Entre pendor e pendor

Na poesia tacteante

Em busca de esquiva flor.

 

Quem vence, quem é vencido

Na perene luta armada?

Que importa? Tudo medido,

Poesia com sentido

Não pode ser derrotada.

 

 

283 – Profundezas

 

A poesia é uma vertente

Das profundezas do homem.

Germinou, luminescente,

As liturgias que o domem,

 

Salmos e religiões.

O poeta defrontou

Da natureza os trovões

E, quando balbuciou,

 

Foi xamã, foi sacerdote

Preservando a vocação.

Hoje a rua tem por dote,

Por fermento, a multidão.

 

Agora, muito civil,

Pobretana ou com negócio,

Representa o mais viril,

Mais antigo sacerdócio.

 

 

284 – Tormenta

 

Cada qual ao se escapar

Correrá tormenta além

Por razão particular.

 

Para além desta, porém,

Outra que é comum a todos

Empurra a todos também.

 

Mais exigente que engodos

De individuais motivos,

Mal se lhe notam os modos,

 

De tão abismais e esquivos:

É manter a integridade,

É manter-nos, factos vivos,

 

Paixão com que a Humanidade

Nos penetra a toda a pressa

Tentando a perenidade.

 

Para o fado em que tropeça,

Comum à realidade,

Fugir do nada que a meça.

 

 

285 – Adorar

 

Adorar a divindade

Julgam os homens deveras

Quando, afinal, a verdade

É que deles as quimeras

 

É o que apenas conheceram:

Meras representações

De madeira que veneram

Como de oiro, emanações

 

De incenso, tinta, palavras,

De ideias ou de sistemas…

- Confinam deles nas lavras

Do Infinito quaisquer lemas.

 

E os que nunca reconhecem

Nenhum Deus de modo algum?

Se a imagens não obedecem,

Se não vêem Deus nenhum,

 

Mais próximos, se calhar,

Que qualquer outra pessoa

Do Deus vero irão andar

Que nega o que se apregoa.

 

 

286 – Distingue

 

Por que nunca fala o céu

A quem tem a majestade?

Não se distingue o que é seu

Do poder de quem o invade.

 

Um homem humilde então,

Assim que ele resplandece,

Testemunha dum clarão

Que só nele transparece.

 

E será que ele revela

Um segredo do Universo?

Não, que aquilo a que ele apela

É o que dentro de mim verso.

 

- Nunca escutamos, de sós,

Senão nossa própria voz.

 

 

287 – Centelha

 

Igual centelha divina

Mora igual em todos nós,

Não é duma raça sina,

Casta de raros cipós,

 

Não é de homem ou mulher…

Cada qual alimentá-la

De beleza e de saber,

A fazê-la resplender,

Há-de sem qualquer cabala.

 

É somente pela luz

Que existe nele que um homem

É grande. E que nos seduz

Nos fogos que nos consomem.

 

 

288 – Fronte

 

Qualquer homem com os mais

Guarda, sob a fronte externa,

A que não fia jamais,

Que por trás guarda a luzerna.

 

Só mesmo esgaravatando

Tal invólucro podemos

A verdade ir desnudando

Daquilo que nós seremos.

 

Despojado de mentiras

Apenas por trás te miras.

 

 

289 – Lianas

 

Indivíduos que estudaram

Toda a forma de pensar

Findam por se enclausurar

Nas lianas que enrolaram

E que encobrem, de momento,

Todo o próprio pensamento.

 

E se mesmo esta verdade

Gritante lhes for aos olhos,

Confundem-na com escolhos,

Lutam contra a adversidade,

Tapam a brecha, por norma,

Ao pensar de qualquer forma.

 

Grande é o número de peças,

De mecânicas respostas

De que dispõe, sobrepostas,

Quem ao socorro dá pressas.

Crê que pensar tem em mente

Mas lhe escapa totalmente.

 

 

290 – Ilusão

 

A ilusão de controlar

O meu e doutrem destino

E sempre ao fim a mandar

O decreto clandestino,

A derradeira palavra

Que acima de nós nos lavra!

 

 

291 – Sadia

 

A sadia tradição,

Se bem fundo nela cavo,

É que indivíduo ou nação

Nunca dela seja escravo.

 

Não temos rígidas normas,

Nenhuma regra inflexível.

Se com qualquer te conformas,

É por te devir credível.

 

Ages pelo que crês justo,

Guiado pelo passado,

Por hoje que vês a custo,

Por porvir adivinhado,

 

- Sem dogma algum nem certezas,

Na dúvida que sopesas.

 

 

292 – Murmura

 

O céu murmura: não me chamo eternidade.

Chamai-me Deus, se o bem quiserdes, todos vós,

Que todos vós no paraíso, de verdade,

Morais sem ver: de árvore a folha é uma deidade,

O tronco e os galhos são um éden e os cipós

 

São paraíso como a nuvem, como o vento,

Como a campina, como o mar ou como a praia…

Um turbilhão, porém, de penas ao relento

Para o regato é despejado e, enquanto caia,

 

Rápido corre em direcção ao oceano.

Ser arrastados para aí todos nós vamos

E pouco importa tudo quanto, por engano,

Nós bem saibamos, actuemos ou digamos:

- No fundo Além ao deus que somos lá chegamos.

 

 

293 – Gramática

 

A gramática é um sistema

Para o tempo dominar.

Escrever “foi, é, será”,

É no passado agarrar,

Prender o presente ao lema

Com o porvir que houver cá.

 

Completados os sinais,

Já não nos escapam mais.

 

 

294 – Metáfora

 

Na metáfora, a linguagem

É radicalmente aberta.

À vida depois da morte

Tende na sua viagem,

Dum ignoto descoberta.

É incurável, desta sorte,

Porque nem chega a morrer,

- É o dia sempre a nascer.

 

 

295 – Estancam

 

Os pobres são como os rios,

Da terra estancam a sede,

Fazem inchar os pavios

Das raízes mais os fios

Das plantas que a fome pede.

 

Acarretam grão, sementes,

Moem o pão nos moinhos.

Da terra, pois, entrementes,

A vida são que lá sentes

E da divina adivinhos.

 

Construíram catedrais

De dor que lhes fere os braços,

Secaram os tremedais…

- Sem eles entre os varais

Findarão da vida os laços.

 

 

296 – Inspiro

 

Inspiro, às vezes, temor,

Mas é de si que tem medo

Cada qual, é de supor,

Não de mim nem de meu credo.

 

É o monstro que anda escondido

No abismo de cada qual

Que o aterra, distorcido,

Focinho dele animal,

 

Que às vezes ergue a cabeça

Das profundezas do ser.

Tão maior o horror começa

Quão mais ignoram tal ter.

 

O que espanta é ver surgir

À flor de água aquele ignoto

Com nada a coincidir

Com nada que antes lá noto.

 

Quando acima do alçapão

Não aparece, em paz de alma

Impassíveis seguirão

De rosto liso e com calma.

 

 

297 – Sorte

 

A sorte da humanidade,

O inevitável do esforço,

É que o labor, em verdade,

Nunca passará de escorço.

 

A nossa cultura apenas

É tentativa qualquer

De inacessíveis empenas

Além de nosso poder.

 

É uma cultura sem lar,

Truncada, trágica, um torso,

Não tem onde se acoitar.

E, de entrudo neste corso,

 

O espírito humano é mais

Do que um torso entre juncais?

 

 

298 – Procura

 

A procura da verdade

Tornar-nos-á mais felizes?

Julguei tê-la em minha herdade.

Por vezes, nalguns matizes,

 

Julguei contemplar o céu

Onde ela vive talvez…

Porém, nunca o céu cedeu

Deveras, mesmo rés-vés.

 

Nunca os meus olhos puderam

Medir o espaço infinito

Cujos nós então perderam

A chave do mais que fito.

 

Só que além é proibido,

Todo o esforço finda em vão.

O que toco é concebido

A meio e termina então,

 

Pois apenas o incompleto

Marca tudo o que eu criar.

Deixo sempre o lar sem tecto,

Meu lema é o de inacabar.

 

 

299 – Inventa

 

Deus não inventa castigos

A aplicar ao pecador

Nem provêm de inimigos

Que seriam de supor.

 

Deus nunca fez nenhum mal,

É o pecador como tal.

 

Este que a Deus não se inclina

É que talha a própria ruína:

 

Aquilo que sempre almeja

É o inferno em que se veja.

 

 

300 – Terror

 

Que diríamos de alguém,

Na terra os pés bem assentes,

Que em terror vive também

De cair, cerrando os dentes,

Enfiado terra abaixo

Como de pedras um cacho?

 

Diríamos, sem desconto,

Que seria mesmo tonto.

 

E se, então, vive em família

Que de sempre muito o ama

Mas se aterrar, em vigília,

Com medo de alguma trama

Por parte de esposa e filhos

A que o prendem mil cadilhos?

