DÉCIMO  TERCEIRO  TROVÁRIO

 

 

JÁ  NOS  TROVÁRIOS  ME  ENCONTRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1285 e 1394 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

1285 – Já nos trovários me encontro

 

Já nos trovários me encontro

Em todas as dimensões,

A tentar o reencontro

Para além do desencontro

Que encontro nos meus baldões.

 

Serão trovários de amor,

Das horas sabedoria,

Das profundezas o ardor,

A luz que houver na utopia.

 

E assim, por todos os lados

Junto no suor do canto

Os meus dispersos bocados,

 

Rumo lento a uma inteireza

Por que em mim tudo, enfim, reza.

 

 

1286 – Adquires

 

Os mais ricos materiais

Adquires de construção,

Mármores só pelo chão,

De oiro brilhos nos beirais,

 

Quando pá e picareta

Afinal te bastariam:

Sete palmos cavariam

Da terra que mais te afecta.

 

Casa de quinhentos pés

Edificas sumptuosa

Esquecido de quem és,

 

Esquecendo a tenebrosa

Que ao fim te acolhe de viés:

O caixão que é tua glosa.

 

 

1287 – Inimigo

 

Um amigo traiçoeiro

Inimigo é mais danoso.

A religião, primeiro,

E a virtude após, cimeiro

Dano sofrem tenebroso

 

Mais de hipócritas que o mal

Que libertinos, infiéis,

Lhes causarão, radical,

Do atropelo nos papéis.

 

Quando aqueles dois esteios

São de fraude envenenados,

São da pior maldição meios:

 

Cruéis crimes praticados

Vão ser deles abençoados.

 

 

1288 – Intrinsecamente

 

Não basta que as intenções

Intrinsecamente boas

Sejam, tal como as acções.

É preciso que aos balcões

Pareçam, a gerar loas.

 

Quando for deveras belo

Todo o teu interior,

Pelo teu exterior

Trata então de parecê-lo.

 

É que doutro modo a inveja

Irá logo enegrecê-lo,

Ou maldade outra que seja,

 

E então nem anjos vão ver

O belo que em ti houver.

 

 

1289 – Desdenha

 

Nenhum general prudente

Desdenha dele o inimigo,

Mesmo se inferior o sente,

E o médico inteligente

Não menospreza o perigo

 

Da maleita que tratar,

Por mais que seja ligeira.

É o que deves invocar

Ante a vida à tua beira.

 

Maior há-de ser a glória

Aos que rasgam tais sentidos

Quando logram a vitória,

 

E menos pesam sofridos

Desaires, quando vencidos.

 

 

1290 – Apressa

 

Um homem esclarecido

Não se apressa a condenar

Um vício que é conhecido,

A imperfeição, o bandido

Obrigam-no a censurar,

 

Nunca, porém, se enfuria

Contra aquele que é culpado:

Suspeita que há luz do dia

A espreitar em qualquer lado.

 

É sempre a infantilidade,

A falta de educação,

Bem como a perversidade

 

Que naquela ocasião

A pedra atiram do chão.

 

 

1291 – Milagre

 

O milagre da vida só entendemos quando

Deixamos que aconteça o inatendido aqui.

O sol todos os dias um momento brando

Oferta de mudar tudo o que for magoando,

O calcanhar das horas que a sofrer me vi.

 

Procuramos fingir todos os dias, todos,

Que nunca percebemos tal momento esquivo,

Crer que hoje é igual a ontem, que amanhã, se vivo,

Nada transformará de meu roteiro os modos.

 

Mas quem presta atenção ao próprio dia acolhe

Aquele instante mágico a aflorar discreto

Por entre os mil e um nadas que no ecrã desfolhe.

 

A força das estrelas, a irromper do tecto,

Permite-nos milagres pela mão do afecto.

 

 

1292 – Brecha

 

Um amor, de água represa,

Se uma brecha ele encontrar

Onde entre com inteireza,

Aos poucos vai, com certeza,

As paredes rebentar.

 

Então chegará o momento

Em que controlar ninguém

Vai lograr tal movimento

Que na correnteza advém.

 

Se desmoronam paredes,

O amor toma tudo ao colo,

Pouco importa já o que vedes.

 

- No aluvião do amor me enrolo,

Amar é perder controlo.

 

 

1293 – Droga

 

Amar é como a droga, no princípio vem

O êxtase de euforia, de total entrega,

E no dia seguinte só te mais convém

Deste balsâmico ar. O vício não é bem,

Que tudo sob controlo crês na hora cega.

 

Durante dois minutos sorves o ar do céu,

Esqueces por três horas, mas a pouco e pouco

Ao amor te habituas e do que ele deu

Dependes por inteiro e então ficas louco:

 

Pensas nele três horas; livre dois minutos,

Tal e qual um viciado eis-te em febril tremor,

Pois quem amas, distante, ausente, põe-te em lutos.

 

Como o adicto se humilha por lograr favor,

Irás dispor-te a tudo para ter o amor.

 

 

1294 – Importa

 

Que importa cem mil vezes eu amar na vida,

Se sempre irei findar em conjuntura ignota?

O amor pode levar à plenitude haurida

Como a qualquer inferno sem qualquer guarida,

Porém de algum lugar requer que eu tome nota.

 

Aceitá-lo é preciso, que alimento nobre

Será perene o amor para a vivência nossa.

Se acaso o recusarmos é de fome, pobre,

Que morre cada qual, sem que então nunca possa,

 

Nos ramos carregados da fruteira viva,

Coragem alcançar para estender a mão

E os frutos recolher que a frança mostre esquiva.

 

Quando em busca do amor partirmos, logo então

Ao nosso encontro o amor nos vem erguer do chão.

