QUINTO  TROVÁRIO

 

 

DO  INVULGAR  ÀS  GELOSIAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 464 e 587 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

464 – Do invulgar às gelosias

 

Do invulgar às gelosias,

Na métrica e na cadência

Incomuns tecendo os dias,

Canto estranhas melodias

A amear à transcendência.

 

Em todo o lado perscruto,

Desde o cotio à estranheza

Do além donde um eco escuto,

Desde a feiura à beleza,

 

Vou do simples ao complexo,

Do pé raso até ao cume,

Tudo abraço em meu amplexo.

 

Lanço à terra arada o estrume

A aguardar da seara o lume.

 

 

465 – Armazém

 

Como armazém não é a memória,

Nem é no sótão arca velha.

É um instrumento que da escória

De meu passado cada engelha

 

Vai removendo, aperfeiçoando

Em cada dia a narrativa.

Torna-a aceitável então, quando

O que apreendo ali de outiva

 

Do que vivi, fica acessível

Mas elevado a um outro nível.

 

 

466 – Brilhantemente

 

Brilhantemente inteligentes,

Conhecimentos infinitos,

Gente educada, culta, agentes

Tais não são raros nos conflitos.

 

Angústia funda quem a sinta,

Quem sua noite confrontou

E com clareza se repinta,

Em harmonia terminou,

 

Pela cabeça própria pensa

(Mundivisão bem pessoal),

- Estes não são a malha densa

Na tessitura mundial.

 

Aqueles são muito abundantes,

Estes, bem raros, hoje e dantes.

 

 

467 – Porta

 

Da morte à porta são e salvo,

De pés em bicos, cauteloso,

A vida cruza sempre em alvo,

Não vá perder-se, de medroso.

 

Orar devia, que acordar

Antes da morte era o melhor.

A vida o pode abandonar

E quem se irá só contentar

De bombear sangue, mesmo um ror?

 

Qual destas bombas ambulantes

Da vida frui, mesmo uns instantes?

 

 

468 – Vazio

 

A liberdade não é um quadro

Que no vazio se resume

A dar lugar, riscado a esquadro,

A qualquer um que o quer e assume

 

Para pintar o que deseja.

Lugar arranja, verdadeira,

À sensatez que o mundo almeja,

Compreensão doutrem cimeira.

 

A liberdade se organiza,

Não o arbitrário que alguém giza.

 

 

469 – Espécie

 

Como a nós próprios amar os mais

Não será nunca na quantidade

E também não, não na intensidade,

Antes na espécie pôr-nos iguais.

Amar a minha profundidade

Tal e qual como a minha altitude

E em meu vizinho esta identidade

Livrar de vez, por suma virtude.

 

Ali consumo o equânime laço

Que de infinito semeia o espaço.

 

 

470 – Ditadura

 

A ditadura das maiorias

Revolta tanto como qualquer:

É tal qual como se as minorias

Menos tiverem sempre de ser.

 

E quantas vezes é deste canto

Que vem a cura dum longo pranto!

 

 

471 – Conserta

 

Hirta e gelada conserta a meia

Esburacada, cruzando a linha

Atrás e à frente, como convinha

A recoser a puída teia.

 

Sempre por ordem, atrás e adiante,

Até o buraco ficar por fim

Bem reforçado, como garante

Ao ser tapado todo ele assim.

 

Do deve e haver contabilidade

Nesta caseira administração,

Prejuízo e lucro agora persuade

A mais um ganho na decisão.

 

É a sensação de haver conseguido

Outra vitória na eterna luta

Contra os estragos, dano sofrido,

O desperdício que nos disputa,

 

De ter tapado mais uma fenda

Nesta galera que voga enorme

Pelo Universo, precária tenda

A nosso fito jamais conforme.