 

Diríamos, sem desconto,

Que seria mesmo tonto.

 

Que dizer então de alguém

Que, entregue nas mãos de Deus

Que infinitamente além

O ama que qualquer dos seus,

Lamenta ao fim dele a sorte,

Teme o azar da vida e morte?

 

É mesmo um tolo deveras

O ingrato, em todas as eras.

 

 

301 – Agitado

 

Lograr a imobilidade

No agitado torvelinho,

Ficar quieto e transparente

Da luz, como a claridade

Nas copas armando ninho

Por muito que o dia vente

- Eis o projecto de vida

A que o tempo nos convida

 

E a marca de eternidade

De toda e qualquer idade.

 

 

302 – Língua

 

A língua não tem avesso,

Não tem direito nem lados.

Se no que a teço desteço,

Aparecem-nos os dados.

 

A realidade é o reverso

Do tecido da palavra,

Na metáfora converso

Do chão que os termos me lavra.

 

A realidade é viagem

Do outro lado da linguagem.

 

 

303 – Dança

 

A dança a sentir-nos bem

Com a nossa própria pele

Nos ajuda. Então além

Nosso corpo nos impele

A sentir que é mesmo nosso,

Que movê-lo sempre posso,

Como flecti-lo, alongá-lo.

Leva a música a escutar

Com muito mais que os sentidos:

O som vou mesmo aplicá-lo,

É minha forma de estar,

De tecer laços vividos,

 

As pequenas relações

Entre a graça e o equilíbrio,

A mão que arqueia emoções

Pelo voo de ludíbrio

E toda a camaradagem

De alinhar em grupo a imagem…

 

A lição fica alojada

Algures no inconsciente

E a pessoa melhorada

Finda indefinidamente

E logo num pé de dança

Vive tudo quanto alcança.

 

 

304 – Fervilhar

 

Cada qual de vocês conta

Com o fervilhar do medo.

O medo não cura, aponta,

Descura ao rezar o credo.

 

Através do medo erigem

Castelos de aberrações,

Os obeliscos que exigem

As vaidades e os senões.

 

Será da magia o medo,

De quanto se não entende,

É do ignoto que o levedo,

O que não domino o prende.

 

É o que mais afasta o bem:

O medo inventa a sentença,

Contrabalança o que vem,

O medo sobrecompensa

 

Através doutros caminhos,

Doutras escolhas de acaso.

Como escapo a tais cadinhos?

Libertando-me sem prazo,

 

Passando por ele e agindo.

Logo que eu enfrento os medos,

Ao que me apavorar indo,

Sofro com estes degredos,

 

Mas de vez me livrarei.

O Homem pode passar

Pelo medo, como lei,

Ou fugir dele tentar.

 

Eis a escolha, aqui ninguém

Poderá substituí-lo:

Ou a rota é o que convém

Ou perde o rumo, intranquilo.

 

 

305 – Certeza

 

A certeza é perigosa

Porque pouca margem deixa

De manobra a quem a goza.

A certeza se desleixa

 

Para dar poder ao ego,

Para que este mais não grite.

Com a certeza, delego

Na informação que me evite.

 

De novas ao entupir-me,

A que será que isto leva?

Desfalecimento firme

De nervos centrais em treva.

 

O ego, para ter espaço,

Precisa dum alimento

Constante, jamais escasso

E sempre, sempre em aumento.

 

É por isto que as certezas

São deveras perigosas.

Pouca dúvida ali prezas

E a que nelas não entrosas,

 

Base da sabedoria,

É a que faz nascer o dia.

 

 

306 – Metade

 

Metade da humanidade,

Tal qual como num espelho,

Revê-se noutra metade:

A imagem não a regala,

Não gosta da mão, do artelho,

E tenta logo mudá-la.

 

Ao espelho a ver-se está,

Dela própria, pois, não gosta.

Tentar mudar acolá

É nela própria que tenta

Mas, ao não saber da aposta,

Falha o tiro do que inventa.

 

Não muda nunca, que pensa

Que outrem é que há-de mudar,

Continua a ver-se intensa

No espelho ali projectada

Sem a muda ter lugar

E não desmonta a charada.

 

Então perde a paciência

E declara guerra à imagem

Projectada na evidência

Do espelho que tem diante.

Mata com toda a coragem,

Parte o espelho doravante.

 

Que o inimigo matou

Julga quando, ao atirar,

O espelho apenas quebrou

E então deixou de se ver.

Na guerra de egos vingar

Crê, por outrem morto haver.

 

De homens a outra metade

Nada entendeu desta história,

E a atirar se persuade

Contra a sua própria imagem

No outro espelho. E a vitória

Crê lograr desta triagem.

 

O ser humano só vê

Nos outros o que não gosta

Nele mesmo e ainda crê

Que o outro é que tem defeito.

Em olhar-se nunca aposta,

Ao espelho mau afeito.

 

Ao deixar de projectar

Em tão maléfico espelho,

Para si mesmo há-de olhar.

Algo há-de ver finalmente

A corrigir no que é velho,

A mudar urgentemente.

 

 

307 – Escolha

 

Tranquila e sem sobressaltos,

A escolha humana provém

De harmonizar cumes altos

Entre o que o cérebro tem

E a emoção de que andam faltos.

 

E o que o homem intuir

Tem maior prioridade

Sobre o mais que vê lhe advir,

Resto de vulgaridade

Só de oiro a se travestir.

 

Teremos então vencido

A batalha da matéria.

Ninguém mais anda corrido

Fora de si, na miséria

De buscar, sempre iludido,

Má segurança por séria.

 

Não requer mais componentes

Do exterior para provar

Quem é, que quaisquer vertentes

No interior há-de arrolar:

Respeita o que sinto e sentes.

 

O que intuir respeitando,

O que sentir de raiz,

É bem compelido quando

Faz o que o fizer feliz

E em festa os céus põe cantando.

 

 

308 – Fiel

 

Fiel à minha energia,

Escuto o meu coração

E a importância que devia

Ao que me diz dou então.

 

Ao fazê-lo é que ensinado

Vou sendo a seguir com ele

Um caminho atribulado,

Desconfortável, que apele

 

Ao que me vem de seguida:

Uma vida deslumbrante,

De abundância desmedida

Que o caminho traz adiante.

 

Mas por quê tal abundância?

É um caminho para mim,

Confere com minha ânsia,

O Cosmos é meu afim.

 

Então tudo volta a ser

Como antes de haver nascido:

Abundante, a surpreender,

Brincalhão, descomedido.

A vida passa a escorrer

Como água a cantar na fonte

E tudo como quenquer

A seu lugar faz a ponte.

 

Quem a energia concita

Tem abundância infinita.

 

 

309 – Mortos

 

Quando teus mortos se vão,

Vai brindar em festa ao céu,

Junta-te aos que neste irão

Festejar quem lhes nasceu.

 

Acende fogueiras, canta,

Dança à luz da Lua Cheia,

Veste a cor que o morto encanta,

Abre a casa à brisa alheia.

 

Da energia poderosa

De toda a transformação

Deixa-te imbuir e goza,

Que outros mundos brotarão.

 

Quando os mortos não andarem

Mais por cá por entre nós

Deixa as saudades chorarem

Os que nos deixaram sós,

 

Não os corpos que restaram.

Quando os enterras de vez,

Ergue os olhos que choraram,

No céu repara, que vês

 

A subida da energia,

Cosmos de novo em fusão.

Acredita então, confia,

Entrega-te à comunhão.

 

 

310 – Poço

 

Aquele que culpa os mais

Do estado de sua vida

Num poço está sem beirais,

Sem mais fundo nem medida,

 

De auto-comiseração.

Quem se responsabiliza

Por males que ocorrerão,

Por tudo aquilo que o visa,

 

Um futuro bem melhor

Logo obterá de verdade,

Por aprender o pendor

Da responsabilidade

 

E da coragem de optar.

As consequências de facto

São com que ele vai arcar,

Responsável por seu acto.

 

Para o pior e o melhor

Fica, por fim, bem maior.

 

 

311 – Interna

 

Homem sem revoluções

É sempre um homem perdido:

Meta interna não propões,

Não rectificas sentido.

 

Ser mais interveniente

E mais participativo

É revolução presente,

A manter-me o gesto vivo.

 

Para alguém se sentir homem

Requer a revolução,

Mas só se internas o tomem

Dela as mudas que advirão.

 

Dentro é que tudo acontece,

Devem as trocas sentir-se.

Povo que lento fenece

Sob o tirano a esvair-se

 

Só ficará preparado

Para mudar o sistema

Se por dentro houver mudado,

Se mudar-se for o lema.

 

Caso contrário virá

Contrair sistema igual

E subjugado será

De novo ao fado ancestral.

