TECTOS  DE  LIBERDADE

 

 

 

                                               PRIMEIRO  VERSO

 

                                        Na  liberdade  o  verso  principia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Escolha um número aleatório entre 1 e 141 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 – Tectos de liberdade

 

Na liberdade o verso principia,

Que donde vem ninguém adivinhou.

Porém, mal incarnada, a fantasia

A norma impõe às asas de seu voo.

 

É sempre em nós, portanto, que a ironia

De bom humor constata o que sobrou

De todo este sarcasmo que anuncia

A vida do que a sátira matou.

 

Vai ser, porém, a quadra popular

Que mais condensará o estranho brilho

Dum espartilho donde brota o mar,

 

De tal modo que, as quadras em sarilho

Ondeando sejam, sejam os sonetos,

Épicos se erguem da jornada os tectos.

 

 

2 – Na liberdade o verso principia

 

Na liberdade o verso principia

Com um fado

De magia

Que ninguém há destinado.

É o sentido desta prenda

Que ninguém há desvelado

Que os olhos nos venda.

Ah! O inferno

De o procurar, eterno,

Por todo o lado!

E tudo fechado! E tudo fechado!

 

 

 

3 – Pobreza

 

A solidão

Mata mais que não ter pão.

O abandono

Escraviza mais que ter um dono.

Não ser desejado

No inferno mete qualquer pecado.

Ser pobre não é triste, que tristeza

É o desprezo: e é a pior pobreza!

 

 

4 – Preço

 

Tempo e amor

São as únicas verdades

No mundo e na vida inteira

Que teriam comprador

Se na feira

Das vaidades

Preço houvera de tais nadas.

Jamais podem ser compradas,

Porém, as cimeiras realidades:

Só gozadas!

 

 

5 – Cuidadosas

 

Manipule-as com mãos cuidadosas,

Sejam trágicas, indiferentes ou cómicas,

As palavras, que são mais poderosas

Que bombas atómicas!

 

 

6 – Nascer

 

Ao nascer, uma criança

Prova a verdade:

- Deus ainda não perdeu a esperança

Na Humanidade!

 

 

7 – Livre

 

Um homem não é livre senão

Quando sua liberdade

A dos outros não invade,

Quando doutros em opressão

Se não baseia

A bandeira que a brisa ondeia

Na torre do bastião.

 

 

8 – Cultura

 

A cultura é aquela via

De aprender

Aquilo que nem sabia sequer

Que não sabia!

 

 

9 – Tirar

 

Se te tirar algo alguém,

Dá-lho de presente:

- Assim já ninguém

Roubado se sente.

 

O prejuízo

Acabará com o ladrão,

Se não tomar juízo

A tender o próprio pão.

 

Perdendo de vez a via,

Um dia

Perde a mão.

 

 

10 – Sono

 

O campo desnudado,

O bosque despido de folhas,

A natureza no sono anual,

Depois de ter atirado,

Com as primeiras molhas,

Toda a roupagem fora…

Natureza nua e virginal

Onde a Humanidade mora.

 

 

11 – Ódio

 

Ódio,

Batalha inútil:

Torna fútil

Qualquer bródio

E, em contrapartida,

Nenhum bem empresta à vida.

Ódio,

Aquela batalha

Que, à partida,

Irremediavelmente falha,

De antemão perdida.

Nada, nada remedeia

A fé de quem odeia.

E o pior é que o odiado

Ficará sempre de lado,

Invulnerável, de fora,

Ao ódio que outrem devora.

 

 

12 – Materialismo

 

Não odeias

O materialismo espaventoso

Do Natal?

Pois. Mas não anseias

Pelo gozo

Das prendas que ele te vale?

 

 

13 – Lágrimas

 

 

As almas jamais teriam

Arco-íris algum

Se as lágrimas não cobriam

Os olhos de cada um.

 

 

14 – Jovens

 

Nem fúteis,

Nem mortos-vivos,

Porém com uma incapacidade:

Estes jovens têm relações úteis,

Encontros significativos,

- Ignoram, porém, a lealdade.

 

Ser fiel

A um compromisso

Arranha-lhes a pele…

- Quem quer saber disso?

 

A contingência

É a paga

De quem, se a vida afaga,

Jamais lhe frui a envolvência.

 

Ao renegar o sonho por ilusório

Tornam tudo provisório.

 

 

15 – Acode

 

Pode quenquer

Devir quem a si próprio acode.

De como agir lhe pende o ser

Que tiver.

- Um talento fará o que pode;

Um génio, o que tiver de fazer.

 

 

16 – Discussão

 

Discussão pela discussão,

Só de fracassados.

Quem bem cumpre uma função

Não perde tempo em traslados.

 

 

17 – Desperdiçar

 

Crês apreciar a vida

Teu tempo ao desperdiçar?

Só te pode tal medida

Trazer desfeita:

- O tempo é o teu lar,

É dele que a vida é feita.

 

 

18 – Livre

 

“Faz aquilo em tempo livre”,

Dizem-me sem entender

Que, mesmo se é de lazer,

É o tempo em que me equilibre.

