TERCEIRO  VERSO

 

 

                                         Porém, mal incarnada a fantasia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha aleatoriamente um número entre 287 e 390 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

287 – Porém, mal incarnada, a fantasia

 

Porém, mal incarnada, a fantasia,

Sentindo da vertigem o pavor,

Logo de asas se onera, com suor

De quem na queda quer ter garantia.

 

Tanto o estupor

Principia,

Em nós próprios, cada dia,

A se nos contrapor.

 

Será por esta inata covardia

Que nunca atinjo de vez o oriente

À minha frente?

 

Tanto sol, tanto sol,

E eu eternamente preso apenas

Às melenas

Do arrebol!

 

 

288 – Acuso

 

A felicidade acuso,

Mas não pende do que falta:

Com as faltas não crescemos.

A cotação baixa ou alta

Vem do bom ou do mau uso

Que fizemos do que temos.

 

 

289 – Chuva

 

Como a chuva abre buracos

Nas pedras por persistência,

Não por força dos impactos,

Usa a tua paciência

A bater, aldraba a aldraba,

Até que uma porta se abra.

 

O preço teu de vencer

É o de o Homem vir a ser!

 

 

290 – Pensar

 

Não te ponhas a pensar

No trabalho que vais ter,

Que lhe encontras no lugar

Uma montanha qualquer

E nem mesmo um alpinista

Logrará vencer-lhe a crista.

 

É preciso olhar em frente,

Se pretendes atingir

As fronteiras do porvir,

Ter a meta em ti presente.

 

Sorte de principiante

Raro te trará vitória,

Só o persistir te garante

O piso firme da glória.

 

Um obstáculo de lado

É um a menos no caminho

Que trepo pelo traçado

Donde ao sonho me avizinho.

 

 

291 – Tristezas

 

Há tantas tristezas tristes

E afinal não o são tanto:

Nas tristezas não existes,

São químicas reacções

O que produz o teu pranto,

Jamais são tuas razões.

 

Por mais que perca em beleza

É só química a tristeza!

 

 

292 – Perdão

 

O perdão é curativo

Do lado de quem perdoa:

De novo tornará vivo

Um cadáver que anda à toa.

 

Porém, não muda o sentido

Se o perdão ao perdoado

O não muda, arrependido

Do mal que houvera tramado.

 

O castigo é o contrapeso

Que, nos pratos da justiça,

Ao perverso não repeso,

Pelo mal pagando, enguiça.

 

 

293 - Rudes

 

Os falhados serão rudes

Porque nas falhas tropeçam?

Quando tal crês, bem te iludes

Nos porquês que as falhas meçam.

 

É que a rudeza é que talha,

Quando aparece atrasado,

Quando é mal agradecido,

Os tombos de toda a falha

Em que tropeça o falhado

De si nunca arrependido.

 

Quem jamais pede desculpa

Por um erro cometido

Tem dos fracassos a culpa,

Não será reconvertido.

 

Não, não aplaudas a peça,

Não lances para os falhanços

A culpa em que ele tropeça,

- Que tropeça em seus maus lanços.

 

 

294 – Convidado

 

Quando é que o meu convidado

Se vai queixar da comida?

Queixa-se quando é um falhado:

Falha é mal agradecida.

 

Quando à mesa um vencedor

Sentar, fica satisfeito,

Em tudo verá calor,

Agradece-me a preceito.

 

Foi neste estar diferente

Que, de bichos, demos gente.

 

 

295 – Jogador

 

Quando um jogador afasta

Com sua má criação

Toda a gente, quem agasta

É o jogo a que perde a mão:

Não tarda, não vai poder

Mais em jogo aparecer.

E tal é a conta devida

A quem dá conta da vida

 

 

296 – Vestir

 

Podes julgar que te afirmas

Na maneira de vestir

Quando, ao fim, o que confirmas

É não pertencer ao grupo

Onde vieste cair

E a que assim dás teu apupo.

 

Desprezas seus elementos.

Que espanta se, depois disto,

Homiziado, em tormentos,

Te vejo tornado um quisto

Que todos em tal lugar

Só tratam é de extirpar?

 

 

297 – Visão

 

O falhado tem visão

Pessimista, amargurada:

Todo o seu trabalho é vão

E todos mais, na empreitada,

 

Estúpidos, desonestos.

Ele estenderá, por regra,

A sombra sobre os mais lestos,

Contagiando os aprestos

Da perspectiva mais negra.

 

Desconfiando de si,

Sente que não fará nada

Ou nada bem.

O alibi

É que clama em frenesi

Do mais alto da bancada.

 

Proclamando a toda a gente,

Gritando a todos os lados,

Afinal cobre, indecente,

Com a marca dos falhados

A eficaz publicidade:

- Multiplica-lhe a verdade!

 

 

298 – Algarismos

 

Um tanto para a viagem,

Um tanto para aluguer,

São contas que hão-de sofrer

Os pais ao prever a imagem

Do que ao sonho custa a andar.