 

Mas, se se mudar por dentro,

Repele o mesmo cenário

Que só lhe ocupará o centro

Para mudar-lhe o fadário.

 

Analisa o que não queres,

Aquilo que te não serve,

Muda dentro o que entenderes,

Que o íntimo então referve

 

Com os erros e traições.

Corrigi-los poderás

Após com revoluções,

Que então vai ser eficaz.

 

Se dentro a mudança implantes,

Nada mais fica como antes.

 

 

312 – Distingue

 

A emoção do sentimento

Distingue, mais do desejo.

A incongruência que vejo

Os separa em cada evento.

 

Basta ver como reagem

À conjuntura de perda.

Com desejo os que interagem

Vitimização mui lerda

 

É o que sentem no momento:

Ficam revoltados, cheios

Duma fúria sem tenteios

Que os escraviza ao tormento.

 

Aquele cuja emoção

É ligada ao sentimento

Vai reagir à perda, são,

Com tristeza e sofrimento.

 

Ao sentimento ligada,

A emoção devém centrada,

 

Desliga-se do desejo

E a pessoa que ali vejo

 

De vez desactiva a luta

E ali finda a ansiedade.

A ansiedade é da disputa

Que vem da necessidade

 

De buscar o que se quer

Sem mais ponderar sequer.

 

Neste caso as perdas vêm

Até se aprender a olhar

E os sinais que nos convêm

Seguir sem tergiversar.

 

 

313 – Busquem

 

Ninguém tem de se matar

Para que os outros entendam.

Ao contrário, se calhar,

Abrir olhos que se vendam

 

Destes irá requerer

Que a luz busquem do alimento,

Pois terão de merecer,

Merecer o entendimento.

 

Não é portando-se bem,

Gentes sendo tais quais são,

Que o merecerão também.

É procurando o desvão

 

De devirem elas mesmas.

Cada qual, se a tal se inclina,

Mais na vida escreve as resmas

Da essência dele divina.

 

É dentro de cada qual

Que mora a voz e o mistério.

Ou reconhece o sinal

Ou longe anda do que é sério.

 

 

314 – Difícil

 

É tão difícil viver,

Na matéria colocar

A força que o céu tiver

Tendo em conta de levar

 

Da terra os imponderáveis!

É preciso meditar

Mas aos filhos incansáveis

Também urge atenção dar.

 

Cada qual é ser quem é

Mas não pode preterir

A opinião que de pé

Outrem tem-lhe a referir.

 

É importante ser sensível,

Porém deixar de pensar

Vai ser omissão punível

Que não há-de compensar.

 

Enfim, importa ser anjo

Sem jamais deixar de ser

Um homem com todo o arranjo

Que puder acontecer.

 

 

315 – Cabeça

 

Os homens nem querem ver

Quais são deles os caminhos,

A cabeça de quenquer

Anda tão entorpecida

Com mil preitos adivinhos

A cuidar como é que a vida

 

Então deveria ser,

Que já nem consegue olhar

O evento como ocorrer.

Aí nasce a ilusão do ego:

Querer as coisas mudar

Para serem, em sossego,

 

O que queria que fossem.

Ora, todo o Cosmos pára

Quando alguém quer que se endossem,

Não as leis da natureza,

Outra força que a anulara,

Que o real Universo lesa.

 

Quando alguém quer outra coisa

O Cosmos pára, atrofia

Tal energia, onde poisa

Como um vento traiçoeiro.

- E o homem tal prenuncia

Que falha por derradeiro.

 

 

316 – Prepotência

 

A prepotência é defeito,

Por mais que ande tudo certo,

Por mais que tenha razão.

Quando à força alguém é afeito

Nunca o longe fica perto,

O equilíbrio tomba ao chão.

 

Cai na zona radical

Do comportamento humano

Sem virtude nem moral,

Todo o trilho trará dano.

 

De Deus é o bem como o mal.

Quem se crê dono do mundo

Que não tem dono, afinal,

Não viu nada até ao fundo.

 

Vão tombar da altura os montes,

Suprir o que falta aos vales

E hão-de novos horizontes

Doer se a eles te iguales.

 

 

317 – Países

 

Os países dividiam

Tudo em castas sociais,

Hoje os bens nos baniriam

Uns doutros, se calhar, mais.

 

Mantém-se a casta, portanto,

Em cada país do mundo.

A humanidade, entretanto,

Não perde nunca o infecundo

 

Defeito primordial:

Aquela necessidade

De ter mais poder real

Que outra individualidade.

 

Aqui é que ela radica

Todas as desuniões.

A humanidade pontifica

A inversão destes senões.

 

Nesta somos almas vivas

Nesta terra confinadas

Para as tarefas esquivas

De evoluir programadas,

 

Todos, todos por igual,

Marcados deste sinal.

 

 

318 – Ignorância

 

A ignorância, um pé

De árvore de frutos,

Germina calada,

Pequenina até,

Subtil nos produtos

Que espalha na estrada.

 

Mas aos poucos vai crescendo,

Tomando corpo, ficando

Forte, cheia de raízes.

Cada vez mais tal mantendo,

Cada vez mais germinando

Prepotentes vão matrizes.

 

Depois de algum tempo mais

Desata a reproduzir-se.

Nascem frutos da ignorância

Cujas sementes letais

Plantadas findam a ir-se

Em mentes que vivem de ânsia.

 

A ignorância tem sido responsável

Por aniquilações e por mil guerras,

Difamações de dor interminável,

Por discórdias com chãs tornadas serras.

É fértil a ignorância e mui robusta

E o Homem verga e pára, dela à custa.

 

Imobilizada para a evolução,

A sabedoria travada, hoje em dia,

Por imbecis temas sempre de arrastão,

A humanidade aí anda à mercê do guia

Que mais a transporte:

A lei do mais forte.

 

A cultura, a erudição,

Sensibilidade, história,

Atrevimento hoje são

Mal vistos, mera vanglória.

 

Porque doravante impera

A rainha gorda e choca,

Sem músculo ou esqueleto,

Que nada sabe nem gera,

Nem quer saber, lá na toca

Sem luz, vestida de preto.

 

Não abandona a mesmice,

Contradiz tudo o que avança.

Manda em tudo o que se visse,

Em todo o mundo que alcança.

 

A ignorância abafa tudo

Aquilo que vir à frente.

Ouve mal, vê mal, contudo,

No paço é dona presente.

 

Grita para os empregados,

Deveras inexistentes,

Brada aos céus sempre calados

Uivos de fera dementes.

 

A ignorância se desfaz

Com ruptura espiritual

Mas o ignaro é um incapaz

Não vê nunca que anda mal,

E ao invés, no seu traslado,

Julga-se muito elevado.

 

Ficamos então à espera

De o cruzar alguma luz,

Que o empedernido que era

Sinta o fundo que o traduz.

 

O instante de elevação

Os séculos de ignorância

Pode anular logo então

- Num germe de eterna infância.

 

 

319 – Quer

 

Deus não quer nada de nós,

Não precisa que o adorem

Nem que o sigam logo após,

Lhe obedeçam, o edulcorem,

 

Nem que o atinjam sequer

De determinada forma,

Para conseguirem ter

Salvação conforme à norma.

 

Isto põe de vez em causa

As religiões do planeta.

Foram, de facto, uma pausa

Até visar-se outra meta.

 

A muitos darão sentido

Ainda por um tempo mais,

Mas tê-lo-ão nos mais perdido,

Que outra é a fonte dos sinais.

 

 

320 – Devolve

 

O mundo inteiro é um espelho

Que devolve o teu reflexo.

Se sentes o destrambelho

E que tudo é desconexo,

 

Se sentes não ser ouvido,

Que não contas para nada,

Que não és compreendido,

Talvez seja porque, à entrada,

 

É assim que fazes que os mais

Se sintam enquanto tais.

 

Se mudas, mesmo um pouquinho,

Logo outro será o caminho.

 

 

321 – Ganho

 

O ganho imediato

É nosso inimigo,

Não vale um pataco

E a quanto me obrigo!

 

Não querem perder

O lucro imediato,

O brusco prazer,

Os que vão no trato.

 

São de vistas curtas,

Não logram já ver

Nas bateiras surtas,

Nem reconhecer

 

Quanto prejuízo

Irão provocar,

Na pesca sem siso,

A quem vá pescar,

 

A si como aos mais,

Quando, a longo prazo,

Não houver sinais

Do mar que hoje arraso.

 

O ganho imediato

É nosso inimigo.

Se mal me precato,

Já nem tenho abrigo.

 

 

322 – Parte

 

Que é parte de Deus teu imo

Sabe intuitivamente,

Mantém, pois, continuamente

O longe e o perto do Cimo.

 

Viver a unificação

Com o Todo, aquilo que É,

É universal união,

Do Cosmos ao imo até.