 

Tempo livre

Não existe.

E Deus me livre

Se algum ainde persiste

Que na vida me resiste.

 

É que então

É a vida que insiste

E eu que não

Lhe encontro confim:

 

- Seria o meu fim!

 

 

19 – Ameaça

 

A ameaça pior

À liberdade

É a verdade

Perder o valor.

 

 

20 – Arrogante

 

O descrente

Devém crédulo arrogante:

Quanta gente

Creu no fascismo e comunismo

Para os levar por diante!

O intelectualismo

É a crença apaixonada

Que nos conduz ao nada:

É tão variável a verdade

Quanto o bilhete de identidade.

 

“Sigam o vosso sentimento.

A quanto correcto parecer

Dêem então provimento.

Façam tal como aprouver!”

- O relativismo

Mede a fundura do abismo.

 

O povo ignorante sabe-o,

Ignora-o, porém, o sábio:

A liberdade não cresce

Onde o relativismo acontece.

A liberdade é uma planta

Que a verdade apenas janta,

Se de mentiras a trato,

Logo da vida a desato.

 

A liberdade requer

Famílias sãs e decentes

Em que sem medo quenquer

Ame e respeite os parentes.

São laços de lealdade

Em que empenham a verdade.

 

Uma livre economia

Requer sempre a iniciativa:

Quem empreende é quem guia,

Quem arrisca e a torna viva.

É preciso estar disposto,

Em nome doutro amanhã,

A sacrificar o gosto

Que hoje e aqui nos é proposto,

Para que não seja vã

A geração do futuro.

É preciso ter visão,

Descobrir o que inauguro:

Cada dia é uma invenção.

 

Pode uma comunidade

Ser livre quando as pessoas

Tudo mentem à vontade,

Tidas, impunes, por boas?

Como é que me encontrarei

Se não conto com ninguém,

Se todos zombam da lei?

Como chego a ser alguém?

 

Como pode a liberdade

Sobreviver

Onde, enquanto pão houver,

O que quer toda a cidade

É comer, à compita,

Da reserva o que alimente,

Cruamente

Parasita?

 

Dez milhões de cidadãos

Com um polícia interior

Dispensarão como vãos

Os polícias verdadeiros.

Se um país assim não for,

Nem exércitos inteiros

Chegarão para o compor.

 

Uma só verdade

Acaba por ser mais potente

No presente

Que os arsenais da humanidade.

 

Nossa dignidade humana

Emana a fidelidade

À verdade em que se irmana

Clara e plana a Humanidade.

 

Uma democracia,

Com todas as fracturas,

É sempre melhor via,

Para as criaturas,

Para qualquer minoria,

Do que quaisquer ditaduras.

Nela, os governantes

Prestam contas

E, porque os apontas,

Gozas liberdades constantes.

 

Mercado livre é melhor

Que o comunismo dos pobres:

Sempre foi dele o esplendor

Que estes preferiram

Para lhes polir negros os cobres,

Já que o talento

Aqui viram

Seu melhor investimento

Derivar,

Com a iniciativa a par…

 

E por mais

Que ao invés tenham escrito

Os intelectuais,

Tudo neles é desdito

Dos pobres pelos sinais:

Há século e meio

Que tomam a direcção

Quando emigram, sem receio,

Da livre economia à região.

O pobre procura

Uma oportunidade

Em que, inteiro, em liberdade,

Do poder fora da usura,

Se pode, enfim, sentir vivo:

Quer é ser criativo.

 

A livre sociedade

Não dura uma eternidade,

A tirania

É nossa mais constante via.

De vida curta,

Em zonas pouco numerosas,

Irás depor o ramo de murta

No cadáver da que gozas

Se não tiveres o cuidado

Adequado.

Da História na escuridão

Passará como um cometa

Que ardeu até à extinção

E nunca atingiu a meta.

Pulmão que precisa de ar,

A liberdade,

No meio do vendaval,

Requer virtude e verdade

Ou não pode respirar.

Ou a norteia

A moral,

Ou breve é um monte de areia!

 

 

21 – Arrabaldes

 

O problema em que o porvir morreu

E que faz no presente que te escaldes:

- O mundo sou eu,

Tudo o mais são arrabaldes!

 

 

22 - Poliglota

 

O poliglota

Abre ao cosmopolitismo.

A porta do nacionalismo,

Fica assim mais patriota.

 

 

23 – Palavra

 

A palavra,

Forja da fusão humana,

Quando as línguas em nós lavra,

Aos povos todos irmana:

Em todos reconhecemos

Pátrias iguais às que temos.

 

 

24 – Reputação

 

Muito frágil

É a reputação

Das nações:

Um carro menos ágil,

Alguns encontrões,

E esvai-se no ar

Toda uma secular

Civilização!

 

Sempre do estranho na descrença,

Desde que o farol lhe não pertença.

Para nós

Que nela vamos, a questão

É a imagem dos avós

Que fica apenas com um vago senão.