 

 

1295 – Trilhos

 

Sempre que um homem seguir

Com plena sinceridade

Trilhos da fé por onde ir,

É capaz de a Deus se unir:

De milagres tudo invade.

 

Sou católico, judeu,

Sou maometano, budista:

Tudo aponta o mesmo céu,

Deus é o mesmo em qualquer lista.

 

Embora tenha mil nomes,

Conforme o tempo e o lugar,

Igual pão nos mata as fomes.

 

Escolhe, pois, tu, a par,

O teu nome de O chamar.

 

 

1296 – Mudar

 

Posso mudar a cidade,

Não o poço do lugar.

Mata a sede que o invade

O amante, quando lhe agrade,

Ergue ao lado a porta ao lar,

 

Em redor do poço cria

Os filhos que então tiver.

Se um dos cônjuges desvia,

Porém, num rumo qualquer,

 

Não pode o poço segui-lo,

Nesta terra enraizado,

Contra os vendavais, tranquilo.

 

O amor fica abandonado

Guardando águas do passado.

 

 

1297 – Ensinaram-nos

 

Ensinaram-nos cuidados

Mais os mil e um impossíveis:

Paixões de infância recados

São meramente risíveis;

 

Não desvies consagrados

De seus mistérios incríveis;

Milagres, não, são passados;

Ninguém viagens temíveis

 

Empreende sem saber,

Afinal, aonde vai…

- Quebra as regras, tu, quenquer,

 

E o conceito que te esvai:

Que mania de explicar

E ser o que outro aprovar!

 

 

1298 – Religião

 

A religião é idolatria

Quando o que faz é só tentar

Ter Deus por conta, por magia,

Tê-lo ao serviço, preso à guia

Dos rituais que ela rezar.

 

Nem que por tal venha imolar

Em honra dele o que melhor

O povo tenha em seu redor:

Os filhos sãos de carne e luar.

 

Apenas, pois, superstição

Para suster a fera à trela

É o que tem tal religião.

 

Repare embora numa estrela,

À mão só tem de sebo a vela.

 

 

1299 – Menos

 

As religiões não são um bem,

Bem menos, pois, de Deus invento.

Antes são mal que o homem tem

Sempre inventado, que refém

Do medo vive, do tormento

 

De quanto ignora e não domina

Na natureza, mundo em volta.

O medo cria um deus à solta

E a religião que o elimina.

 

Muito outro mal vem disto ao mundo:

Ódios e guerras, fanatismos…

Chacina os povos, infecundo,

 

Pelo motor dos cataclismos:

- Não seguem dele os dogmatismos.

 

 

1300 – Inimigo

 

Da criatividade

É o inimigo o medo.

Se o medo nos invade

Trancamo-nos na idade

Da criança sem credo

 

Que não vai desenhar

Com medo de que todos

A rir vão acabar

Dela de quaisquer modos.

Criar é correr riscos,

Como a criança brinca:

Cai, ergue e tira os ciscos…

 

A vida apenas trinca

A aposta que se finca.

 

 

1301 – Dão

 

É uma destas criaturas

Que em troca só da soldada,

Aos outros dão, sem usuras,

O melhor que lhes apuras,

O melhor de si, mais nada.

 

Que se apegarão aos filhos,

Aos filhos, sim, mas alheios,

Que choram sobre os sarilhos,

Sobre as tragédias sem freios.

 

Que, por cima, se dedicam

E, quando as mandam embora,

Que sem serventia ficam,

 

Ficam ali, com demora,

Na escada a chorar lá fora.

 

 

1302 – Mesmas

 

Sempre ideias repetidas,

As mesmas palavras, usos.

Ao lado erguemos das vidas

Outras vidas que, erigidas,

Nos dominam, mal contusos.

 

Iremos até à cova

Com palavras, com palavras.

Submetem quem se renova,

Subjugam todas as lavras.

 

Pesam toneladas, pesam,

Na espessura de montanhas,

Contêm-nos e nos lesam.

 

Sonho e dor em pedra os ganhas,

Vida a sério nunca a apanhas.

 

 

1303 – Falamos

 

Todos falamos do céu,

Mas quantos passam no mundo

Sem ter levantado o véu,

Sem ter visto, entre o escarcéu,

O real no que é no fundo?

 

O nome nos bastaria

Para lidarmos com ele.

Ninguém repara no que ia

Do termo por trás da pele.

 

Afundamo-nos em restos,

Em cenários, convenções,

Palavras, de cinza aprestos.

 

A mente são convenções

- E o infindo eram guiões.

 

 

1304 – Mundo

 

Nosso mundo não é real,

Todos vivemos num mundo

Como o compreendo, afinal,

Como o explico no sinal,

Não temos outro mais fundo.

 

Somos peixes num aquário

A espreitar o distorcido

Mundo de além do sumário

Vidro que o filtra indevido.

 

Sentimos que ao nosso lado

Há uma vida outra qualquer

Sempre à margem de meu fado.

 

E vamos à cova ter

Sem por ela dar sequer.

 

 

1305 – Nunca

 

Não é nunca individual

Nossa sensibilidade,

Antes sempre é universal,

Desde aqui ao sideral

Espaço da infinidade.

 

Basta ferir com um toque

O nervo que daqui vai

À Via Láctea que evoque,

Para transmudar num ai

 

Noções de tempo e de espaço,

Como do que trepa ou cai.

Se de cor um pingo baço

 

Pinga em água que o reparte

Igual fica em toda a parte.

 

 

1306 – Passado

 

Nosso sonho é não morrer.

Mesmo se nos esquecemos,

Passado a vida há-de ter.