TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

DESVENDO  O  RIO  QUE  LEVE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 241 e 392 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como umensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

241 – Desvendo o rio que leve

 

Desvendo o rio que leve

À paisagem mais ignota,

Desde uma ilhota mui breve

À cachoeira que teve

O condão de erguer-me a cota

 

Vou por meus mistérios fora,

Ao canto aponto a lanterna

Onde mora o que demora

A cara a mostrar-me eterna.

 

Canto cada descoberta

Em cadência bem medida,

Metro e rima sempre certa,

 

Na pegada conhecida

Canto a terra prometida.

 

 

242 – Lei

 

A lei, máquina imperfeita,

Algo se achega à justiça

Quando o servidor que a estreita

Por tal se empenha na liça.

 

Porém, quando a advocacia

Não é prática do bem

Mas em tudo propicia

Manter dela a lei refém,

 

O padrão do que é aceitável,

Em trucagem de advogado,

Em queda livre é provável

Que se veja em todo o lado.

 

Então, da lei à justiça

Todo o caminho se enguiça.

 

 

243 – Dois

 

Há dois modos, sobretudo,

Fáceis de a vida passar:

Acreditarmos em tudo

Ou de tudo duvidar.

 

Ambos evitam, contudo,

Que tenhamos de pensar.

 

 

244 – Crescer

 

Envelhecemos por fora,

Por dentro amadurecemos:

Crescer desconcerta agora

Se reparo no que temos.

 

O melhor de nós aclaram

Mais anos que nós levemos,

O que nos distingue encaram

Ao vogar no barco a remos:

 

Mudam-nos em mais iguais

A nós mesmos, à medida,

Desassossegos vitais

Tranquilizam-se em seguida.

 

Quem se assusta é que mais feio

Se vê na perca dos anos,

Perdido algures no meio,

Devagar, nos desenganos.

 

Envelhece dentro então,

Que só se autoriza agora,

Do imo perdido o pendão,

A amadurecer por fora.

 

 

245 – Montanhas

 

Estas montanhas não rezam,

Já são a oração de Deus.

Têm o lugar que prezam,

Permanecem ante os céus.

 

Estão aí bem desde antes

De alguém as poder olhar,

De ouvir os trovões distantes,

De quem cria perguntar.

 

Nascemos e morreremos

E as montanhas sempre aí.

Vale a pena o que corremos?

Por que não ser como ali

 

A montanha sábia, antiga,

Em seu lugar adequado,

Esperar, sem qualquer briga,

Que o saber finde espalhado?

 

Nós, porém, somos os rios,

Transmudamos a paisagem,

Enfrentamos desafios,

- Nunca nos pára a viagem.

 

 

246 – Fogo

 

Tal como o fogo, o dinheiro

Não é mau nem bom em si,

É neutro, que é por inteiro

Determinado, certeiro,

Pelo olho que o vir ali,

Pela mão boa ou escusa

Daquele que o no fim usa.

 

 

247 – Iguais

 

Homem e mulher diferem,

Não de educados a tal

Na família patriarcal,

Mas porque os anos conferem,

 

Ao fim de quatro milhões

De rumos de evolução,

Modos de ser que não são

Nada iguais nos dois talhões

 

E os cérebros dos dois lados

São muito, enfim, diferentes.

Não é dos tratos presentes

Nem dos brinquedos doados…

 

 

248 – Dádiva

 

Dádiva doutrem apenas

Não é nunca a liberdade.

Antes esta das mais plenas

Dádivas de Deus emana

Que visam a saciedade

Que convém à alma humana.

E é porque é de Deus um dom

Que ninguém lhe anula o tom.

 

 

249 – Culpa

 

Que culpa teremos nós

De que as palavras em si

Sejam vazias, vazias?

Ao mas dizer, logo após,

Tu preenche-las ali

De teu sentido e magias.

Ao recebê-las, porém,

Eu, inevitavelmente,

Preencho-as de meu sentido.

Acreditámos, pois bem,

Concordar em toda a frente.

Nada nos há mais mentido:

 

Se olharmos bem, nós bem vemos

Que nunca nos entendemos.

 

 

 250 – Acto

 

Quando um acto é praticado

Não se muda nunca mais.

Se duma ou doutra maneira

Alguém agiu nalgum lado,

O que fez, fica, jamais

Se lhe apagará da ombreira,

 

Mesmo que depois não sinta

Nem sequer se reconheça

Naquilo que praticou.

É pior que trela ou cinta,

É na prisão que tropeça

Quem num acto se afirmou.

 

São tentáculos, espiras

Que nos vêm tirar ar.

Como a libertar-te aspiras

Se não há como escapar?

 

 

251 – Tua

 

Se me vens representar

Em que realidade ocorre?

Na tua terá lugar,

Que a doutrem não te socorre.

 

Há-de ser única, acaso,

A realidade de todos?

Se houver mil no mesmo prazo,

Mil serão e de mil modos.

 

Mesmo para cada qual

Único o real não é,

Muda, constante e fatal…

- Então em que farei fé?

 

 

252 – Cicatriz

 

Na vida dum ser humano

Não há cicatriz curada.

Reduz-se a uma agulha o dano

Mas lesa na encruzilhada.

 

É como a perda dum dedo

Ou duma vista no assédio.

