DÉCIMO  SEGUNDO  TROVÁRIO

 

 

DOS  CUMES  O  LONGE  ABERTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1201 e 1284 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1201 – Dos cumes o longe aberto

 

Dos cumes o longe aberto

Ameio neste canto

Em metro incerto,

A coberto

Do sonho e da utopia: do encantamento do encanto.

 

Uso a rima

Em metro que troca o passo

A arremedar de baixo e de cima

O descabido compasso.

 

Na lonjura mora o sonho,

Tanto o de dentro como o de fora,

É o porvir onde inteiro me deponho.

 

Muito mais que neste agora onde me cito

É ali que habito.

 

 

 

1202 – Acompanha

 

A poesia o sangue me acelera,

Abre as janelas do mistério repentinas,

Descobre o mundo no vector da Primavera

Acompanha o coração

Nas desoladas campinas

Do amor e da solidão.

 

- Senão, na carne de cada dia,

Para que serve a poesia?

 

 

1203 – Onda

 

A onda é que nos leva

No mar, na vida.

Prisioneiros da treva,

Não podemos compreender nem julgar,

Apenas, a respiração sustida,

Deixar-nos levar.

 

Que bom, no fundo,

Verificar

Que não trago às costas o mundo!

 

 

1204 – Mergulhados

 

Vivemos mergulhados na substância

Do Universo

Que, em derradeira instância,

É a substância divina

De que verso

E converso,

Nunca terso,

Como sina.

 

Tergiverso, tergiverso,

Mas onde poderia ela estar

Senão aqui neste lugar?

 

Ou então de vez não está!

- Mas então quem me chama dacolá?…

 

 

1205 – Conta

 

Dou-me conta, horrorizado,

De que a vida inteira a enganar-me

Terei andado,

Cuidando que havia sempre um novo carme,

O carme seguinte,

A escrever, para o teatro continuar.

 

E não passo dum títere, dum pedinte,

Dum palhaço de rosto alvar,

Doente, doente,

Como toda a demais gente.

 

E nem sequer

Um esforço vivificante e sensato

Operarei qualquer

Para o espírito confortar

Neste estado sinistro e final,

Neste desacato,

Neste desespero mortal,

Aflito,

De quem nunca encontra o lugar

No meio do mar

Do infinito.

 

 

1206 – Última

 

Ninguém obtém

A última realidade.

Ninguém

Atinge a fronteira

Derradeira

Da cidade.

 

Continuamos a viver,

Rolando em todas as rodas,

À espera de um dia qualquer

Atingi-la duma vez por todas.

 

A nossa sorte,

Porém,

Então,

É se a detém

Ou não

A gadanha da morte.

 

 

1207 – Corremos

 

Quando corremos de carro na lonjura,

Alongando-nos do lar,

Do amigo, do familiar,

Que vão diminuindo de tamanho na planura,

Até deles a mancha se dissipar

Tanto quanto se distancia,

Que sentimento nos angustia?

 

É o mundo a pesar,

Grande em demasia,

A fundir-se na imensidão dos céus,

- É o adeus.

 

Contudo, queiramo-lo ou não,

Corremos à próxima aventura

Com a frenética loucura

Do apelo do céu, do apelo do chão.

 

 

1208 – Deserto

 

Através do deserto adusto

Persegue-me o árabe vulto

Branco-preto, branco-preto,

De que, a custo,

Tento fugir inulto

Em busca de tecto.

Ele, porém, sempre me apanha

Mal a soleira da porta o pé me ganha.

 

Através do deserto da vida

O espectro nos persegue

E de nós se apodera, de seguida,

Antes que, conciso,

Adregue

O paraíso.

É a morte que, morta,

Nos surpreende

Do Éden à porta?

 

Ou dela o medo é que nos rende,

Vergados,

Do ignoto ao temor por que somos apanhados?

 

Ansiamos a vida inteira,

A suspirar, a gemer,

A sofrer

Qualquer canseira,

Pela reminiscência

Duma eventual felicidade perdida,

Porventura do ventre materno a vivência,

Que apenas, com sorte,

Poderá ser reproduzida

Na morte.

 

Quem quer, quem quer,

Porém,

Morrer,

Saltando, confiante, para o Além?

 

 

1209 – Morremos

 

Morremos albergando em nós

Miríades de tribos e de amantes,

De sabores que provámos dos avós,

De corpos como rios hiantes

De sabedoria

Onde mergulhámos e nadámos

Na correnteza que fluía,

De personalidades a que trepámos

Como árvores de fruta

Que entre si a pequenada disputa,

De medos em cujas grutas, nos extremos,

Nos escondemos.

 

A natureza,

O Cosmos inteiro nos marca,

Não é da parca

A destreza.

 

Em lugar de apenas inscrevermos

O nome num mapa,

Como os ricos na frontaria dos ermos

Prédios donde a vida escapa,

 

Somos colectivas histórias,

Livros colectivos,

Não somos escravos mas vivas memórias,

Os mortos são do infinito arquivos

Perenemente vivos.

 

Numa terra assim

Não há mapas: há o Todo em mim.

 

 

1210 – Ovo

 

Todo o homem é um ovo, todo o homem.

Existimos,

A forma, porém, ainda não atingimos

Que é nosso destino

Que as pegadas nos tomem

E domem.

