DÉCIMO  TROVÁRIO

 

 

 

LAÇOS  CANTO  EM  METRO  INCERTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1015 e 1077 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1015 – Laços canto em metro incerto

                                                              

Laços canto em metro incerto,

Das fronteiras buscando para além

O que o amor contém ao longe e ao perto,

Conjugando o que rimar desperto

Na vida e na palavra que a retém.

 

No ritmo desencontrado

Encontro a rima perfeita

Com quanto por todo o lado

Nos espreita.

 

Neste encontro aos encontrões

É que vislumbro o cariz

Mais constante das humanas relações.

 

Suspeito que o que me diz

Afinal é dos afectos a matriz.

 

 

 

1016 - Alterar

 

Oiro,

Como pode o oiro alterar o homem,

Homem que é meramente humano?

Como é que o tesoiro

Comem

Os olhos de água que de mim dimano?

É que também nós o queremos

E pagamos, regulares,

Tributos extremos

Aos que o oiro exibem, alvares.

 

- Depois queixamo-nos, no meio da trama,

De que, no fundo, ninguém nos ama.

 

 

1017 - Vida

 

Já que a vida é um portão,

Uma trilha,

Uma via

A rumar ao Paraíso,

Por que não

Viver a maravilha,

O prazer, a alegria,

O amor de que preciso

Com quem me quer

À minha beira,

Aqui junto à fogueira

De quanto no mundo arder?

 

Por que não buscar

E prosseguir

Tudo quanto desejar

E rir e rir e rir?

 

 

1018 – Sangue

 

De meu sangue quem não for

De assalto as emoções há-de lograr

Mais fácil me tomar

Que alguém de meu teor.

 

Nos braços dum estranho,

Dele no coração,

Lucro o inesperado ganho:

- Ganho um espelho de eleição.

 

 

1019 – Porta

 

Pode ela não ser mais esperta,

Importa, porém, que o creias

Para te apaixonares, a porta aberta

Por inteiro e não a meias.

 

Porque todos queremos saber

Mais dados do mistério,

Como encaixa a peça que ocorrer

Nas mais do pâzle sidéreo.

 

A palavra seduz,

Encurrala-nos num beco sem saída,

Ela apenas ali sustenta a luz

Na mão erguida.

 

Todos queremos, acima de tudo,

Crescer e mudar,

Admirável mundo novo a que me grudo,

Mesmo quando nunca saio do lugar.

 

 

1020 – Afectos

 

Alguns afectos facilmente,

Quando à luz pública expostos,

Se corrompem de repente

Nas praças, nas ruas, nos gostos.

 

Do mártir a relíquia guarda-se no segredo

Do templo para que o mistério

A acrescente no credo,

Lhe preserve o império.

 

A jóia mais rara

No cofre anda fechada,

Cara

E vigiada.

 

A sacra sabedoria

É do clero monopólio,

Assim garantindo a magia

E o sólio.

 

Divulgar,

Ao mesmo tempo que emana,

É sempre banalizar,

Profana.

 

Se nosso amor é sagrado,

(E é sagrado e mui discreto),

Deve então ser preservado,

Permanecer secreto.

 

 

1021 – Gera

 

Um homem gera um filho,

Este oferta-lhe dois netos

E estes, quatro bisnetos,

De modo que deste rastilho

 

Borbota um caudal barulhento

De gente com igual nome,

Sangue igual que, lento e lento,

O tempo longo consome

 

A mimar eternidade.

Gerar um filho desencadeia

Um universo:

Vem ódio, vem amizade,

Anjos e demónios espalhados pela aldeia,

O sublime e o abominável por todo o lado disperso.

 

Reparo,

Quando olho os meus,

Neste sentido raro:

- Sou quase Deus!

 

 

1022 – Contem

 

Gostamos todos que nos contem histórias,

Crianças eternas,

Imaginamos verdadeiras as ternas

Memórias

Das palavras,

Pomo-nos à rabiça do arado

Do herói que rasga as lavras

E, no fim de tudo imaginado,

Julgamos compreendê-lo

Porque a nós nos compreendemos,

Perfeito e acabado

O elo

Entre ambos os extremos.

