DÉCIMO  PRIMEIRO  TROVÁRIO

 

 

 

DOS  DIAS  O  DESENCONTRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1078 e 1200 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1078 – Dos dias o desencontro

 

Dos dias o desencontro

Canto em metro irregular

Com toda a rima do encontro,

A ver se me reencontro

Algures, nalgum lugar.

 

Canto o saber e o sabor

E a dúvida que restar

No calor

De cada dia que findar.

 

Canto as surpresas,

A pergunta presa ao beco

Do escuro das incertezas.

 

Canto, faminto e seco,

Quanto, inocente, peco.

 

 

1079 – Pérolas

 

Pérolas de sabedoria

Da boca nos brotam automaticamente,

Cada dia,

Sem cuidarmos no que tal represente.

 

Se paráramos para nos escutar

A nós próprios na avenida,

Acabaríamos por emendar

Nossa vida.

 

 

1080 – Pensam

 

Ou pensamos

Ou os outros pensam por nós.

 

E, mal nos precatamos,

Atam-nos com mil cipós,

Dominam-nos,

Pervertem-nos e disciplinam-nos

Os gostos naturais,

Civilizam-nos

Com mil pendores culturais…

- Enfim, esterilizam-nos, esterilizam-nos!

 

 

1081 – Procura

 

Quem procura fé, filosofia,

Quando corre bem o dia?

 

Com ventos de feição

Não custa a navegação.

 

É para os ventos adversos

Que teremos de andar tersos.

 

E quem dominar do mundo os arcanos

Pode melhor do que os humanos?

 

 

1082 – Acostumamo-nos

 

Acostumamo-nos à paz, nós todos,

Com tal facilidade e rapidez!

 

Tal como reagimos aos engodos

Com que nos atinge, de viés,

O momento da boa saúde:

Como nos ilude,

Aparentando a máscara mais vulgar

Do mundo, da vida!

Esquecemo-nos até, se calhar,

De quando a morbidez

Contra nós marcou a lida:

Então, quando doentes,

A saúde era tudo para nós.

 

Com a paz, por igual, entrementes,

Da guerra obliteramos quanto foi atroz.

 

 

1083 – Ilusão

 

A ilusão da proximidade

Do desejado na manhã de nevoeiro

Quantas vezes é meramente a mágoa

Por um passado sem idade

Que morreu,

Que morreu por inteiro!

A tristeza alimento-a e trago-a

Sob o véu

Tutelar

De a vida não parar,

Conformado.

 

Proximidade do fado,

Não do amor compartilhado.

 

No fundo, a mentira

Duma ilusão que delira.

 

 

1084 – Vezes

 

Podemos retornar

Muitas vezes ao mesmo lugar.

 

E a coisa mais estranha

Quando cada qual

Retorna muitas vezes

Ao mesmo local

É o que ele ganha:

- Deixa de afligir-se com os conveses

Do passado.

 

Começa a ver

Que este não existe em nenhum lado,

Na vida real,

Mas apenas na cabeça de quenquer.

 

Acaba por pisá-lo e o esmagar,

Primeiro como quem pisa a relva do jardim,

Depois como quem lá vai passear,

É um recanto do que restou de mim.

 

O passado mora aqui no coração,

Não ali, na poeirenta pegada do chão.

 

 

1085 – Atingir

 

Muitas vezes hei cuidado

Se alguma vez é viável

Atingir a verdade.

É o bocado

Intragável

Da maturidade.

 

Então, de entrada,

Pressinto que tudo o que fizer

Acaba, no fim, por não valer

Nada.

 

 

1086 – Escolha

 

Quem não tem nada

É que pode, neste mundo, escolher.

Quem algo tiver,

Tem a mão algemada

Ao que houver possuído:

- Não escolhe, é escolhido!

 

 

1087 – Discretos

 

Discretos vaguearemos pela vida

Tão de passagem

Como o povo que há dez milénios, de fugida,

Este vale habitou, esta miragem.

 

Apenas com mais algum ruído,

Mais um punhado de pontes e de estradas,

De diques a escorar o aluído,

De viaturas tão afadigadas

Nos enganos

Que nem durarão uma vida,

Quanto mais um milhão de anos!

O mundo é por inteiro mudança e despedida,

Todo teia transitória

Que deixamos e nos deixa.

 

A longo prazo, que bom,

Nem se nos requer memória,

Nem temos razões de queixa!

 

Do mundo na praça,

Como tudo o mais, somos mero vago som

Que perpassa. E de vez passa…

 

 

1088 – Infantes

 

Enquanto infantes inocentes

No primeiro patamar da vida,

Somos crentes:

Acreditamos que tudo são festivais

Na ermida

Do tecto de nossos pais.

 

Depois vem o dia do terramoto

E eis-nos desgraçados, infelizes,

De olho cego, de pé boto,

Quebrados os dentes, rasgados os narizes.

 

E, miseráveis e desamparados,

Com rostos de fantasma macabro,

Angustiados,

Atravessamos o descalabro

Famintos de amor,

Pejados de apelo.

A vida, porém, é pesadelo

A estremecer de horror.

 

Aí, então, somos o tolo

Vergado pelo Mal

No meio da refrega:

De raiz perdido o controlo,

Resta-nos o abandono radical,

A entrega, a derradeira Entrega.