Não sinto a falta? Num credo

Vejo que não tem remédio.

 

Fica lá sempre o vazio,

Por mais voltas que dê o rio.

 

 

253 – Mulher

 

Mulher de dezanove anos

Atraente é jovial.

A de vinte e nove é igual

Mas já não cai nos enganos

 

De exigir o mundo à volta.

A primeira é uma insolência,

Tem de cadete a envolvência,

Outra é a combatente solta.

 

É um excesso de atenção

Que traz confiança à mais nova.

A mais velha põe à prova

O poder que tem à mão.

 

Ambas os anos vindoiros

Não antecipam, no medo,

Vivem no absoluto credo

De nunca haver maus agoiros.

 

 

254 – Foge-nos

 

A vida foge-nos, foge,

Voam mais rápido os dias

Que arvéloa sem ter que a aloje,

Pedra ao ar que lançarias

 

E que na queda acelera

Trinta e dois pés por segundo,

Ao quadrado, flecha mera

No abismo a tombar profundo.

 

Horrível velocidade

A que de nós se aproxima

A morte, a fatalidade,

Através de qualquer clima.

 

Como o tempo gostarias

Que fora tão lento, lento,

Como em criança o verias

Sem ter nele o pensamento,

 

- Sempre, na brisa ligeira,

Cada dia a vida inteira!

 

 

255 – História

 

É da História o que ocorreu

E o que tempos fora ocorre

E é também discurso meu

Narrando o que em terra morre.

 

Quanto mais escavo ali

A raiz de nosso ser,

Mais longe os limites vi

Carnais de mais “eus” que houver.

 

Isto determina o dia,

Aproxima, em hora certa,

O momento em que diria

Que sou quem ali desperta,

 

Tal se a carne fora minha

De todo  tempo e lugar.

Que fardo a vida adivinha

Ter então de suportar!

 

Mas como digno me acalma

O nosso sentido de alma!

 

 

256 – Debaixo

 

Tal se debaixo dos pés

O chão fora transparente,

De camadas de través

De cristal alvinitente

 

Que descem cada vez mais

Até mesmo ao infinito,

Aos ignotos abismais,

Iluminados, se os fito,

 

- Em minha carne revivo

Os eventos do passado

Que preenchem todo o arquivo

Dos fundos donde sou nado.

 

E assim é que em mim resumo

Do Universo inteiro o sumo.

 

 

257 – Disfarce

 

O pensamento é roupagem,

Disfarce de aspirações,

Antes de qualquer linguagem,

Dois corsos de foliões.

 

Está disposto a mentir

Antes mesmo de falar.

Se honesto o termo surgir,

Não é dele o falsear,

 

- É que anda no pensamento

A máscara que eu invento.

 

 

258 – Espera

 

Uma espera é uma tortura

E ninguém aguentaria

Uma semana a postura,

Sentado ali todo o dia,

E menos se dura um mês,

Um ano tal entremez.

 

Melhor aguenta umas horas

Tal espera tais demoras.

 

Quando o tempo se prolonga

Não se alonga tal tormento,

Enfraquece quão mais longa

For a talhada que enfrento,

Que as ocupações do dia

Distraem quem as avia

 

E no esquecimento cai

A dor que a espera então trai.

 

As horas de pura espera

São mais temíveis, cruéis,

Para a paciência mera

Do que as esperas fiéis

Que se estendem vida fora

Por decénios de demora.

 

Aurora que se anuncia

Morre se não nasce o dia.

 

O que espero logo em frente

É pela proximidade

Que afecta precisamente,

Estímulo que me invade,

Que é muito mais penetrante

Por me estar logo adiante,

 

Transforma-me a paciência

Na arrasadora premência.

 

Uma espera a longo prazo

Deixa-me em paz e permite,

Obriga a cuidar, dar azo

A qualquer outro palpite,

A mil rumos empreender,

Porque tenho de viver.

 

Quão mais tempo se alongar,

Mais fácil nos é esperar.

 

 

259 – Marcha

 

A marcha não vem de fora,

De dentro de ti provém.

A legião de mortos mora

Por cerrada noite além,

 

Léguas de profundidade,

E de lá sobem os gritos,

Camadas de cada idade

São dentro em ti mil conflitos.

 

Homem, és o mais profundo,

Escavado entre os mais pulcros,

Espalhado pelo mundo,

O mais vasto dos sepulcros.

 

 

 260 – Hoje

 

Para mim o hoje não é,

De amanhã sofreguidão.

Ora, amanhã, morte em pé,

Já perdi de vez o chão.

 

Só dou por tudo o que é belo

Quando já passou por mim,

Já não ressuscito o apelo,

De vez mergulho no fim.

 

Há só na vida um momento,

Um momento que sorri,

É de agora este elemento

Que tudo concentra em si.

 

Se pelo absurdo o troquei

É só da morte que sei.

 

 

261 – Eclipsa

 

Papa que eclipsa uma igreja,

Rei que substitui seu reino:

Que excelente um só se veja,

Não todos juntos, em pleno.

 

E que preguiçosamente

Se vão resignando os mais

Ao culto dum eminente

Como a norma dos sinais

 

Da natureza das coisas.

- E assim, mundo, tu repoisas.

 

E, por mor desta preguiça,

O mundo inteiro se enguiça.