QUARTO  TROVÁRIO

 

 

 

AO  MAR  FUNDO  QUE  ME  ELEVE

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 393 e 463 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

393 – Ao mar fundo que me eleve

 

Ao mar fundo que me eleve

Canto aqui regularmente

Na comum métrica breve,

No espelho que o povo teve

Pelos tempos fora em mente.

 

Canto o sonho e a utopia,

O que ao píncaro trepar,

Tendo as estrelas por guia,

E o que aos fundos mergulhar

 

Por mim dentro, nas cavernas

Tacteando a escuridão,

Pelas funduras eternas

 

Donde sempre chispa a luz

Que a luz do dia produz.

 

 

394 – Jogo

 

A vida é um jogo de dados,

O deus em que eu acredito

Fá-los rolar: são os fados,

O destino de meu fito.

 

Ora, este acaso é uma bênção,

Única minha esperança

De que a transpor me convençam

As portas onde me lança.

 

Abre a possibilidades

Que nunca imaginaríamos

Sozinhos: nossas herdades

Aos vizinhos fecharíamos.

 

Quando atendo o inesperado

Um novo mundo me é dado.

 

 

395 – Decisão

 

Toda a espera dói

Como dói esquecer.

Porém não saber

Que decisão foi

De tomar no evento

É que é sofrimento:

 

Tendo a vida diante,

Que é que ma garante?

 

 

396 – Sonhos

 

Segue teus sonhos, transforma

Tua vida num caminho

Que a Deus vá, de qualquer forma:

Cura com o teu carinho,

Teus milagres realiza,

Profetiza, profetiza,

 

E ouve teu anjo da guarda:

- Muda-te no que te aguarda!

 

Sê guerreiro deste embate

E feliz no teu combate!

 

Depois olha o sofrimento:

Hora de transformação

É dos mártires momento.

Antes que o sonho dê pão,

Sacrifica tantos, tantos,

Ridículos, pelos cantos!

 

Sendo acabam perseguidos,

Por loucos a serem tidos,

 

Tentativa milenar

Para os desacreditar.

 

Mas quem morre na fogueira

Ou nas arenas das feras

A porta da glória inteira

Franqueia sem mais esperas.

 

 

397 – Alpinista

 

O alpinista aventureiro

É que sabe qual é a graça,

Ele é que foi o primeiro

No caminho que ameaça.

 

Uns nem chegam a metade,

Outros morreram nas fendas,

Um os dedos persuade

A cortar, mortos, nas tendas…

 

Um dia, porém, chegou

Alguém ao cimo dos picos,

Ele foi que se alegrou

Do imenso com os salpicos.

 

“Não há nada, só paisagem!”

- Cuidam os de cá de baixo.

“Há o desafio e a viagem,

A pedra nova que encaixo,

 

Nenhum dia a outro igual

E cada manhã que augura

Um milagre especial

Num mundo que se inaugura…”

 

- E o primeiro que trepou,

Olhando as casas-migalha

Na lonjura que as tragou,

Outro sentimento espalha:

 

“O dia deles, que igual!

Que graça vai ter aquilo?”

A sério Vida, afinal,

Só no seu rumo intranquilo.

 

 

398 – Realidade

 

Quem a realidade de hoje

Cuida ser a verdadeira

Sustém-se mas ela foge,

No vácuo o lança, ligeira,

 

Que a de hoje vem destinada

A revelar-se amanhã

Como ilusão acabada.

E a vida não conclui, chã,

 

Nunca, nunca, a caminhada.

Jamais pode concluir,

Que, se a conclui, de assentada,

Findou de vez o porvir.

 

 

399 – Longe

 

Quão mais longe nas sondagens,

Mais longe o fundo do poço.

À medida que as viagens

Novas metas, troço a troço,

Vão descobrindo em apoio,

Mais longe importa levar

A sonda por cada arroio,

Mais e mais a aprofundar.

 

Como se quanto encontramos

De investigável nos fora

Proposto em todos os ramos

A zombar a toda a hora

 

Da laboriosa pesquisa.

Somos o navegador

Pela longa costa à brisa

Sem se poder antepor

 

Nunca o termo da viagem.

Após cada descoberta

Avista, em meio à triagem,

O apelo dum novo alerta,

 

Por detrás dum promontório,

Um outro logo a seguir,

Os longes, premonitório,

Sempre a obrigá-lo a cobrir.

 

- Somos infinitamente

Toda a infinidade ausente.

 

 

400 – Ante

 

Ante o Senhor sou o tolo

Para poder ir pisar,

Sem o saber, o lugar

Ponto de união, o solo

 

Que funde a Terra e o Céu,

Durante o sono acolher

Os avisos, sob o véu,

Que me permitam rever

 

Os sonhos mais as visões

- E seguir as instruções!

 

 

401 – Cantar

 

Cantar mas com sentimento,

Deixando-se ir, se perdendo

Na cantiga até o momento

De ser ela a já se ir vendo,

Esta deveras é via

De atingir sabedoria.

 

Rodopiar, sapatear,

Ir-se movendo a figura

Sem o ritmo dissipar,

Ignorando-se na altura,

Eis como a dança nos dança,

Que dentro enfim nos alcança.

 

Tu não és tu, nem eu, eu,

Mas somos os outros todos,

A prisão do corpo abriu,

Somos um de muitos modos.