 

Primeiro unido com Tudo,

Depois parte individual,

Uno e distinto, contudo

Ambos vive por igual,

 

Tal qual como tua mão,

Embora a teu pé ligada

No mesmo corpo em fusão,

Vive dele separada.

 

 

323 – Essência

 

Teu corpo não é quem és,

Mas algo que tens presente.

A mente não é quem és,

Algo é que usas procedente.

 

A essência de quem tu és,

Que é teu derradeiro arrimo

Onde preservas a calma,

É sempre apenas teu imo,

- És sempre meramente alma.

 

 

324 – Contacto

 

O contacto é de teu imo,

Qualquer alma liga a Tudo.

O corpo divide o limo,

Casca externa a que me grudo.

A mente entre ambos, então,

É quem faz a ligação.

 

 

325 – Objectivo

 

O objectivo do poder

Não é nunca controlar,

Que então esmaga quenquer,

Antes sempre é o de criar.

 

Quando o poder for usado

Para controlar, não cria.

De controlo um obcecado

Nada faz, não conseguia.

 

E se for governador,

Votem embora em excesso,

Vai ser ainda pior,

Menor ainda o sucesso.

 

O controlo, eis a má fada

Duma qualquer criação,

Que criação controlada

É sempre contradição.

 

 

326 – Liberdade

 

Liberdade verdadeira

É o verdadeiro poder.

Neste estado de alma inteira

Está Deus, dentro, em quenquer.

 

Estão também os humanos

Com gestos que ali não cabem,

Gerados em mel de enganos:

- É que os homens não o sabem…

 

Buscam então o poder

E livres deixam de ser.

 

 

327 – Floco

 

Tu és um floco de neve,

Um floco de neve humano,

Cais do céu de Deus, mui leve,

Milagre incarnas mundano

 

Duma vida individual,

Inigualável de espanto.

Chegas à Terra e ao panal

De brancura, canto a canto,

 

De todos os mais te juntas,

Todos maravilhas únicas

A formar, assim conjuntas,

Dobras de brilhantes túnicas,

 

Uma deslumbrante imagem

Cobrindo o corpo do mundo.

Findas a tua viagem,

No branco onde te confundo,

 

Tua forma derretendo,

Um corpo único a fundir

Que, em ribeiro uno escorrendo,

Sem esforço há-de fluir.

 

Desaparecer pareces,

Continuando no invisível,

Quando aos Céus ao fim regresses

Na aventura imperecível.

 

 

328 – Basta

 

As pessoas acreditam

Que não há suficiente

Nem dinheiro, nem comida,

Nem casas para quenquer.

Aliás, a vida evitam

Ao crerem que o existente

De qualquer coisa da vida

Não basta a sobreviver.

 

É crendo nisto que julgam

Que uns contra os outros hão-de ir

Competindo, pois divulgam

Que o raro é de garantir.

 

Do insuficiente a ilusão

É a maior entre os humanos,

Infundada decisão,

E muito rumo de acção

Dela se funda em enganos.

 

Quando alguém crê realmente

Que, para sobreviver,

De algo não há o suficiente,

Luta feroz para obter

O mais que puder daquilo:

É de há milénios o estilo.

 

Transformámos tudo, tudo

Em meras competições.

A economia, a miúdo,

Compete contra nações

E recebe o vencedor

Do bolo o naco maior.

 

Os políticos sistemas

Competem e quem vencer

Trepa, em todos os esquemas,

Aos píncaros do poder.

 

Todas as religiões

São também competições

 

Onde cada vencedor

Do deus colhe a bênção-mor.

 

Até mesmo o Paraíso

Crêem-no insuficiente

Todos, todos cujo viso

For garanti-lo ao presente.

Então põem-se a lutar

Uns com outros para entrar!

 

- A verdade, mundo adiante,

É que há de tudo o bastante

 

A alimentar qualquer vida,

Se é justo o rumo e a medida.

 

 

329 – Perdoa

 

Deus nunca perdoa nada,

Não há nada a perdoar.

Perdoar é da agravada

Gente que eu prejudicar.

 

Mas ninguém logra ofender

Nem prejudicar a Deus:

Muito acima de quenquer,

Ninguém manchar pode os céus.

 

Andas, pois, transpondo em Deus

O que são critérios teus.

 

 

330 – Milagre

 

O milagre verdadeiro

É que tudo torna a Deus

Qualquer que seja o sendeiro

Que trilhem os pés incréus.

 

E tudo retorna a Ele

Porque não há mais onde ir:

É Tudo o que há, quanto impele,

- Nada há fora ou a seguir.

 

Não há inferno, há uma vivência

Da separação de Deus,

Mas a dorida experiência

Termina por votos meus

 

Quando eu muito bem quiser,

Noutra vida ou nesta aqui.

Princípio-fim, Deus é o Ser,

Alfa e ómega o senti,

 

É sempre o Todo no todo.

Ninguém, pois, pode evitar

O seu destino feliz

Nunca nem de nenhum modo.

 

Pode apenas adiar,

Mas é mesmo por um triz.

 

 

331 – Único

 

Nós somos aquele único animal

Capaz de meditar na própria morte.

Construímos o luto e o memorial,

Meditamos, oramos com transporte.

 

E em raras ocasiões, quando enganar

Conseguimos a morte, isto persuade,

Nem que seja em momento singular,

A crer na aposta da imortalidade.

 

 

332 – Religião

 

A religião do inefável

Tenta falar sempre em vão.

Fala só do praticável,

Que do resto é mesmo inviável,

Do que dela é vocação.

 

Ter o indizível à mão

Não será nunca fiável,

Tenha embora a pretensão

Disso qualquer religião.

É um fruste esforço louvável

Que finda em desilusão.

 

 

333 – Segredo

 

O segredo mais profundo

É a vida não ser processo

De me descobrir e ao mundo

Mas de criar quanto meço.

 

Não te estás a descobrir

Mas a te criar de novo.

Quem és não busco inquirir,

- Quem queiras ser é que aprovo.

 

 

334 – Volta-te

 

Volta-te para Mim, teu imo-deus,

E afasta-te de tudo diferente.

Não há trilho de crentes nem de ateus,

Não há caminho errado, é indiferente,

 

Porque nesta viagem tu não podes

Não chegar ao lugar aonde vais:

Tudo é questão apenas, quando acodes,

De que velocidade há nos varais,

 

Meramente é questão de quando chegas.

No entanto, é uma ilusão, pois não há quando,

Nem antes nem depois, tirando às pegas,

Somente existe o agora, eterno andando,

 

O momento de sempre, com tal arte

Que nele vais premente experienciar-te.

 

 

335 – Proporciona

 

De Deus o soldo proporciona mais

Que o reconforto espiritual que traz;

Conforto físico arrastou atrás.

E a ironia de vivências tais

 

Será que, quando experiencias dEle

O espiritual soldo-conforto, então

O derradeiro fito teu, função,

É o alor físico que ali te impele.

 

Esta união de corpo e mente alia

O todo e a parte, o que jamais se via.

 

 

336 – Pecado

 

É pecado original

Mas não é pecado nosso.

É o primeiro mundanal

Pecado com que no fosso

 

O mundo nos encafua,

Um mundo que nada sabe

Dum Deus que por nós actua

E que de Deus menoscabe

 

Cuidando que Ele algum dia

Criar o imperfeito iria.

 

É que é mesmo original

Cuidar que Deus gera o mal!

 

O mal é mal-para-mim,

Para Deus é indiferente,

Nunca lhe toca o confim

De Todo em tudo presente.

 

 

337 – Chamas

 

É pelo que chamas mau

Que defines o teu tom

E que então saltas a vau

À margem do que crês bom.

 

O maior mal era então

Confirmar que nem verás

(Por nem haver no teu chão)

As coisas que sejam más.

 

Com que metro medirias

O trilho de tuas vias?

 

 

338 – Derradeiro

 

O derradeiro mistério:

Nossa relação com Deus.

- Nós somos o corpo dEle.

O que teu corpo é de sério

Para a mente e o imo teus

Assim és, na tua pele,

Para a mente e alma de Deus:

Tudo o que Ele experiencia

É através de ti – a via.

 

 

339 – Errado

 

O pecado original

É o primeiro pensamento

Errado sobre o momento,

Sobre um dado do real.

 

Este erro então retomado

É muitas vezes, se tens

Uma e outra vez trilhado

Tal rota com teus améns.

 

Ao Espírito no fundo

Da fundura tua cabe

Inspirar-te um outro mundo

Até que teu erro acabe.

 

 

340 – Contrário

 

O contrário da alegria

É o Inferno que assedia.

 

Irrealização pessoal,

É saber o que tu és

Sem nunca vivenciar tal

E então sofres o revés.

 

Por conseguinte, é ser menos.

