DÉCIMO  QUARTO  TROVÁRIO

 

 

TUDO,  AO  RIR,  É  REENCONTRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 1395 e 1533 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1395 – Tudo, ao rir, é reencontro

 

Tudo, ao rir, é reencontro

No canto em todos os modos:

Quadra da rima ao encontro,

Métrica do desencontro,

Trovas de os misturar todos.

 

No bom-humor, na ironia,

Vamos rindo dos trejeitos,

No sarcasmo que zurzia

O impudor de falsos peitos.

 

Canto aqui todos os temas

No ritmo todo e na rima

De qualquer dos mais poemas.

 

A festa é que prefigura

A nossa vera figura.

 

 

1396 – Valido

 

Tal qual o sexo é a Segurança Social:

Quando conseguimos algo é de perguntar

Se terá valido a pena, afinal,

Tanto esperar…

 

 

1397 – Senso

 

Que têm bom senso os demais

Só julgamos quando são,

Sem mais,

De nossa opinião.

 

 

1398 – Cosméticos

 

A melhor das maquilhagens

Para a mulher é a paixão,

Mas em cosméticos são

Bem mais fáceis as triagens.

 

 

1399 – Pedido

 

Três termos os homens deixam

Em pânico, num momento,

E muitos deles se queixam:

- Pedido de casamento.

 

 

1400 – Ferrar

 

Não queiras ferrar quenquer

Sem ver como te apresentes.

Se tu não podes morder,

Então não mostres os dentes.

 

 

1401 – Chega

 

O dinheiro que eu tiver

Chega até ao fim da vida,

A não ser

Que compre algo de seguida.

 

 

1402 – Dinheiro

 

Correr do dinheiro atrás

É ser um louco tenaz.

 

Guardá-lo seguro à vista

É ser um capitalista.

 

Gastá-lo em quaisquer enxergas

É ser um estoira-vergas.

 

Se se não busca um quinhão,

É carência de ambição.

 

Se sem labor o concita,

É decerto um parasita.

 

Se o houver acumulado

Após anos de trabalho,

Então é um degenerado,

Da vida nem colhe um galho.

 

Assim é, pois, o dinheiro

Nosso fiel e vil parceiro.

 

 

1403 – Mudas

 

Alguém com mudas de humor

Constantes sem ter por quê,

A quem o ature é um horror.

- E se esse tal for você?…

 

 

1404 – Mãe

 

A mãe ensina em verdade

O contorcionismo ao moço?

“Olha para a sujidade

Que tens atrás do pescoço!”

 

Ou antes é hipocrisia?

“Se te disse uma vez, disse

Um milhão! Ora a mania!

Não exageres… Que chatice!”

 

 

1405 – Diferenças

 

Entre chamar a atenção

Porque há louça por lavar

E chamar “grande calão!”

A quem dela não tratar

 

Há diferenças que rendem:

Ser sarcástico, escarninho,

São atitudes que ofendem,

Breve um lar fica maninho.

 

Enquanto, por outra via,

Vai alvorecer o dia.

 

 

1406 – Privacidade

 

Da privacidade a lei

É que a própria muitos prezam

Mas à doutrem, ao que sei,

Ninguém liga e todos lesam.

 

 

1407 – Trepa

 

Futebol é de operário,

O ténis, de director,

Golfe é de administrador:

Quão mais alguém trepa, vário,

Na hierarquia que engrolas,

Mais pequenas são as bolas.

 

 

1408 – Diabo

 

O diabo, à falsa fé,

Diz aos que ao alto chegaram

Que dêem um pontapé

Ao banco donde treparam:

 

Aquele que fez fortuna

De amigo graças à mão,

Livre-se dele, que enfuna

A vela só os que se vão.

 

 

1409 – Cisco

 

Vejo este cisco num olho,

Não vejo a montanha erguida

Nem o prado onde me acolho…

- Que faço, que faço à vida?

 

 

1410 – Sapato

 

Sapato novo incomoda,

Não é a vida diferente:

Apanha-nos contra a moda,

Desprevenidos, em frente

 

Nos obriga a caminhar

Rumando ao desconhecido

Quando nem se precisar,

Nem se quiser tal sentido.

 

E criamos moda nova

Que logo outra vez se inova,

 

Sempre nestes desacatos

De eternos novos sapatos.

 

 

1411 – Estranho

 

É estranho que dois mil anos

Corram até que alguém veja

Que Jesus com seus arcanos

Deve ser parte da Igreja!

 

 

1412 – Rejeição

 

Do que torna a vida estulta

Não há rejeição mais grada

Que do psiquiatra a consulta

Decisiva cancelada.

 

 

1413 – Perfeccionista

 

Ser perfeccionista acode

A quem nunca à vida é afeito:

Só na gramática pode

Algo ser mais que perfeito.

 

 

1414- Trono

 

Um trono com baionetas

Podemos sempre erigir,

Sentar nas pontas concretas

Ninguém vai é conseguir.

 

 

1415 – Fácil

 

Ao Homem, se desagrade,

Bem posso amá-lo inteirinho:

Mais fácil é a Humanidade

De amar do que é o meu vizinho.

 

 

1416 – Três

 

Há três coisas bem reais:

Deus, a estupidez e o riso.