Visitas teu animal,

Descobres, fazes-te igual.

 

Quem não dorme o pensamento,

Dele próprio já esquecido,

Nas vaidades não tem tento,

Não devém o canto ouvido,

Nem é dança quando dança,

Nem outrem ser nunca alcança.

 

Então não sai da prisão,

Não viaja, não visita

O animal sob o torrão,

Não trepa ao cume que excita.

Não vive nunca em seu horto,

Decadente, é um vivo-morto.

 

 

402 – Espaço

 

O espaço não tem limites,

Além se abre ao infinito.

Nada valem meus palpites

Quando olho este imenso, aflito.

 

Vivo em Planeta de nada

Duma Estrela bem menor,

Aqui na borda gelada

De Galáxia de estupor.

 

Pouco vivo e logo esqueço

E mesmo a Galáxia morre…

- Só tem sentido o que meço

De útil no que de mim corre.

 

 

403 – Mistério

 

O mistério é o de exprimir

Como o espírito devém

Matéria rumo ao porvir,

Como o pó condensa e tem

Mente que nele eu encorpo:

Como é que alma se faz corpo.

 

 

404 – Quanto

 

Um homem é desconforme

Por tudo quanto é por dentro,

Ele e os mortos, todo informe,

Desmedido se nele entro.

 

Nele encerra a vastidão,

A vastidão do Universo.

Somos fantasmas no chão,

Densos no íntimo reverso.

 

E aquilo que construímos,

Desde o sertão à Sibéria,

Não cabe, que as explodimos,

Nas paredes da matéria.

 

 

405 – Real

 

O real, a realidade

Não é uma objectividade,

Há-de ser sempre uma ideia

(Convicção corpo tomando)

Que se faz carne e a permeia,

No palpável realizando,

Lento e lento mais visível,

O sonho sempre impossível.

 

 

406 – Paraíso

 

Qualquer igreja receia

Céu na terra realizar:

O paraíso só ameia,

Para o Fim sempre adiar,

 

É para ser com demora,

De forma nenhuma agora.

 

Nunca se trata da terra,

- Por isso é que o céu emperra.

 

 

407 -  Gerar

 

Aos povos mais que aos governos

Cabe gerar a utopia,

Terra do futuro, ternos,

 

Na do presente, hoje em dia,

Transmudarem, criadores.

Aos povos competiria

 

A epopeia dos maiores

Da contínua mutação

Do mundo em campo de flores.

 

Os povos tal criação

Hão-de assumir, na alegria,

Sonho e determinação,

 

Com humildade por guia,

Da esperança na fundura

Onde o entusiasmo arderia,

 

Tudo em banho de ternura.

Aos povos mais que aos governos

Cabe coser a costura

 

De bens temporais a eternos.

 

 

408 – Fautor

 

Se não for eu o profeta

Fautor de libertação

Duma Terra cuja meta

À violência é pôr travão,

 

Que por liberdade clama,

Logo o Deus da criação

Os vai suscitar na chama

Mesmo das pedras do chão.

 

É que ele nunca desiste

De salvar (eterna guerra

Em que eternamente insiste)

 

E de libertar a Terra.

 

 

409 – Larguem

 

Larguem os templos, penetrem

No mundo inteiro e na História,

Diálogo, esforços perpetrem

Com os mais, rumo à vitória!

 

E libertai-vos do medo

Que os deuses leva a inventar

Que vos devoram num credo

O sangue e a carteira a par!

 

Entregai-vos num só povo,

De alma inteira e coração,

Aos trabalhos de renovo

Que o mundo transformarão,

 

Para que deixe de inferno

Ser algum dia de vez

Das maiorias que eterno

Exclui do humano entremez!

 

Audácia de erradicar

Liberal economia,

Do deus-dinheiro um altar

Que exclui, mata a maioria.

 

Trocá-la por solidária

Economia fraterna

Que tem por meta primária,

A toda a vida que hiberna,

 

Libertá-la em mil renovos

Nos sujeitos e nos povos.

 

 

410 – Jesus

 

O Jesus de Nazaré

Não é de nenhuma igreja,

Por mais que de boa fé

Reivindiquem que ele o seja.

 

Jesus é da humanidade,

Dela acaso o melhor fruto,

Ser humano em realidade

Onde os mais têm o produto.

 

Ateus e crentes os olhos

Nele poderemos ter

Para, entre as marés e os escolhos,

Irmos aprendendo a ser.

 

 

411 – Liberte

 

Ordem nova mundial

Económica e política

Que liberte, espiritual,

De hoje a alienação raquítica

 

Que oprime povos inteiros,

Continentes, como classes,

Proporcione viveiros

De virentes interfaces

 

De vida comunitária,

De fartura e qualidade

- Eis a utopia sumária,

Nunca mais realidade.

 

Dos povos como pastores

Que os dirigentes se portem,

Da libertação mentores

A pascigos que os exortem,

 

Não mais como mercenários,

Menos ainda como lobos!…

- Que sonhos tão perdulários

Na infinda corte de bobos!

 

 

412 – Ventre

 

No fundo ventre da História

Há um mundo outro em gestação

Da quimera sem vitória

Mas sempre em fermentação.

 

Ninguém dono de ninguém,

Nem da riqueza gerada

Doutrem no labor que tem,

Nem de Deus apropriada