QUARTO  VERSO

 

 

A norma impõe às asas de seu voo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha um número aleatório entre 391 e 491 inclusive.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem aprticular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

391 – A norma impõe às asas de seu voo

 

A norma impõe às asas de seu voo

A liberdade assim condicionada.

Tal caminheiro temeroso a estrada

Tomo, segura, a garantir que vou.

 

Então aquilo que sou

Contradita declarada

Será do que na jogada

É o ponto onde começou.

 

Vou ser então aquilo que não dou,

De mim em falta sempre até ao fim.

Como esperar jamais, se o que findou

Era afinal a escada para mim?

 

 

392 – Raças

 

Viver no mundo actual

Contra a igualdade das raças

É no Alasca erguer sinal

Contra a neve a que te abraças:

 

Se da neve me desfaço

De mim não resta mais traço.

 

 

393 – Como

 

O livro alimenta

Como o leite ensina:

O que o livro inventa

O leite o germina.

 

Desde o berço à escola

Marcham combinados,

Tal se desenrola

Nossa vida aos dados.

 

 

394 – Rapidez

 

É já tanta a rapidez

Que meus pais não são meus pais,

Nem meus avós, meus avós:

Coexistimos talvez

Nos espaços siderais,

Mas no tempo estamos sós.

 

Andamos nas mesmas ruas,

Dormimos sob igual tecto

Mas nossas memórias nuas

Vivem o encanto secreto

 

Que há nas estrelas cadentes:

- Com roteiros tão comuns,

Moramos como nenhuns

Em planetas diferentes!

 

 

395 – Realidade

 

A realidade não é

Aquilo que imaginamos:

As coisas grandes e nobres

Em que pomos maior fé,

Se as razões delas olhamos,

São das mais banais e pobres.

 

São fruto do compromisso

Entre um míope egoísta

E a boa sorte imprevista

Que à História acende o chamiço.

 

 

396 – Partilha

 

A partilha do trabalho

Para emprego garantir

Troca as cartas do baralho,

Nada muda ao repartir.

 

É que, se não há retoma,

Morre a economia ali:

Querem tratar do sintoma,

Não tratam do mal em si

 

Do labor manter o posto

Não vai diminuir os custos,

Do novo não cria o gosto…

- Somos, ao fim, mais injustos!

 

Crescimento sustentado

São empresas a expandir-se,

Não a encolher cada lado,

Novos frutos a exibir-se

Dando lucros por contado.

 

Novos campos para agir,

Novos bens, novos serviços

É trabalho garantir,

Em vez de encobrir sumiços

Ao que deixou de existir

 

Recuperar da injustiça

E curar de vez a dor

É estimular para a liça

Quem for empreendedor,

Matar de vez a preguiça.

 

Urge evitar a miséria

Que humilha e nos mata em vida.

Mas a pobreza quer féria,

Aguça o engenho e convida

À luta. Ao invés, pretere-a

 

A segurança, a fartura…

O meio termo intermédio

É o que melhor nos augura:

Nem os excessos do nédio,

Nem as pelancas da usura.

 

Vamos garantir as custas

De sobreviver a custo.

Do mercado então nas justas,

Com o suor mais adusto,

Virão as prendas augustas

 

Com que a vida se melhora

De todos e cada um,

A caminho desde agora

Sem desperdício nenhum.

Vamo-nos daqui embora

 

Rumo às veredas de além

Que é o amanhã que convém!

 

 

397 – Recompensas

 

As recompensas da vida

Advêm do capital:

Do financeiro ou humano.

Herdado, aquele invalida

Os trilhos do bem e mal.

Este, porém, de ano em ano,

Pode apurar seu escorço

Com o treino e com o esforço.

O falhado, a vida inteira

Ignorará, comezinho,

Ser esta a trilha primeira

Que o leva ao outro caminho.

 

 

398 – Patrão

 

Se algum dia for patrão,

Nunca trabalho mais tente

Que o que pode ter à mão

Quem for o seu assistente.

 

Ele é quem goza da fama

De à tarefa andar afeito:

Mais labor por seu reclama,

Vai auferir mais proveito.

 

 

399 – Imediato

 

Quando tens algo a fazer,

Fá-lo logo de imediato,

Que não há tempo a perder

Ao preparar para o acto.

 

Quem gasta em preparativos

O tempo de começar

Não lhe sobra nos arquivos

Nenhum mais com que avançar.

 

Da espera neste compasso

Perdeu mais que o próprio passo:

- Perde de vez o lugar!

 

 

400 – Galho

 

Para evitar atrapalho

Convém que cada qual herde

Tempo e modo de seu galho.

Um perfeccionista perde

Como o que adia o trabalho.

 

Dentro dum prazo previsto

Um projecto é o que melhor

Cada qual se pode impor

E que a tempo leva o visto.

 

Nunca será de somenos

Este equilíbrio entre os mais:

Perfeição nunca de menos

E tempo nunca demais.

 

 

401 – Aventura

 

Os fardos, a papelada,

O mesmo sempre à mistura?

