SEGUNDO  VERSO

 

 

 

                                    Que donde vem ninguém adivinhou

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 142 e 286 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

142 – Que donde vem ninguém adivinhou

 

Que donde vem ninguém adivinhou

Sabemos.

De asas tão extensas

Que lhe não vês os extremos

É o que pensas.

Porém, quem sou?

- Por mais alta que seja a aposta

Tudo findará como sempre findou

- Sem resposta!

 

 

143 – Conversa

 

Quem anima uma conversa

Não pensa, que o dispersa.

O conhecimento profundo

É a derradeira

Coisa do mundo

Que emparceira,

Enganada,

Numa conversa animada!

 

 

144 – Pesadelo

 

Tive um pesadelo:

A verdade fora atingida

- E era o fim da vida!

Dos pesadelos o pesadelo,

Porém,

É quando alguém

Se convenceu

De que quebrou o selo,

De que a verdade atingiu:

Dele às mãos

Nossos pensamentos tortos

À força ficarão sãos

- E nós, todos mortos!

 

 

145 – Fim

 

Age como se a vida

Não tivera fim,

Mas de mala pronta à partida,

Se, de repente, te exigir que sim.

 

 

146 – Cariz

 

Da felicidade o cariz

É ninguém sequer parar

A pensar

Se é feliz.

 

 

147 – Insulto

 

De todo o desforço

Contra um insulto,

O mais hábil e de menor esforço

(Pense-o

Embora inulto)

- É o silêncio!

 

 

148 – Triste

 

Cuida do que em ti resiste,

Não vás ter umas mancheias

De ilusões a vagar.

Mudar de ideias não é triste:

- Triste é não ter ideias

Que mudar!

 

 

149 – Mão

 

A mão em que tu mais deves

Confiar para vencer

É aquela que anda nos breves

Teus braços a empreender.

 

 

150 – Incapacidade

 

Da incapacidade o tamanho

É aquele que tu lhe deres.

Maior ganho

Traz a teus bens

Concentrares-te no que tiveres

Que no que não tens.

 

 

151 – Calar

 

Calar o povo é mais perigoso

Que opor ao rio a barragem.

O silêncio acumulado

Devirá tão volumoso

Que já não terá paragem

Quando abrir por todo o lado,

Quando violento explodir,

Arrasar tudo à passagem.

Quem nos poderá remir?

Deixem os rios fluir,

Deixem ir a liberdade,

Deixem falar à vontade

O povo, que é o mundo a ir!

 

 

152 – Terno

 

O mais terno momento,

Estranho e absurdo,

Dum casamento

Não é o que propositadamente urdo.

Não se escreve num cartão

Mas baterá qualquer poema,

Qualquer carta de amor:

- É quando te dou a mão,

Aflito, perdido o lema,

Sem ver

Como livrar-te da dor,

Esta dor antecipada

De não haver nada, nada

Que evite já te perder!

 

Eu sei que é louco,

Que ainda estão selados os cofres,

Mas sinto, quando sofres,

Que já te estou perdendo um pouco.

 

 

153 - Organizar

 

Organizar é o que se faz

Antes de fazer,

De modo que, quando se fizer,

Nada faça vir atrás.

 

 

154 – Subtileza

 

Com certeza,

Tem de haver subtileza.

…Tratemos somente

De a tornar evidente,

Se, definitivo, um juízo

For preciso.

 

 

155 – Oxalá

 

Oxalá vejas teu passado

Com tanto enleio

Quanto pelo futuro é grado

Teu anseio!

 

 

156 – Aprende

 

Aprende a ser teu amigo,

Já que sempre te ensarilhas

Nas armadilhas

De teu pior inimigo:

- Por mais que o não creias,

És tu próprio e às mancheias!

 

 

157 – Vorazes

 

Os ventos e as ondas

Não são vorazes.

Não te escondas,

Ignorado,

Que eles estão sempre do lado

Dos navegantes mais audazes.

 

 

158 – Vencedor

 

Um vencedor é quem sabe

Que pode mudar

E que antes que o dia acabe

Já reajustou seu lugar.

 

 

159 – Humano

 

Divorcia-te, é humano,

Humana é a fuga aos impostos.

Se copias, qual é o dano

Do exame aos demais propostos?

 

E, afinal,

É um engano:

O que apelidas de humano

Não passa em ti de animal.

 

É que é humana a inteligência

Que em ti procura a verdade,

A vontade

De sobrevivência,

De ultrapassar a derrota

Em busca de teu melhor,

A rota

Da esperança,

Mesmo contra tudo quanto for

O que afinal nada alcança.