 

 

1089 – Temporadas

 

Quando vivo temporadas no deserto

Até me esqueço de admirar a lua,

Como um homem casado, para o mais desperto,

Nem olha sequer

Para o rosto da mulher

Nem para a mulher nua.

 

Pior

Não é o pecado de omissão:

Sinal de preocupação

É esboroar o valor.

 

 

1090 – Pior

 

O pior da adultez

É que do princípio partem os mais

De que nossa personalidade  já de vez

Teve tempo para desenvolver

Todos os potenciais.

O problema da meia-idade

É que quenquer

Julga completada toda a formação,

Fixa-nos a identidade.

E qualquer rumo a maior maturidade

É traição.

 

Tudo camufladamente configura

Uma nova escravatura.

 

 

1091 – Apenas

 

Apenas o rico não se pode dar ao luxo

De ser esperto,

Dos compromissos enfiou o capucho,

Aferrolhado anos e anos no palácio deserto

Aos privilégios.

Tem de proteger os bens,

Os bruxedos e os sortilégios.

Não há gente mais mesquinha

Do que o rico e sua gens.

Tem de respeitar das regras a gavinha

Que o ata ao mundo civilizado

E crê-se livre assim atado.

 

A guerra vai declarar,

Da honra tem o sentido,

Mas o pé não pode arredar,

Que à soleira do portão o tem fundido.

 

Nós outros somos livres, porém,

Como qualquer desvalido

Que nada tem.

 

 

1092 – Vemos

 

Quando jovens, não nos vemos ao espelho.

Fá-lo quenquer quando velho,

 

Preocupado com o nome,

Com a lenda onde se atriga outra fome,

 

Com o significado que a vida, já de escuro,

Lhe terá para o futuro.

 

Envaidecemo-nos do nome e apelido,

Com pretensões ao domínio dos escolhos,

De havermos sido

Os primeiros olhos,

O tiro mais impoluto,

O mercador mais astuto…

 

- É Narciso de pele engelhada

Quem quer ver a própria imagem gravada.

 

 

1093 – Urbes

 

Urbes que noutros tempos grandes foram

Devieram hoje pequenas

E as que de grandes hoje se namoram

Pequenas foram noutras cenas.

 

Dos homens a boa fortuna

Nunca demora no mesmo lugar

Sem, fatal, uma lacuna

A acompanhar.

 

 

1094 – Detestar

 

Detestar conflitos

Nunca impede quenquer

Da actuar como entender

Nem de à própria maneira atritos

Tornear e resolver.

 

Há um enorme território ignorado

De quem leva uma vida silenciosa

Ao lado

E que ninguém goza.

 

 

1095 – Mundo

 

Anda o mundo fragmentado,

Perdemos mais que o sentido

Dos objectivos, dos fins primevos,

Perdemos também linguagem, o traslado

Que nos tem permitido

Falar de tal, de tal ser coevos.

 

É tudo de matriz espiritual,

Indubitavelmente,

Com o análogo, porém, do mundo material:

O esmigalhar do presente.

 

 

1096 – Operam

 

Não operam obrigatoriamente

As palavras: podem antes obscurecer

Em qualquer mente

O que tentam dizer.

 

Dão sempre um menu surpresa

A quem se sentar à mesa.

 

 

1097 – Recuso

 

Recuso aceitar um mundo

Em que o assassino duma criança

Escapa, jucundo,

E nenhum castigo o alcança.

 

Mesmo que o bandido esteja morto,

É preciso dispor-nos a sacrificar

Vida e alegria a reparar

Aquele pedaço de mundo torto.

 

Não por qualquer interesse pessoal,

(O de progenitor, parente…),

Mas apenas por tal

Ser tão indecente,

Tão Mal.

 

Recuso de sal

Um ambiente

Que nos mintam como ideal

Comida de gente.

 

 

1098 – Marcado

 

Marcado pelo pasado,

Um evento acontece

E não poderei após fazer mais nada.

Ocorre um dado

E jamais perece,

Continua ocorrido na infinda estrada.

 

Ah, não poder

Ser alterada

A marca para trás abandonada,

Não poder desacontecer!

 

O limite foi de vez medido:

Como não ser

Após haver sido?

 

 

1099 – Fundamental

 

Por mais factos que hajam contado,

Por mais pormenores que hajam fornecido,

O fundamental resiste ao trato dado,

A qualquer tentativa de o haver esgotado,

Fatalmente para além desconhecido.

 

Ignorá-lo alguém, triunfalista,

É de ignorante dele duplicar a lista.

 

 

1100 – Belo

 

Um desapontamento

Não te deve levar a desprezar

Todo e qualquer belo evento

Que a vida te ofertar.

 

Em teu desgosto

Podes não crer na utilidade de existir.

Repara, porém, que meu rosto

Não tem outro motivo senão de te servir.

 

 

1101 – Contador

 

O mau contador de histórias,

Após falhar, diz à plateia:

“Vocês tinham de lá estar!”

O bom contador tem tais memórias

Que nos faz crer, mal ameia,

Que estávamos mesmo em tal lugar.

Entra por nós dentro tanto

Que o coração nos repica em cada canto.

 

 

1102 – Carta

 

Em geral,

Muito melhor na carta que escreve

É cada qual

Do que na realidade.

Ali a poesia o susteve,

Nesta é a lama da rua que o invade.