- Abre do espírito a entrada

Com vislumbres de aventura.

 

Não vejas filas de contas,

Números à desfilada,

Vê nisto férias que apontas,

Vê teus clarins de alvorada.

Se por trás de cada linha

Descobres sonho a caminho,

Cada dia te adivinha,

Generoso, o melhor vinho

E aos festejos te encaminha

Com oiros de teu cadinho.

Em vez de fanar de tédio,

Teu tempo é pejado e nédio.

 

 

402 – Presente

 

Fica sempre enternecido

Quem oferece um presente:

De costas pega o bandido

Do egoísmo que alimente,

Abre um pequeno postigo

Na avareza natural

A que, animal, pede abrigo,

Por onde então cada qual

Solta em onda que o invade,

Livre, a generosidade.

 

 

403 – Cordeiro

 

Não deve um homem mostrar

Ao lobo seu semelhante

Mais que o jeito de reinar:

Todo o seu poder pensante.

 

Ao cordeiro, porém,

Importa que empreste

O coração que tem

- Ou dele o que reste!

 

 

404 – Caravana

 

Toda a gente aqui se irmana

Neste planeta, ao formar

Uma imensa caravana

Rumando a nehum lugar.

 

Todos nesta caminhada

Marchamos confusamente,

Peregrinação demente,

Incansável, rumo ao nada.

 

Cerca-nos a natureza

Inconsciente, impassível,

Que não nos vê com certeza,

Não entende a nenhum nível

 

E, portanto, não podemos

Dela aguardar nem socorro,

Lenitivo ao que sofremos,

Nem cura a quanto aqui morro.

 

Só nos resta dirigir,

Na rajada que nos leva,

Nossa mão a quem cair,

Antes que o apague a treva.

 

É na partilha do pão,

No manto que se comparte

No braço que ergue do chão

Que a alegria toma parte.

 

É por esta simpatia

Que, a não haver mais verdade,

Dignos cumprimos o dia

Quando a noite nos invade.

 

Nesta escura debandada

Todos correm para a morte.

A beleza da jornada

É desafiar a sorte:

 

Quem sabe se nalgum dia,

Quando menos se aguardar,

Outro rumo principia,

Rompemos noutro lugar?

 

 

405 – Cantar

 

O trabalho principia.

Parece que em Portugal

É mais uma fantasia,

É mais a festa que o guia

Do que o produto final.

 

Alegria interminável

Numa alquimia sem par,

Por mais inimaginável,

- O labor nos é agradável:

O povo fá-lo a cantar!

 

 

406 – Batalha

 

Não batalhes na batalha,

Que, quando penetras nela,

Não te escapas à metralha

 

Com que teu lado atropela

A justeza das razões

Que o inimigo revela.

 

Nele só verás senões

E nos teus, só maravilhas.

A decência que te impões

 

Morre afogada nas ilhas

Que a tempestade combate

Quebrando-te tuas quilhas.

 

A meio deste dislate,

Como ver num inimigo

A justiça que eu maltrate,

 

Que obrigo a correr perigo?

Antes que a vida as mãos te ate

Descobre nele um amigo.

 

 

407 – Lareira

 

Ao borralho da lareira

Converso chamas e lume

E o calor, à minha beira,

 

Da resina no perfume

Com os pinhais nos irmana,

Todos num só nos resume.

 

Até que o sono dimana

A piscar olhos mortiços,

Pardos, da braseira plana,

 

Com os morrões dos chamiços

A tombarem, num bocejo,

Sobre os carvões quebradiços.

 

E na modorra me vejo

Com os demais a sonhar,

Breve cinza em vago arquejo,

 

Todos fundidos no lar:

Ao fim somos nós, no ensejo,

O brasido a lucilar.

 

 

408 – Frio

 

No mais frio Fevereiro,

Como num frio qualquer,

Por mais que seja polar,

O que o mundo tem primeiro

A que melhor se agarrar

Não será o fogo acender:

- Como em qualquer fuga aos ermos,

Um ao outro é nos prendermos!

 

 

409 – Pessoas

 

Há pessoas em que a ira

Se grava em pedra, em granito:

O tempo gira que gira

E o rancor não trava o grito.

 

Há também quem é de areia:

Fácil a raiva o desenha;

Vem a onda e se passeia

A apagar-lhe toda a sanha.

 

Há quem seja água corrente,

Nada escreve lá o rancor,

Todo o mal dilui em frente,

Mantém límpido o frescor.

 

E se alguém há que, seguro,

Leve uma vida fiável

É quem logra ficar puro,

Água fresca imperturbável.

 

 

410 – Palmatória

 

Sentirei que ao perdoar

Dou a mão à palmatória:

No fim sou quem mais apanha.

Só que, abrindo a porta ao ar,

Não é doutrem a vitória,

É quem perdoa quem ganha.

 

 

411 – Perdão

 

Perdão é matar a raiva,

Restabelecer respeito,

Ofertar a tolerância.

Descobre o modo onde caiba

Um presente ao fim atreito

A acartar teu fardo de ânsia.