 

De ti depende a escolha

De ser ou não humano,

De abrires ou não todo o pano

Aos ventos onde a vida se recolha.

 

 

160 – Prioridades

 

Quem não tem prioridades

Trabalha a jornada inteira

Para no fim das idades

Verificar que emparceira

Não com a meta buscada,

- Com vida desperdiçada.

 

Paga os ossos deste ofício

Por não mais sair

Do início

E mais longe ficar,

Ao não sair do lugar,

De vir a ter qualquer porvir.

 

 

161 – Super-homem

 

O super-homem de origem

Não é banda desenhada

Nem o cinema onde vigem

Superforças de empreitada.

 

É a vertigem

Do que somos:

- Fruteiras que exigem

Dar por fim melhores pomos.

 

 

162 – Desagravo

 

A fraqueza disfarçada

Em rasgos de desagravo

Breve tomba pela estrada

Nas tramas do desconchavo.

 

O interesse

É que pontua o lugar:

Quanto agravo se esquece

E reajusta

Quando uma fortuna custa

A alguém se o lembrar!

 

 

163 – Turista

 

Turista dos lugares

E das culturas,

Tu já viste os lupanares

Das já sabidas formosuras.

O mundo é a pequena aldeia

Onde resta a descobrir

Do pitoresco a mancheia

Dum folclórico devir.

E navegas de fastio

A imensidão

Misteriosa

Do rio,

Sem saboreares a brumosa

Imperfeição

Arcaica

Que pontua

Quotidiana e prosaica

A vida de qualquer homem da rua.

 

Este, sim, terá porvir.

Tu já deixaste de existir!

 

 

164 – Geometria

 

Contra toda a geometria

A menor distância

Do ponto donde partia

Àquele onde chegaria

Um homem talvez alcance-a,

Não por uma linha recta

Fulgurante, directa,

Mas por uma que desvia,

Permanentemente vadia.

 

Seu fim, todavia, adquire-o

Tão louco, louco delírio?

- É sempre outra a dimensão,

Vão os pés por onde vão…

 

 

165 – Caridade

 

Quando a caridade

Se organiza e consolida

Em instituições,

Por presidente um abade

E, por vida,

Regulamentos, sessões,

Relatórios, comissões

E uma campainha,

A compaixão natural,

Desprendida da gavinha,

Devém função social,

Não há mais uvas na vinha.

 

Quando o homem já não

Conta com o coração,

Publicamente se obriga

Às prescrições duma liga.

 

De amor quando já não sobres,

Com os mais não formas ditongos

E, com invernos tão longos,

Que sorte vão ter os pobres?

 

 

166 – Pobre

 

Corpo de pobre

O que tem

Não mente:

Cabe sempre bem

Na roupa que sobre

De toda a gente.

 

 

167 – Religiões

 

As religiões consistem

Em desvairadas liturgias

A quantos deuses existem

Perdidos nos dias.

 

Nelas procura

O homem alcançar

Saúde, paz, força, lisura,

- Procura na terra um lar.

 

Mesmo quando mais crente

No fruto que de si vem,

Ainda assim a Deus consente

A ajuda que não contém.

 

Tanto custa descobrir

Na solidão sofrida

Que em tudo, na vida,

Deus somos nós-a-ir.

 

No clarear da madrugada

Não há de facto mais nada, mais nada.

 

 

168 – Rito

 

Pelo rito

E não dele por meu cumprimento

Acredito que acredito,

Mas torno Deus meu instrumento.

 

É por isso, desconfio,

Que ao fim de milhões de anos, ao fim,

Estamos neste vazio

Assim…

 

 

169 – Vasilha

 

A igreja é a vasilha

Do perfume que é Deus:

Se se parte a bilha,

Ao perfume, adeus!

 

A questão

Que tudo resume

É se, qualquer que seja o perfume,

Não é todo em vão.

 

 

170 – Materializa

 

Quanto mais se materializa

Uma religião,

Mais se populariza.

E nisto, então,

Mais se diviniza,

Pelo menos na extensão.

Tal é a contradição

Que a dúvida eterniza:

Vale a pena ou não

Apostar num divisa?

Se sim, em qual,

Se em todas o declive é igual?

 

 

171 - Morto

 

Longe de ti

Não encontro porto.

Já morri

Com tudo o que em torno vi.

Um morto

Jazendo aqui

No meio dum mundo morto.

 

 

172 – Ligeireza

 

Do génio o lar