Para os filhos são prazeres

Que espreitam entre algarismos.

Entre as gerações o algar

Não o saltam os haveres,

Outro é o teor dos abismos.

 

 

299 – Perigoso

 

É o homem mais perigoso

O que dá sempre à mulher

A ilusão clara, tangível

De que nela mora o gozo,

Basta-lhe os olhos mover

Que devém irresistível.

 

Para ser dona do espelho

Que nele tem encantado

Dispõe-se ela a que pecado,

Despreza quanto conselho!

 

Corre a vida desvalida,

O sonho desiludido,

Quando ao fim é seduzida

Por quem creu ter seduzido!

 

 

300 - Lugar

 

Não é força nem riqueza

Que bastam para provar

Que uma nação tem beleza,

Que merece seu lugar.

 

Corpo de músculo rijo,

Ouro farto na carteira

Não bastam de esconderijo

À besta que os emparceira.

 

Tais predicados não bastam

A que um país de verdade

Honre as jóias que se engastam

No nome da Humanidade.

 

 

301 – Matéria

 

É o bocado de matéria

Que há num homem que à mulher

Imprevistamente fere-a

E que a resigna a qualquer

Incorrigível ideal

Que nele haverá também,

Para bem e para mal,

Que a terra a tremer mantém.

É o homem que agita o mundo

Que a mulher torna fecundo.

 

 

302 – Resistência

 

Cada impulso da vontade

Esbarra com resistência,

Sobre o mundo uma acção há-de

Malhar no muro da ausência.

 

Cabeça sempre a bater

Contra a grossura das portas,

São as convenções que houver,

Convictas leis que suportas,

 

Contradições de direitos,

De princípios, de interesses,

Indemonstrados preceitos

Que involuntário estremeces.

 

Um artigo de jornal

Vai-te fazer estacar

Hesitante no fanal

A que te importa apontar.

 

Um legista a tua garra

Irá fazer encolher,

Contra um professor esbarra

O que nisto acontecer.

 

Nunca podes avançar

Numa arrancada segura,

Terás sempre de ondear

Procurando a fechadura.

 

Porém, assim as correntes

Das ideias, sentimentos,

São aquilo que tu sentes,

Respondem a teus intentos.

 

Parecendo dirigi-los,

Já que esbracejas tão forte,

Afinal vais tu segui-los

Nas contracurvas da sorte.

 

Um ganho, porém, terás,

Contrariando o engano deste

Muro que deixas atrás:

- É que, sem querer, cresceste!

 

 

303 – Línguas

 

As línguas serão apenas

Instrumentos de saber

Como da lavoura as penas

Só buscam, no fim, comer.

 

Ai de quem for hortelão

E perca o tempo a lavrar,

Em vez de lavrar o chão,

As enxadas que levar.

 

Fica de língua bonita

Para expandir na parada

E depois esta é a desdita:

Não sabe nem come nada!

 

 

304 – Educadora

 

Querida minha, mulher,

Quando tanto em mim te adora,

Mais que mulher, sem saber

És a minha educadora.

 

Fechado na minha cela,

Hoje aspiro à santidade

Que em ti vejo tão singela,

Santa que és sem ter idade.

 

Com inquietação peneiro

Se meu pensar da pureza

É condigno do cimeiro

Pensar que de ti se preza.

 

Se em meu gosto não havia

Desconcertoque pudesse

Ferir a lei que em ti guia

Quanto em ti teu gosto tece.

 

Se a minha ideia da vida

Seria tão alta e séria

Quanto a tua me convida

A pressentir que é sidérea.

 

Será que me o coração

Não fraquejara demais

Para a altura da função

Daquele com que me atrais?

 

E tem sido em mim agora

Este esforço de subir

À perfeição que em ti mora

Sem jamais o conseguir.

 

De modo que escravamente

Tudo quanto em ti adoro

Me atrai à montanha ingente

Donde me chama teu coro

 

De música dos espaços.

A ele me juntaria

Imolando-te meus traços

Se deus puder ser um dia,

 

Se eu fora o raio de luz

Que disparas de teus olhos,

Que eterno em ti me seduz

A eterno saltar escolhos.

 

Deusa minha, saberás,

Como divina tu sabes,

Que será que fica atrás

No infinito onde me acabes.

 

Eu deixo-me conduzir,

Pequeno demais talvez

Para doméstico vir

Ser tua submissa rês.

 

Tenho, porém, fé na luz

Dos astros que me ilumina,

Vejo o céu a que conduz…

- Graças, amor, por tal sina!

 

 

305 – Opinião

 

Não existe uma obra humana,

Não há personalidade

Sobre que se não dimana

 

A opinião da verdade

Que no fundo nós ditamos

Da razão que nos invade.

 

E o que sabemos são ramos

Que em nós, escorregadios,

Perpassaram como gamos

 

A escaparem, fugidios.

E de tal nada se ditam

Com segurança os feitios,

 

As ideias se meditam,

Com a crença na inerrância

Em que em si sempre acreditam