 

E é tudo ilusão,

Temos, às vezes, um vislumbre de quem somos

E, no fim, não,

Nunca temos a certeza que supomos.

 

E, conforme a vida continua,

Cada vez mais opacos a nós próprios devimos,

Cada vez nos fere mais a pua

De nossa incoerência:

Quão mais nos cimos,

Mais na decadência.

 

Não há como atravessar a fronteira

Doutrem para dentro

Apenas porque não há mesmo maneira:

- Em mim não entro.

 

 

1023 – Admirar

 

O amor tem o privilégio

De levar a admirar mesmo a tolice.

A ternura da mãe não tem limites

Ante o sortilégio

(Para os mais sandice)

Do primeiro passo desajeitado

Do filho à procura de desquites,

Mal atremado.

 

Espreita ali, entretanto,

Dum novo mundo o encanto.

 

 

1024 – Atrair

 

Não há como a eloquência

Para atrair a mulher.

Jamais logra compreender

Que um marido que a escutar

Deve ter a prevalência

Sobre o que sabe falar.

 

Mas é a força da palavra

Ouvida

Que sempre por dentro a lavra,

Em seguida.

 

 

1025 – Maltrato

 

Não maltrato coisa alguma

Neste mundo.

Nele entrei pelo amor fecundo

Doutrem, em suma,

E, para levar meu corpo e meu imo

Da maturidade ao cimo

Muita gente

Teve de trabalhar e de estudar, renitente.

 

Seria muita arrogância

E bem mesquinha

Destruir tanta fragrância

Que seria incapaz

De fazer renascer de minha vinha

Em paz,

Por quaisquer actividades precárias

De minhas mãos solitárias.

 

 

1026 – Vagueiam

 

Os que vagueiam pelo derradeiro lugar

No espectáculo do mundo

Não têm outro meio de alcançar

Os que adiante correm no longe profundo

 

Senão pedras lhes atirando.

Muitos povos vivem em tal conjuntura.

Se muito para trás os forem deixando

Os que se guindam a píncaros de formosura,

 

Voando sozinhos, egoístas, distraídos,

Alvos devirão das pedras dos ofendidos

 

Que se sentirão justamente maltratados

- Porque ignorados.

 

 

1027 – Enfrentam

 

Aqueles que enfrentam a morte

Não cuidam nos degraus que galgaram,

Nos feudos que ocuparam,

Nos oiros que acumularam.

 

O que quer que seja que lhes importe,

No final,

(Boa medida da vida desfiada),

O que os empenha, real,

São aqueles

Que amaram e os amaram a eles,

Mais nada, mais nada.

No fim, desnudo,

O anel do amor é tudo.

 

 

1028 – Dinheiro

 

Não creio que o dinheiro seja nobre.

Entretanto, é desproporcionado

Negar-lhe quanta importância lhe sobre,

Embora avilte por excelência

Havê-lo tornado

O centro da existência.

 

Do amor, porém, na periferia,

Compra-lhe o azeite da almotolia

 

Que alumia cada hora

Que a vida nos demora..

 

 

1029 – Sexual

 

O amor sexual a vantagem

Tem de a carne ser

Confirmação de qualquer

Acto, evento,

Fantasiosa viagem,

Naquele momento.

 

Tem a inelutável escala

Do fado:

O corpo fala

E tudo é silenciado.

 

 

1030 – Perto

 

Anda bem perto de nós

A felicidade acaso longe procurada,

Num afecto natural,

Na fraternidade de amigos, amor de pais, de avós,

No abraço conjugal…

 

Perante isto,

Marcos da minha estrada

Pelos quais subsisto,

Tudo o mais é nada.

 

 

1031 – Empenhar-se

 

Empenhar-se pela humanidade em geral,

Que fácil!