E não há maior inferno

Que este para qualquer alma:

Ver desertos os terrenos

Sem gota que o fogo interno

Da sede algum dia acalma.

 

 

341 – Existe

 

A vida depois da morte

Das teologias do medo

Não existe em tal recorte,

Por muito que o queira o credo.

 

Há, porém, uma vivência

Tão triste, tão incompleta,

Do todo tão sem ciência,

Tão desgarrada da meta,

 

Tão separada de Deus

E da sublime alegria

Que a qualquer alma sem véus

Isto é o inferno algum dia.

 

Não é Deus quem para lá

Manda, contudo, quenquer,

Nem tal evento fará

Que imposto seja sequer.

 

É cada qual que tal cria

Quando se alheia da mais

Sublime ideia que havia

De dele dar os sinais.

 

Criamos tal experiência

Quando a nós próprios negamos

E quem somos, à evidência,

Realmente rejeitamos.

 

 

342 – Forma

 

Deus não tem forma ou feição

Que possamos entender,

Adoptar pode qualquer,

Mas todos partem então

 

Do princípio de que viram

A fronte única de Deus,

Em vez duma dentre os seus

Aspectos mil que surgiram.

 

As pessoas acreditam

Que Ele é como elas o vêem

E deveras jamais crêem

Que é o que não vêem que citam.

 

É que Ele é o grande invisível,

Não o que se obriga a ser,

Será o que não é sequer

Num momento definível.

 

É do não-ser que Ele vem

E sempre torna ao não-ser.

No entanto, ao aparecer

Numa forma que convém,

 

Atribuem-lhe tal cara

Logo para toda a história.

E, caso apareça em glória

Noutra forma em qualquer ara,

 

Logo os primeiros dirão

Que o não viram os segundos,

Pois os aspectos facundos

Como os deles não serão.

 

Qualquer que seja a maneira

Ou a forma desejável

Que Ele adopte à nossa beira

Nunca alguma é incontestável.

 

 

343 – Sabe

 

Qualquer alma, como a tua,

Sabe tudo o tempo todo,

Nada oculto, vê-se nua,

Nada ignoto como engodo.

Não basta saber, porém,

Ela quer experienciar.

Podes saber que és também

Mui generoso, sem par,

 

Que, se algo tu não fizeres

Dando generosidade,

É um conceito o que tiveres

Meramente em vacuidade.

 

Podes saber que és amável,

Que, se uma amabilidade

A quenquer não dás, prestável,

É só ideia a identidade.

 

O voto de qualquer alma

É transformar o conceito

Que mais alto lhe ergue a palma

Num acto do maior preito.

 

Enquanto o conceito não

Se tornar experiência

É mera especulação,

Aliena toda a vivência.

 

 

344 – Profetas

 

“Eu por ti nada farei

Que por ti mesmo não faças”

- É dos profetas a lei

De Deus nas pegadas baças.

 

O mundo no clima está

Em que está por nossa causa,

Por escolhas feitas cá

Ou não feitas, feita a pausa,

 

Que não decidir foi já

Tomar uma decisão.

A Terra, pois, estará

Em tremida situação

 

Pelas opções que fizemos

Ou deixámos de fazer.

A própria vida que temos

Vem só do que eu escolher.

 

Não há nunca outra matriz,

Olhando bem de raiz.

 

 

345 – Maior

 

O maior ensinamento

De Cristo não foi poder

Vida eterna eu vir a ter,

É tê-la neste momento.

 

E não é que poderei

Ter em Deus uma irmandade,

Mas que a já tenho por lei,

É de minha identidade.

 

Não que posso vir a ter

O que quer que a Deus implore,

Mas que o tenho sem sequer

Precisar que por tal chore.

 

Por isso basta sabê-lo,

Pois nós somos criadores,

Da realidade o selo,

E a vida não tem motores,

 

Nem consegue revelar-se

Senão da forma em que nós

Julgarmos que ela há-de armar-se,

Ato-a da escolha ao retrós,

 

Crio-a, a todo o momento,

Logo com o pensamento.

 

 

346 – Propósito

 

Deus na tristeza e no riso

Está, no amargo e no doce.

Um propósito diviso

Por trás do que quer que fosse,

 

Uma presença divina

Que em tudo comigo atina.

 

Quem Deus não vê, no profano

E no sublime, a perder

Anda metade, ao engano,

Da História que acontecer.

 

Deus é tudo e tudo invade,

Isto é que é mesmo a verdade.

 

 

347 – Enquadre

 

Vocês não podem criar

Nem uma coisa que seja,

Um evento singular,

Um objecto que se almeja,

Um pensamento a aclarar,

 

Vivência de qualquer tipo,

Que não se enquadre, integral,

No inteiro vinho do pipo,

No plano de Deus total,

Tear do linho que ripo.

 

Porque é do plano de Deus

Que criemos tudo, tudo,

Dar corpo a sonhos meus, teus,

O que quisermos, no entrudo

Da vida de sob os céus.

 

De Deus como Deus vivência,

Será nesta liberdade

Que Deus faz dEle experiência,

Experiência de entidade

Para a qual, com evidência,

 

Nos criou mesmo à medida:

- Isto é que é a própria vida.

 

 

348 – Outrem

 

Se o pecado fora coisa

Que existira, sê-lo-ia

Permitires ser a loisa

Em que outrem escreveria,

 

Tornares-te aquilo que és

Doutrem por mor da vivência,

Não da vitória e revés

Que vem da tua vivência.

 

Pecado é que cometemos

Todos nós: não esperamos

Nosso acto donde viemos,

No dos outros embarcamos

 

Como em evangelho à letra.

Quando encontramos depois

Experiência que me impetra

Que nela leia arrebóis,

 

Levo para ali a carga

De tudo o que já sabia:

Minha realidade amarga

É quanto me trairia.

 

Se o não fizera, teria

Uma vivência diversa

Que acaso me levaria

A suspeitar, na conversa,

 

Dos erros de qualquer mestre

Ou da fonte inicial.

Depois de quanto me amestre

Não admito o principal:

 

Que nossos pais, as escolas,

Religiões, tradições,

As escrituras que enrolas,

Bíblias, Toras, Alcorões,

 

- Acaso estejam errados.

Minha vivência negar

Irei em favor dos dados

Que me andaram a ensinar.

 

Esta funda alienação

É a nossa condenação.

 

 

349 – Falta

 

Como é que uma divindade

Há-de ter necessidade?

 

Tudo o que é, precisamente

Isto será: que É somente.

 

E, portanto, não quer nada,

Nada lhe falta, de entrada.

 

Assim, por definição,

De nada tem precisão.

 

E muito menos de mim,

Este nada ante o Sem-Fim.

 

 

350 – Soma

 

Qualquer alma (subconsciente,

Id, espírito, passado…)

É a soma total presente

De todo o vivenciado,

 

Dos actos que já viveram,

De gestos que antes criaram.

Memórias que recuperam

De antigamente que aparam

 

São mais do que uma lembrança,

São a carne do momento,

São deveras remembrança

Que opera o remembramento.

 

Pois estou a re-membrar-me,

Ou seja, a juntar, com arte,

Num todo, a reagrupar-me

Reagrupando cada parte.

 

Quando reagrupas as partes

De ti da cabeça aos pés,

Remembrado eis como acartes

Aquele que realmente és.

 

 

351 – Eterna

 

Vocês, vocês nunca morrem,

A vida é eterna, imortais

São todos quantos percorrem

Das eras os pedregais.

 

Mudam apenas de forma.

Nem tiveram de fazê-lo,

Mas decidiram a norma

De temer da morte o apelo.

 

Duravam eternamente.

Assim, vítimas da sombra

Que daqui tudo vos mente,

Nem vislumbram quanto assombra

O passeio de presente

Dos céus pela verde alfombra.

 

 

352 – Desejar

 

Em nossa mentalidade

Não é lá muito correcto

Alguém desejar morrer,

De acordo estar com a morte.

Como morrer de verdade

Não querem, largar o tecto,

Não conseguem nunca ver

Que alguém queira aquela sorte.

 

Mas há muitas conjunturas

Em que a morte é preferível

À vida que se tiver.

Isto, porém, não te ocorre

Quando as faces fitas puras

De alguém que escolhe, visível,

Morrer antes que viver.

E ele sabe isso e não morre.

 

Ele logra perceber

Que grau de aceitação reina

À decisão que tomou.

Repara na quantidade

Dos que aguardam, até ver

Vazio o quarto e bem leina

A vigia que o tomou,

Para morrer de verdade.

 

Depois, quando o fiel guardião

Partiu, fazem logo o mesmo,

Partem do corpo guardado.

Se contassem aos parentes:

“Só desejo morrer. Vão

Viver vossa vida a esmo!”,

“A sério não hás falado”

- Retorquiam, renitentes.