 

Somos um potencial clandestino,

Puro estar-para-ser:

Criatura caída,

Ovo a se esbarrondar.

Nosso dever

É recolocar cada fragmento, à medida,

No requerido lugar:

- E o Infinito começa a transparecer.

 

 

1211 – Agradável

 

Que agradável o escuro,

Que excitante não saber

O que há-de vir a ocorrer

A seguir, por trás do muro!

 

Obriga a ficar alerta

(E que mal haverá nisto?),

Bem acordado, a orelha desperta,

Atento ao que existo.

 

Desnudo,

Absorvo

Pelo miúdo,

Pronto, expectante e torvo.

E, secreto, mudo

Para tudo o que vier, para tudo!

 

 

1212 – Pertencer-te

 

Ao pertencer-te a ti

Sinto pertencer a todos os mais.

Dados os eventos,

O meu verdadeiro lugar aqui,

No mundo, em todos os locais,

Fica algures além de meus segmentos,

Além de mim,

Inefável.

E, enfim,

Se for também por mim dentro,

É igualmente ilocalizável,

Mesmo quando mais e mais em mim me adentro.

 

Pequeno hiato de que convém que te assegures

Entre o ser e o não-ser,

Pela primeira vez na vida

Vejo este nenhures,

Onde abundo

Sem qualquer

Medida,

Como o centro exacto do mundo.

 

 

1213 – Permanece

 

Quem permanece no limite

Da convenção mundana

Não é notado nem que grite,

Ao caminho vulgar se irmana.

 

Quem os limites transgredir,

Porém,

Uma multidão de curiosos há-de atrair

E à espreita os tem.

 

Até por isto é difícil a casca do ovo

Quebrar dum mundo novo.

 

 

1214 – Maioria

 

A maioria olha em frente

Permanentemente

E nem fala.

Ao fim e ao cabo, para toda a gente,

É questão de esperar em grande escala.

 

Passamos a vida a esperar:

Pelo padeiro, pelo canalizador,

Pelo médico, pelo enfermeiro,

Pelo moço de fretes do lugar,

Ou então pelo ferrador,

Pelo carniceiro,

Se calhar, pela casa de loucos,

Até pela prisão, uns poucos…

 

Depois, depois é a morte:

Por trás de toda a espera, espera-nos esta sorte.

 

- Boa ou má, boa ou má,

Que é que, afinal, aqui nos aguardará?

 

 

1215 – Alternativa

 

Nada está bem, nada está bem!

Todos agarram cegamente

A primeira alternativa que lhes advém.

Orgias e bacanais,

Um comunismo demente,

Drogas, corridas irracionais,

Religião, vegetarianismo,

Encegueirado misticismo…

 

E, de repente, tudo desaparece:

Todos tiveram de encontrar afazeres

Enquanto esperavam pela morte.

 

 

Poderes

Escolher o que te apetece

É a sorte

Que, afinal, nunca ao fim te favorece.

 

 

1216 – Destino

 

O destino não é uma guita

A percorrer infindavelmente,

É de elástico um bocado:

Quanto mais o percorres, acredita,

Mais violentamente

Para trás és repuxado,

Para o ponto de partida.

 

Ou te agarras, firme, ou, de seguida,

Acabas com o círculo fechado.

 

 

1217 – Símbolos

 

Os símbolos próprios escolher

Conforme o desenvolvimento individual

É o itinerário de quenquer

Apontando o horizonte final.

 

Lembrando sempre, porém,

Que o símbolo para nós o equivalente tem,

 

Nas fórmulas populares como nas eruditas,

Das maiorias e das minorias restritas.

 

Apenas assim continua qualquer um ligado

A todos os outros, de todo e qualquer lado,

 

De todo e qualquer horizonte

Partilhado

Nesta ponte.

 

 

1218 – Detesto

 

Detesto as sotainas, as fardas, as bandeiras

Quando falsificadas

E, pior, se comluiadas.

O que me afasta de capelinhas, de igrejas,

Não são tanto os erros e as asneiras,

É delas a intolrância.

 

Não oponhamos mal ao mal,

Da prepotência fanática com invejas,

Do poder corrupto com ânsia.

 

Que haja para todos a liberdade fundamental

De pensar

E de exprimir

E de organizar

E que o primeiro templo

A erigir

Seja dar daquilo o exemplo.

Para abalar

Qualquer poder colossal,

Basta que dele o adversário

Adquira o direito primário

De proclamar

O que dele julgar.

 

Com tempo, a razão

Semeada

Acaba germinando pelo chão

As campinas da madrugada.

 

 

1219 – Sistema

 

Aquele para quem o sistema do poder,

A razão de Estado,

Uma força temporal qualquer,

Os políticos poderios,

As autoridades de todo o lado,

Intelectuais,

Sacrais

E todas as mais

Que tais,

- Tudo são vazios,

Tudo são desvios

Que não pesam nem um grama

Perante um movimento que se apresta

Da consciência humana

Honesta,

Aquele que tudo aquilo a isto reduz

É a luz

Do alvor tranquilo

Cuja argumentação devém logo

Perturbadora como fogo.

 

 

1220 – Indiscutível

 

Dever indiscutível, única felicidade

Que não desilude

É tender para a verdade

Com todas as forças a que me grude

E conformar cegamente

A ela minha conduta.

Mais ou menos brevemente,

Por mais que a aparência o discuta,

Descobrimos, comezinho,