A multidão anónima , que pungente ideal,

Tão grácil

Ser por aqueles, acolá,

Cujo sofrimento nunca ninguém verá!…

 

Isto não é nada, porém,

Que amar o próximo verdadeiro,

Aquele cuja dor descobrimos, enterrado no lameiro,

Refém,

Aqui colado quase a nós,

Num dia inadiável desatá-lo dos cipós,

Isto é que é amar,

Tem da cordialidade o tom,

O coração a sangrar,

- Isto é que é ser bom!

 

O mais que para o geral daqui vier

É que então desta bondade há-de viver.

 

 

1032 – Velocidade

 

Um amor que me seduz

Atinge-me à velocidade da luz.

 

A separação é doutro tom:

Chega à do som.

 

Por isso,

Depois do bom

Que tudo foi,

Queimado o chamiço,

Remói

E dói e dói e dói…

 

 

1033 – Íntima

 

Da vida uma estranheza

É que ao vermos uma pessoa durante meses,

Tão íntima se nos preza

Que nem logramos imaginar, corteses,

A vida sem ela.

 

Um corte, porém,

Na sequela

Sobrevém

E após a separação tudo continua

De idêntica maneira.

 

A companhia

Que tão imprescindível parecia

Actua,

Afinal, como inútil parceira.

 

A vida corre indiferente pela rua

E nem sentimos, ao menos,

A perda do amigo que perdemos.

 

 

1034 – Canto

 

Nada mais vão

Que sobre quem amamos meditar.

Tais cadeias

De ideias

São

Como o canto guerreiro e popular

Donde borbotam episódios

Aos milhares

De amores e de ódios,

Mas cujo refrão,

Contumaz, há-de sempre retornar

E se repete, de versos aos pares,

Mesmo quando para ninguém

A propósito vem.

 

 

1035 – Viu

 

Ninguém me viu, ninguém,

E nunca vim a descobrir se ela

Chegou a pressentir meu parabém.

Escarpas rochosas eu trepei, porém,

Arrisquei a vida ao saltar cada cancela,

A fim de poisar um ramo de rosas perfumadas

De casa dela nas escadas.

 

Sempre houve ali algo de doce,

De alegremente triste,

Dum poema que se esboce

E só vagamente existe.

Sempre me foi benfazejo

E leva a que em mim tão fundo se aloje

Que ainda hoje

O sinto, mesmo se nada vejo.

 

Apenas em horas de descrença

De rosas esta aventura

Se me antolha e apura

Como inútil quixotesca benquerença.

 

Haja Deus, haja Deus,

Que dali ressuma um qualquer apelo aos céus.

 

 

1036 – Sofri

 

Tal é o amor:

Muito sofri nas eras dele, entrementes,

Como arrasta com ele tanta dor!

E como tais cores não são nunca pertinentes:

Afinal, que importarão

Mil dores que por ele sofra ou não?

 

Desde que borbote o inebriante convívio,

O estreito e vital nó que nos liga a quanto é vivo,

E o amor, de oblívio,

Não arrefeça, esquivo…

 

Darás tudo, mesmo os dias mais alegres,

À custa embora de gritos e de prantos,

Só para que teu olhar de novo integres

No interior do santo dos santos.

 

Dói amargo aos olhos e ao coração,

Orgulho e vaidade aparam golpes cruéis,

Mas depois, que pacificação:

Ficamos tão humildes, tão calmos, tão fiéis

E tão mais maduros em cada ramo podado!

É de tal sorte

Que, desta morte,

Cada qual ressuscita por uma vez vivificado.

 

 

1037 – Lume

 

Relativamente ao amor,

Toda a vida sou miúdo:

O amor pela mulher sempre foi adorador,

Culto depurador,

Lume erguido a libertar-se, mudo,

De meu coração turvado,

Mãos erguidas para o céu estrelado

Sob o manto azul.

 

Venero a mulher como diferente,

Enigmática e bela,

Quentura soalheira do sul,

Superior no encanto ausente-presente,

Na unidade de ser caravela

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