 

 

472 – Retornas

 

Partes alegre e retornas triste,

Néscio que buscas o vão prazer,

Tal miúdo imberbe de sonho em riste

Pelo passeio alegre a correr

 

Sábado à noite, com alarido,

Saltando ao carro, a gravata a jeito,

Mãos a esfregar, no gesto sentido

De antecipar gozos mil no peito.

 

Para acordar a gemer domingo,

De manhãzinha, olhar lacrimoso,

Na cama suja com o respingo

Da frustração que sofres do gozo.

 

E de lavado a mamã fará

A cama triste armada acolá.

 

 

473 – Sozinhos

 

Quando sozinhos estiverdes,

Divertimentos da cidade

Não são a meta a vos aterdes,

Se procurais identidade.

 

Muita atenção é de prestar

A vós, a vós próprios, enfim,

E encontrareis vosso lugar,

Vosso caminho rumo ao fim.

 

Toda a fundura que se encontra

É o bem sagrado a vir à montra.

 

 

474 – Remorsos

 

O que remorsos me provoca

É que outros mais, aqui na terra,

Remorso algum se lhes evoca,

Seja o que for que lho desterra.

 

Juiz corrupto é sorridente

Que proferir condenações

Irá, mas sempre indiferente,

Abominável de aleijões.

 

E respeitáveis generais

Ao telefone seus soldados

À morte enviam já, fatais,

Senão são mortos, fuzilados.

 

E carteiristas já trancados,

Na cela presos, negam, negam,

Que de artes tais não há lesados,

Ninguém atingem – sempre alegam.

 

Mulher que rouba o fado a um homem

E que se arvora em salvadora,

Que ao colo dela se consomem

Vítimas mil entre os que adora.

 

Homens mostrengos, cara inchada,

Fato apurado, a controlar

Povos inteiros à manada,

Sempre a mentir que os vão salvar.

 

Sinto remorsos de ser parte

Da teia imensa que me engana,

Remorso, pois, da infiel arte

De pertencer à raça humana.

 

 

475 – Renegar

 

Através dos tempos terá vindo o homem

A se renegar, com a separação.

Cada terra é terra por onde se somem,

Separada e longe, um diferente chão.

 

Diferente o sonho, mas não separado

Há-de ser dos outros que outros hão traçado.

 

Diferentes ser havemos de poder,

Necessariamente, mas não divididos.

Promovam o encontro de raças que houver,

Misturem culturas, animem sentidos,

 

Promovam a ideia, a ideia de mistura

Sem deixar de ser o que são de alma pura.

 

Único não sou só porque me separo

Dos outros, que apenas então sou sozinho.

Único deveras sou quando reparo

Que entre a multidão único ser me alinho,

 

Aceitando os mais em quanto cada apresta,

Deles sendo aceite no que em mim me resta.

 

Misturar é isto, para os grupos ir,

Levar para os outros de mim o esplendor,

Mas sem de mim próprio ter de prescindir,

Minha diferença entregando em penhor.

 

 

476 – Mártir

 

Como um mártir usa o homem sua dor.

Todo o homem neste estágio mártir é

Dele próprio, que não usa contrapor

Decisão para aprender e tomar pé,

 

Evoluir no sofrimento,

E, a partir deste momento,

 

Com a lição aprendida,

Cicatrizar a ferida.

 

Deverias viver bem nas cicatrizes:

Dor curada com lição bem aprendida.

Todo o homem  que cuidar que a dor matizes

São apenas dum castigo do céu lida

 

Como quem não entendeu

O propósito do céu:

 

É que o céu nunca castiga

Por castigar quem obriga.

 

Como aviso a dor nos vem, uma advertência,

Resultado projectado de algo de antes.

Entendendo o sofrimento, eis a aparência

Do que quis e projectei logo operantes.

 

Ao entender como agi

Entendo a mudança aqui

 

E quanto devo mudar

Para a dor me abandonar.

 

A ferida cicatrizo,

Problema logo encerrado,

Tal é o círculo que viso,

De circuito então fechado.