Daqueles não sei jamais;

Deste o mais ter, que bom siso!

 

 

1417 – Educar

 

Vivemos todos aflitos:

Como atarmos os cadilhos?

Só os pais são os peritos

Em educar mal os filhos.

 

 

1418 – Mestre

 

Se um mestre uma obra vende,

Seu maior prazer final,

Após ver quanto ela rende,

É reavê-la, afinal,

Por sete vezes o preço

Por que a vendeu no começo.

 

 

1419 – Jardim

 

A família portuguesa

Vai ao jardim zoológico

O espanto da natureza

Saborear pedagógico.

 

Grita o mais novo: “olha um trigue!”

E ao mais velho, sob o toldo,

Isto faz que logo brigue:

“Não é um trigue, é um leopoldo!”

 

A mãe abana a cabeça:

“Pior a ementa que o cimento!”

O pai, ao lado, tropeça

De encontro ao gradeamento

 

E quase uma perna quebra:

“Quem sai aos seus, c’um carago,

É que não é de genebra!”

- E bebe o vinho dum trago.

 

 

1420 – Doença

 

Se um em quatro cidadãos

Sofre de doença mental,

Se tens três amigos sãos,

Então tu é que és o tal!…

 

 

1421 – Amigos

 

Os amigos são tal qual

Como são sempre os melões:

Provo cinquenta e, ao final,

Acho um bom e sem senões.

 

 

1422 – Elevada

 

Que elevada opinião

Temos nós da experiência

Que nos mata a sedução

E da ilusão a inocência!

 

 

1423 – Prazo

 

A longo prazo, uma vida

É doença terminal:

Se existe, logo em seguida

Há-de morrer, afinal.

 

 

1424 – Dom

 

Só posso, de meu lugar,

De santidade saber,

Por ter o dom de pecar,

- Por ter o dom e o prazer…

 

 

1425 – Curso

 

Do mundo o curso é faculdade

De muito louca, estranha via:

Vai muito mais pela vaidade

Que por gentil sabedoria.

 

 

1426 – Tempo

 

O tempo que é requerido

Ao fim governamental

Dum projecto é tal e qual

O que nele há já corrido.

 

 

1427 – Paraíso

 

Um paraíso que não

Posso deixar mais, eterno,

Nao é um paraíso então,

É mais depressa um inferno.

 

 

1428 – Turista

 

O turista, em maioria,

Bem maior tempo reparte

De olhos postados no guia

Do que em obras-primas de arte.

 

 

1429 – Alta

 

As mulheres de alta roda

Quando compram jóias, roupa,

Mais que equipamento em moda

A que nenhuma se poupa,

Antes é a profissional

Ferramenta instrumental

Que pretendem garantir

Por com as mais competir.

 

E todo o mundo trabalha

Para que o bem-estar delas

Floresça febril, sem falha,

Nas compras por atacado,

Satisfeito, sem sequelas

Que curem o alucinado

Mundo assim delas drogado.

 

 

1430 – Maneiras

 

As boas maneiras são

Admitir que toda a gente

É tão delicada, tão,

Que tem permanentemente

De se manejar com luvas

E na tempestade, então,

Há que a proteger das chuvas.

 

Porém, o respeito humano

Tem diversa natureza.

Ninguém chama por engano

Mentiroso a alguém que preza.

 

Mas poupar-lhe os sentimentos

E alimentar-lhe a vaidade

É perder, após momentos,

O que nele tomo a peito,

O que fundo nele agrade,

O que é digno de respeito.

 

Resta, ao fim deste capricho,

Um monte apenas de lixo.

 

 

1431 – Segunda

 

A segunda força armada,

De inferioridade certa,

Certa de ser derrotada,

À dispensa é porta aberta.

 

Como não são dispensadas,

Resta o sentido jucundo:

- Qualquer das forças armadas

É sempre a melhor do mundo!

 

 

1432 – Riqueza

 

No Estado policial

A riqueza é um dom sagrado,

Na democracia é igual,

Só que é a única a que é dado.

 

 

1433 – Repetir

 

Repetido em toda a parte,

Já ninguém vai duvidar:

Vive o público destarte,

Que repetir é provar.

 

Crê-se no que se deseja,

Desde então ninguém duvida.

Duvidar, se é o que se almeja,

É um bem mui raro na vida.

 

 

1434 – Crocodilo

 

Os egípcios adoravam

Crocodilo que os comia,

Hoje são carros que encravam

A esmagar-nos todo o dia.

 

 

1435 – Produz

 

Quem produz o necessáio

Tem falta dele na vida,

Quem não produz, perdulário,

Tem fartura garantida.

 

 

1436 – Roda

 

Verdadeira solidão

É, na roda que me cinja,

Viver simpático e chão

Entre quem só quer que finja.

 

 

1437 – Fácil

 

É mais fácil arrancar

Uns tostões a um avarento

Que um elogio escutar

Ao invejoso sedento.

 

 

1438 – Continua

 

Pouco lhe importa morrer

Se continua a jogar:

Não custa a vida perder

Mas os hábitos largar.

 

 

1439 – Ilusões

 

Pode ser pobre quenquer

Com ilusões, verifico.

Sem ilusões é que ser,

Só pode ser quem for rico.