 

Os técnicos de saúde

São treinados a manter

Todo o moribundo vivo,

Não a tê-lo confortável,

O que teria a virtude

De lhe permitir morrer,

Sem parecer fugitivo,

Com a dignidade viável.

 

Para o médico, a enfermeira,

A morte é sempre um fracasso.

Para um amigo ou parente

É tragédia em consumpção.

Para tal alma pioneira

É que a morte é um bem escasso,

Um alívio, de repente,

Deveras libertação.

 

 

353 – Claro

 

Deixa ficar claro o imo

Que este corpo abandonar

Não é nenhuma tragédia.

É tragédia neste limo

Em muito aspecto ficar

Dentro do corpo sem rédea.

 

Qualquer alma encara a morte

Duma forma diferente,

Como diferente, a vida.

A frustração que transporte,

Como ansiedade que sente

Um indivíduo, medida

 

Em grande parte será

De a mensagem dacolá

 

Não se lograr entender,

Nem sequer ouvir nem ler.

 

 

354 – Como

 

Como é que pode ser-se alto

Se nunca baixo se for,

Como é, se na esquerda falto,

Que a direita vou supor,

 

Como ser quente se o frio

Jamais vi em tempo algum,

Do bem dar lume ao pavio

Se do mal sei lá o fartum?

 

Alma alguma há-de poder

Escolher algo se não

Houver nada que escolher

A que possa deitar mão.

 

Experienciar a grandeza

É saber o que ela é.

É inviável ter tal presa

Se só grandeza há de pé.

 

Qualquer alma entende então

Que a grandeza que procura

Só existe na contramão

Do que a não tem na figura.

 

Por isso jamais condena

O que não é grandioso,

Abençoa: é uma pequena

Parte dela a que me entroso,

 

Que deve existir, que ateste

Que a outra se manifeste.

 

 

355 –Argumentar-te

 

Perdes tua vida toda

A argumentar-te que és mau.

Não só mau, que em tua roda,

Ao agir, piora o grau.

 

O sexo é mau e o dinheiro

Mau é, bem como a alegria,

O poder é mau parceiro

E ter muito, em fantasia

 

Ou noutra coisa qualquer,

É mau, como duvidar?

As religiões a crer

Nos levaram que dançar

 

É mau, a música é má,

Gozar a vida mau é.

Não tarda, sorrir dará

Também tratos de polé

 

E rir é mau, como amar.

Podes nunca ter certezas,

Mas uma tens para dar:

Tu, teu desejo, as belezas,

 

Tudo é mau, sem mais apelo.

Tendo feito este juízo

Sobre ti mesmo, o atropelo

Aponta então o alto viso.

 

Pois olha que estará certo,

Em tudo é visar o cume.

Mas repara que mais perto

Há um caminho que o assume:

 

De quem e daquilo que és

Desde agora a aceitação

E ligeiro apor teus pés

De tal em demonstração.

 

 

356 – Inviável

 

Pensar, falar e gir algo

Em que deveras não creias

É inviável, feito a meias.

No saber és tu fidalgo,

 

A rota da criação

Engloba crença e saber:

De absoluta fé desvão,

Mais que esperança é tal crer,

 

É o saber duma certeza,

“Pela fé serás curado”.

Da criação a inteireza

Tem saber sempre integrado.

 

É no íntimo uma clareza,

Este pleno acolhimento

Feito da total certeza

De algo como real evento.

 

 

357 – Monitorar

 

A monitorar aprende

Teu pensamento: a pensar

Sobre quanto estás pensando.

Se teu pensamento rende

Um negativo cuidar,

Se o conceito for negando

 

Elevado em que te tens

A ti próprio, na fundura

Do coração que te apura,

Pensa de novo teus bens.

 

Se cuidas que a conjuntura

É difícil, entalada,

Que nada de bom supura

Da ferida já infectada,

Pensa outra vez, à chegada.

 

Se cuidas que o mundo é mau,

Cheio de eventos perversos,

Pensa outra vez, salta a vau

Os escolhos nele imersos.

 

Se cuidas que tua vida

Se andará desmoronando

E jamais reconstruída

A verás ao vento brando,

Pensa outra vez e outra vez

E a luz se fará talvez.

 

Podes sempre, aliás, treiná-lo:

Treinaste bem a evitá-lo!

 

 

358 – Saberás

 

Saberás que trilhaste o sendeiro de Deus,

Saberás que encontraste o teu Deus nos sinais,

Nestas metamorfoses dos ânimos teus,

Nestas transmutações a devir-te reais.

 

1 – Com todo o coração amas a Deus, com a mente,

E nenhum outro Deus colocar hás-de em frente:

 

Jamais venerarás um amor humanal,

Dinheiro, poder, êxito algum principal,

 

Nem nenhum outro símbolo a vir a existir;

Pões de lado tais coisas, criança a bulir

 

Que abandona os brinquedos, não de ínvios serem,

Mas desinteressantes, sem mais convencerem.

 

2 – Não usarás o nome de Deus nunca em vão,

Nem o vais invocar por mesquinha tenção.

 

Entendes o poder de pensar, da palavra,

E nunca pensarás invocar, por tua lavra,

 

Este nome de Deus duma forma profana.

Em vão não usarás dEle o nome que irmana

 

Porque tu não o podes: seu nome, o Eu-Sou,

Jamais é usado em vão, sem efeito, onde estou,

 

Nem jamais poderá sê-lo: quando encontrares

A Deus saberás isto, teu fundo ao olhares.

 

3 – Lembrar-te-ás de guardar para Deus certo dia,

Irás chamar-lhe santo, não vás na magia

 

Da ilusão tu ficar, antes leve a lembrar-

-Te quem e o que tu és. Em breve hás-de chamar

 

De Deus todos os dias e santo ao momento,

Que em todos os instantes de Deus corre o vento.

 

4 – Honrarás pai e mãe0, saberás que de Deus

És o Filho ao honrares Deus Pai-e-Mãe teus

 

Em todas as coisas que disseres, fizeres,

Pensares… E ao honrar Deus e os pais que tiveres

 

Honrarás igualmente, humanístico, a todos,

Distinguir-te-ás no amor por enfim teres modos.

 

5 – Vês Deus ao perceber que não hás-de matar,

Não voluntariamente e a razão sem dar.

 

Não podes acabar com um ser vivo então,

Que toda a vida é eterna, energia em função,

 

E a energia vital, dum a outro dos modos,

Sem o justificar tu não mudas, sem bodos.

O teu novo respeito da vida fará

Que honres todas as formas que nela terá,

 

Árvores, animais incluindo e as plantas,

Que as destruas apenas por bem que te implantas.

 

6 – Jamais profanarás a pureza do amor

Com a deslealdade, os enganos, temor,

 

Pois adúltero é um acto. Se encontras a Deus,

Tal adultério nunca farás tu aos teus.

 

7 – Não tomarás um bem que te não pertencer,

Não serás conivente a enganar para obter

 

Algo com prejuízo de alguém postergado,

Pois seria roubar. Tendo Deus encontrado,

 

Prometo-te que, enfim, tu jamais roubarás

E com todos os outros viver vais em paz.

 

8 – Nem afirmarás nunca uma coisa mentida,

Um falso testemunho na boca fingida.

 

9 – Do próximo a mulher não cobiças também:

Para que hás-de querer a mulher que ele tem

 

Quando vives que tens por esposas as mais,

Pois um com tudo e todos em Deus somos tais?

 

10 – Nem hás-de cobiçar de teu próximo os bens:

Para que hás-de querer dele os bens se os manténs

 

Deveras como teus, pois são todos do mundo,

Este lugar de festa onde tudo é jucundo?

 

Saberás que encontraste o caminho de Deus

Estes sinais ao veres, pois quem O procure

Jamais volta a fazer de seus actos os réus

De tais comportamentos que a morte figure.

 

São tuas liberdades e não restrições,

De Deus os compromissos, não seus mandamentos.

Deus não manda nas suas febris criações,

Limita-se a dizer, a qualquer dos momentos:

 

- É assim que sabereis, no que mais vos apraza,

Que estareis a chegar, a chegar mesmo a casa.

 

 

359 – Certeza

 

Isto de irmos para o céu

É coisa que não existe:

A certeza, sob o véu,

É que lá estás e não viste.

 

Existe uma aceitação,

Subtil reconhecimento

E não uma escravidão,

A luta sempre em tormento.

 

Não podes ir para onde

Afinal tu já lá estás.

Fazê-lo, jogo de esconde,

Era voltar para trás,

 

Donde estás sair, mas isso

Goraria o fim da viagem.

O engraçado é que o feitiço

De mergulhar na voragem

 

Faz que julgue a maioria

Ter de sair donde está

Para ir, em romaria,

Para um lugar que não há,

 

Para onde quer estar:

Portanto deixam o Céu,

Pelo Inferno vão passar,

Para o Céu terem de seu,

 

A fim de lá retornar.