 

 

477 – Paixão

 

Rebenta a paixão, pela campina,

Centelha divina em explosão,

E qualquer decência logo inclina,

Tudo na pendência da intuição.

 

A paixão é intensidade

Do pensar no coração,

Descalabro da verdade

Perdida no turbilhão.

 

Pela paixão faz-se tudo

E tudo perde a paixão,

Morre quenquer a que aludo,

Impérios tombam no chão.

 

Paixão é esquizofrenia

E alma também, já que a cura,

Dor e remédio num dia,

Riso e choro que inaugura.

 

Por paixão correram rios

De sangue, arderam papéis,

Negócios mais atavios,

Planos alteraram reis…

 

Paixão, o estado celeste

De desconstruir matéria,

Desconstrói tudo em que investe,

Volta a construir, sidérea.

 

Os apaixonados vão Além

Sem o perceber sequer um dia:

O estado de graça que contêm

É o mais junto ao céu que se anuncia.

 

 

478 – Instante

 

A perguntar para ti mesmo

A cada instante és convidado:

“O que me a vida der a esmo

Como é que o tenho utilizado?”

 

Ao responderes positivo,

Da própria vida reafirmas

Basilarmente o objectivo

Que é recriar-te (o que confirmas)

 

Na mais grandiosa das versões

Da visão mais sobrelevada

Que alguma vez tens e propões

De quem tu és, do imo à fachada.

 

Ir trabalhando esta questão

Poderás, pois, pelo caminho.

De decidir não tens então

Por toda a vida, eu te adivinho,

 

Agora, aqui, só neste instante.

Podes fazer esta pergunta

Desde hoje em dia, de ora em diante,

E descobrir que ela te junta

 

O que funciona e faz sentido

Nestas respostas, dia a dia.

Felicidade é o que é vivido,

Tens, desde já, paz e alegria.

 

 

479 – Separados

 

Quase todos os humanos crêem

Uns dos outros separados irem:

Não são parte dum só corpo, lêem

No seu corpo, por distinto o virem.

 

Acreditam que cortados são

Dum ambiente em cujo meio vivem:

Não fariam dum sistema são

Parte alguma com que, enfim, convivem.

 

Separados acreditam ir

Do divino, pois um deus qualquer

Deles se houve de, de vez, cindir:

Não são parte eles jamais de Um ser.

 

Esta crença a destruir-nos todos

Anda já, na desunião dos modos.

 

 

480 – Escasso

 

O medo do escasso é vivido

Duma tão completa maneira

Que, parte integrante, fundido,

Da interioridade se abeira,

Em todo o lugar, eras fora.

Não é pensamento em alguém,

Antes realidade que mora,

Erma, pelas terras além.

 

Esta realidade confirma

Todo o pensamento depois,

Consolida-o mesmo, reafirma

Apontado a iguais negros sóis.

 

Há-de recriar pensamento

Por ele a criada verdade,

Renova-se a cada momento

A negra ilusão que me invade.

 

Começa então tudo a girar

Destas ilusões em redor

E quanto é real num lugar

Como não real vou supor.

 

 

481 – Excluis

 

Do que outrem quer não faças nada

Se a ti te excluis no que empreendes.

Na vida muito do que agrada

Agrada aos dois, se a bem entendes:

 

Caminha em frente, neste caso.

Só não actues se agradar

Ao outro, a ti te põe a prazo,

Se não te apraz aquele actuar.

 

O agrado ao outro a ti te agrada

Sempre que os dois compartilharem

O mesmo fito além na estrada,

Se for o mesmo por que ansiarem.

 

O rumo é ver o que outrem quer

E o que tu queres de igual campo:

Verificado quanto houver,

Aos dois vos liga um mesmo grampo.

 

Surpreendido ficarás

Da quantidade de ocasiões

Em que, no que outro a ti te traz,

Tens do que buscas teus quinhões..