A lucidez é saber

Que não há nenhum lugar

Aonde ir, nada a fazer,

 

Nem ninguém de ser terás

Excepto, precisamente,

Quem neste momento estás

A ser tu singularmente.

 

Vais para sítio nenhum,

O Céu que cuidas por ti

Não é um sítio tempo algum,

É mesmo este agora-aqui.

 

 

360 – Verdadeiro

 

Um verdadeiro mestre não é quem

Mais alunos tiver, mas quem criar

Mais mestres mundo fora, tempo além,

Até do Mestre já ninguém necessitar.

 

Um verdadeiro líder não é quem

Mais seguidores tem, mas quem criar

Mais líderes em volta até ninguém

De nenhum líder porventura precisar.

 

Monarca verdadeiro não é quem

Mais súbditos tiver, é o que conduz

À realeza mais súbditos, refém

De libertar com alegria toda a luz.

 

Deveras professor não é quem tem

Maior sabedoria, mas quem faz

Que larga maioria logo obtém

Todo o saber que a vai tornar de vez capaz.

 

Um verdadeiro Deus não tem mais servos,

Mas serve o maior número, tornando

Assim deuses os outros, para ver-vos

Sem deus nenhum já doravante precisando.

 

Eis a glória, o propósito de Deus:

Que os súbditos acabem, pois, de sê-lo

E a conhecê-lo venham, não nos céus,

Inatingível (lá não chega este escabelo),

 

Mas como o inevitável. Gostaria

Que entendêssemos isto: a feliz sorte

Comum é inevitável. Quem podia

Perder-se? O inferno é não saber o norte.

 

 

361 – Identificável

 

É somente através da relação

Com outrem, os lugares e os eventos

Que podes existir como porção,

Algo identificável por momentos.

 

Na ausência dos demais tu jamais és,

Só és em relação com outra coisa,

É a lei do relativo ser o invés,

Ao invés do Absoluto que repoisa.

 

Quando claro o entenderes e admitires,

Louvarás intuitivo qualquer dado,

Qualquer encontro humano em que te vires,

A relação humana de teu fado,

 

Pois tudo encararás por construtivo

No sublime sentido que em ti tem.

É a teia do tecido conjuntivo

Que te una as peças como mais convém.

 

Verás que tudo pode ser usado,

Usado deve ser e a sê-lo está,

Quer queiras, quer não queiras, por teu lado,

A construir quem és sempre acolá.

 

 

362 – Evoluir

 

Estás a evoluir, a transformar-te,

Da relação te serves com as coisas

Para escolher aquilo em que mudar-te.

Com tal função ao mundo vens e poisas:

 

Tal alegria é de criar o Eu,

De conhecer o Eu, de o transmutar

No que desejas ser, no ser que é o teu,

Tudo autoconsciência a caminhar.

 

 

363 – Poucas

 

Bem poucas das decisões

Sobre o que é certo ou errado

São tuas, em que te expões

Com teu saber vivenciado.

 

Sobretudo as importantes:

Quão mais importante o assunto,

Menos provável que plantes

Teus ouvidos lá bem junto


De teu campo de experiência.

Mais prontamente pareces

Mudar em tuas, na essência,

As doutro e de ti te esqueces.

 

Que admira que andem danados

Do mundo os passos trocados?

 

 

364 – Optar

 

Terás de optar, arbitrário,

Decisão que não provém

Dum prévio saber sumário:

Criação pura é que convém.

 

E terás conhecimento,

Conhecimento perfeito

De que é naquele momento

Que o Eu crias ao teu jeito.

 

A maioria de vós

Jamais anda interessada

Em tarefa tão atroz,

Quer que a outrem seja dada.

 

Não são, pois, autocriados,

Mas criaturas afeitas,

Por outrem degenerados

E doutrem com as maleitas.

 

Depois, quando alguém vos diz

Como sentir-vos deveis

E tudo isso contradiz

O que dentro sentireis,

 

Eis o conflito interior:

Algo no íntimo murmura

Que o que outrem vos diz supor

Não é quem sois na fundura.

 

Então, então que fazer?

Aos teólogos correis

Que foram os que a sofrer

Vos põem o que sofreis.

 

Sacerdotes e rabinos,

Gurus, mestres e pastores,

Monges e freiras ladinos

Recomendam, sedutores,

 

Que deixeis de dar ouvidos

A vós próprios e de vez.

Sereis mesmo convencidos

Pelo pior, através

 

Do medo: tudo amedronta

Para que vós ignoreis

O que a intuição vos aponta

Como o que certo sabeis.

 

Falar-vos-ão do diabo,

Satanás, demónios vis,

Maligno de que dão cabo,

Do Inferno que então sentis,

 

Como da condenação,

De tudo o que, assustador,

Leve à consideração

De quão grande era o error

 

Do que intuitivamente

Sabíeis, sentíeis vós,

E de que o lugar que isente

De tanta besta feroz,

 

Onde encontrareis conforto

É no pensamento deles,

No ideal deles (em vós morto),

Na teologia a que apeles,

 

Deles nas definições

Do que for certo ou errado

E deles nas concepções

De quem és, em ti fundado.

 

A sedução é tão forte

Que basta, ao vos aprovarem

Para vos mudar o norte,

Basta vocês concordarem.

 

Alguns chegarão até

A cantar em altos berros,

Dançando e agitando o pé,

Aleluias pelos cerros!

 

É difícil resistir

A tal júbilo, a tal festa,

Só de se alistar, ao ir,

No rol dos salvos à testa..

 

Estas manifestações

Caracterizam mui raro

A escolha dos corações.

Não se festeja o que é caro,

 

A decisão de seguir

A verdade pessoal.

Bem ao contrário, quem vir

Vai mas é levar a mal.

 

Vão ridicularizar-vos.

Por ti mesmo estás pensando?

E nós quem somos, uns parvos?

Sozinho te orientando?

 

A aplicar próprias bitolas

Como os teus próprios juízos,

Valores teus a que imolas

Os de todos tão precisos?

 

Mas quem é que cuidas que és?

É a pergunta a que, de facto,

Vais respondendo através

De não ter com eles pacto.

 

E, por muito que lhes custe,

Eis o que ao fim tudo ajuste.

 

 

365 – Dinheiro

 

O dinheiro receber

Por algo que seja bom

É difícil a quenquer,

Não é bom nem de bom tom.

 

Se uma coisa é muito boa

O mundo a desvaloriza

No custo em dinheiro, à toa:

Se é melhor, menos realiza.

 

E toda a comunidade

Acredita em tal asneira.

Professor na inanidade

Vive sempre a vida inteira,

 

Porém ganha uma fortuna

Qualquer striptíser da moda.

Um ministro se coaduna

Mal ao ganho quando o engoda

 

Dum futebolista a conta,

Dum treinador um contrato.

O padre, o rabino aponta

Pão e água de seu trato,

 

Mas todos atiram notas

Ao artista badalado.

Se um alto valor anotas

Intrínseco a qualquer dado,

 

Deve em tua opinião

Custar deveras barato.

Do cientista em solidão

Que uma cura busca, o prato,

É vazio de finanças,

Mesmo a implorar porta a porta,

Enquanto a mulher que às danças

De bem fornicar exorta

 

Ganha colossais prebendas.

Ver tudo ao contrário tende

A trocar-vos sempre as sendas

E de errado pensar pende:

 

É da ideia que tu fazes

Do que afinal é o dinheiro.

Ama-lo, nele te aprazes,

Mas do mal crês que é o parceiro,

 

Chamas-lhe dinheiro sujo,

Podre de rico alguém dizes,

Se ali chegou bem, sabujo

O suspeitas nas matrizes,

 

Consideras algo errado…

Quem optar pelo mais nobre

Mais mal pago é encaminhado.

- Mas que há de bom em ser pobre?

 

 

366 – Ser

 

Fazer, do corpo é função,

Ser é uma função das almas.

O corpo é sempre em acção,

Ou com fúrias, ou com calmas,

 

Alguma coisa a fazer.

Cada minuto do dia

Em algo se anda a meter,

Não pára nem cansa, fia.

 

Fá-lo de alma quer por ordem,

Quer à sua revelia.

Os gestos que te remordem

São balanço da fasquia.

 

As almas estão a ser

Sempre, sempre, eternamente.

Do que o corpo enfim fizer

São independentemente,

 

Não por mor do que ele faz.

Se cuidas que tua vida

Te deve assentar, capaz,

No fazer, foi-te mentida,

 

Ignoras mesmo quem és.

Teu imo não se preocupa

Com o que, por tua vez,

À tua volta se agrupa

 

De tarefas de ganhar

A vida que te escolheste.

Quando a vida te acabar

Já nisto nada te investe.

 

Teu imo só visa aquilo

Que tu vais estar a ser

Enquanto fazes, tranquilo,

O que estejas a fazer.

 

Porque o imo sempre anseia

É por um nível de ser,

Não lhe importa, frente alheia,

Qualquer nível de fazer.

 

Qualquer alma quanto tenta

É ser Deus, de vez ao vivo.

Que ela é Deus, sabe-o, isenta,

E quer vivenciá-lo, esquivo.

 

Pois é não fazendo nada

A rota mais, mais certeira.

Não fazer, ser de assentada

Sua aspiração cimeira.

 

Ser tudo o que quiser ser,

Feliz, triste, fraco, forte,

Bom, alegre, homem, mulher,

- Tudo, tudo à escolha, à sorte.

 

Tenta o que gostas de ser,

Que então tu vais ver, vais ver!…

 

 

367 – Controlar

 

O corpo e a mente, os dois juntos,

Não têm de fazer nada

Para controlar assuntos

De qualquer alma, de entrada.

 

O imo é sempre desprovido

De qualquer necessidade.

Corpo e mente são sortido

Dela atulhado, em verdade.

 

Por isso é que o imo deixa

Que o corpo e a mente lhe levem

A palma sempre, sem queixa,

Quer se abaixem, quer se elevem.

 

As almas não desejavam

Que fosse doutra maneira:

O que és ao criar te davam

Em todo o acto que peneira,

 

Então tal vivência deve

Por consciente volição

Existir em quem a teve,

Não por obediente opção

Meramente inconsciente.

Obediência não cria,

Não leva, portanto, em frente

A salvação que queria.

 

Obediência reproduz,

Mas criar é pura opção

Não imposta, que seduz,

Nunca exigida ao ganhão.

 

Opção pura é que conduz,

Através da criação

Do ideal que haurir mais luz,

Conduz mesmo à salvação.

 

Função de alma é de mostrar

Dela o desejo em seu pólo,

Jamais será de tratar

De vir para fora impô-lo.

 

É função da mente optar

Por qualquer alternativa,

Do corpo é representar

Tal opção na teia viva.

 

E, quando alma, corpo e mente

Em conjunto todos criam

Em harmonia coerente,

Deus faz-se carne, anunciam.

 

Um imo então se conhece

Na própria dele experiência.

Dos céus rejubila a messe

Na colheita de excelência.

 

 

368 – Expressos

 

Um pensamento ou palavra

Expressos constantemente

Tornam-se precisamente

Expressos: rasgam a lavra.

 

Quer dizer, são expelidos,

Encarnam-se no exterior,

Realidade a se propor

Tua, física, aos sentidos.

 

Eles causam muitas vezes,

Muitas vezes a desgraça.

Adorais do drama a traça,

As tragédias mais soezes.

 

E, quando os deixam de amar,

Deixam de adorar a história

Como a vivem, em vanglória,

Por mudá-la vão optar.

 

Para mudar o real

Basta não pensar assim.

Pensa: “tenho êxito em mim”,

Não: “quero êxito”, afinal.

 

 

369 – Descoberta

 

É uma altura perigosa

A descoberta das almas,

Pois se revela gostosa.

Ser dentro dum corpo um ser

E não um ser corporal

É o que mais apela às palmas.

Antes de amadurecer

Neste pendor vicinal,

Fica às vezes a impressão

De que o corpo não importa:

Tem o imo tanta emoção

De ser descoberto à porta!

 

A mente o corpo abandona

E o mais relativo a ele,

Tudo é ignorado na tona,

Que às funduras tudo impele.

 

Ficam relações de lado,

Desaparecem famílias,

Um emprego é abandonado,

Contas ficam por pagar

E o corpo, dado às vigílias,

Nem se vai alimentar.

 

Tudo em alma se concentra

E em questões de alma se adentra.

 

Na vida quotidiana

Pode ser a grande crise,

Mas nisto a mente se engana,

Não dá por nada que a avise,

 

Fica alheia, em beatitude.

Os mais dirão que perdeste

A cabeça que te ilude.

E que outra razão lhes deste?

 

Pode haver desequilíbrio

Para o outro lado, o inverso.

No princípio foi ludíbrio

Do imo a agir como converso

 

Dum corpo que é só o que existe.

Agora, que as almas viste,

 

Não importa o corpo nada.

Não é, contudo, verdade

E, na dor da madrugada,

Logo o vê cada entidade.

 

 

370 – Juízos

 

Não há juízos finais

No que tu chamas de Além

Nem vós a vós vos julgais,

Não se permite também.

 

Não, não há nenhum balanço,

Ninguém aplaude nem vaia.

Os homens, em seu remanso,

Julgam no goto quem caia

 

E presumem tudo assim.

Mas Deus não é como o pintam,

Verdade a que não dão sim

Nunca quantos o desmintam.

 

Mas tens oportunidade

No Além para rever tudo

O que fizeste na idade,

Desde miúdo a graúdo,

 

E se o mesmo escolherias

Para ser quem gostarias.

 

 

371 – Subtil

 

O pensamento é energia

Muito subtil, poderosa.

A palavra é menor guia,

Mais densa dela na prosa.

 

Os actos são mais pesados,

Actuar é uma energia

De forma física em dados,

Move as pedras que irradia.

 

Se pensas, dizes, dás forma

A um conceito negativo,

A energia se confroma,

Tremendo acto criativo.

 

Então não apanhas só

Uma constipação mera,

(Era o mínimo em teu dó)

Soltas dragões, tudo é fera.

 

Mui difícil é inverter

O efeito do pensar negro

Se no mundo já correr,

- Só convertido me integro.

 

 

372 – Ouve-me

 

Ouve-Me em todo o lugar.

E, se tens uma pergunta,

Basta saber, reparar

Que a resposta ao que ela assunta

Já ta dei, já respondi.

Depois abre os olhos bem

Ao mundo em redor de ti.

Minha resposta provém

 

Ou de artigo publicado,

Ou de homilia já escrita,

Pronto a ser lido o recado,

Ou dum filme que a transmita,

 

Da canção ontem composta,

Das palavras ao ouvido

Que te tragam a resposta

Na voz dum ente querido,

 

Do coração dum amigo

Novo que tu vais fazer,

Do vento que em teu abrigo

Assobia o que é viver,

 

Do murmúrio do regato,

Do ribombar do trovão,

Da chuva em tique pacato.

A verdade anda no chão,

 

É da textura da terra,

É da fragrância do lírio,

Da Lua a trepar a serra,

Do Sol a rir em delírio.

 

Minha verdade é grandiosa

Tal como o céu tenebroso

E confiante e gostosa

Como um bebé radioso,

 

Tal coração agitado,

É ruidosa e com perigo

Mas queda é um suspiro dado

Unificado Comigo.

 

Eu não te abandonarei,

- Diz Deus – como abandonar-te?

És criação, minha grei,

És o meu produto de arte,

 

A Minha filha, o Meu filho,

Meu propósito e Meu Eu.

Seja lá qual for teu trilho,

Chama por Mim, que o cadilho

Nos prende: és Meu e Eu sou Teu.

 

 

373 – Importante

 

Sempre ocorre por acaso

O importante que há na vida.

O esforço com que me arraso

A ser melhor de seguida,

 

 

As mil noites sem dormir

A tentar a vida limpa,

Decente e honesta a bulir,

Planos de trepar à grimpa,

 

Fazer moldes e encaixá-los…

- De repente, um cataclismo

Cai sobre nós e os abalos

Tudo lançam ao abismo:

 

De vez revira do avesso

Os gestos com que me teço.

 

 

374 – Fim

 

Não é só no fim da vida

Que nós somos perecíveis.

Toda a vida é despedida

Da maior parte de nós,

Morremos a muitos níveis,

Desatam-se-nos os nós

Desde o dia em que nascemos.

Trocamos as peças mortas

Pelas novas que criemos,

Até fecharmos as portas.

 

Andamos sempre a morrer

Desde quando se nascer.

 

 

375 – Falta

 

Aquele que é narcisista

Terá falta de empatia,

Não pode pôr-se na pista

De quem topa em cada dia.

 

Tem uma desmesurada

Quantidade de furor

Sob a capa refinada

De quem faz de grão-senhor.

 

Vive tão auto-centrado,

É tanto umbigo do mundo,

Que se nem vê degradado,

Um fundo que não tem fundo.

 

 

376 – Vazio

 

Há um vazio a preencher

No centro do coração

Daquele que é narcisista.

Vai ser por esta razão

Que ele quer e sempre insista

Em controlar tudo à mão.

 

Dele a cólera o ajuda

A proteger-se da dor

Por falta de amor desnuda

E por falta do valor

Que desde a infância se gruda

Ao alvo do desamor.

 

O vazio é preenchido

Mas é dali devolvido: