DÉCIMO SEGUNDO VERSO
De tal modo que as quadras em
sarilho
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um número aleatório entre 1144 e 1248 inclusive.
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o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1144 - De tal modo que as quadras em sarilho
De tal modo que as quadras em sarilho
Revelem o brilho que por trás se esconde,
Basta que o monde, do termo ao atilho.
Bem ensarilhada, uma quadra freme
E o mundo nos treme, terra germinada.
O que ali esconde sabemos lá bem,
Nem o que contém sabemos lá onde!
Por isso nos basta, dentre a grade estreita,
Ficarmos à espreita: que imensidão vasta!
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1145 - Ocioso |
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Aqui estou eu,
ocioso, adorando a companhia. |
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É assim que,
laborioso, as mãos lassas, por magia, |
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De paradas
entretecem osos que moldam os ossos |
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Doutras vidas
que acontecem por dentro de ignotos fossos |
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Para além de
quanto entendo. Um acto como uma ideia |
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Brotam donde os
não vou vendo - e a seca termina em cheia! |
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1146 - Ninhos |
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Quando gero
vida a sério, conto a rir os bocadinhos |
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Do saber cujo
mistério não fez mais que andar aos ninhos. |
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É que deles o
destino (que me fez com todo o ardor |
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Buscá-los em
desatino) tornar-me foi superior. |
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Quando a vida a
sério rola, aquela sabedoria |
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Se de todo não
é tola, bem tola pareceria! |
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1147 - Regato |
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A primeira água
corrente que há tempo que se não via |
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No chão
crestado assobia num coleio de serpente. |
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A terra não
morrerá jamais enquanto o regato |
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Correr, esperto
e pacato, por aqui, por acolá. |
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No corpo do
chão é a veia persistente ainda a pulsar |
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Por onde em
todo o lugar o sangue nos enxameia. |
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1148 - Jacente |
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A vida nunca se
pode cortar muito bruscamente, |
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Não se pode
estar jacente enquanto vibra e sacode |
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Tudo aquilo que
alterámos, enquanto isto não morrer. |
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Um nosso efeito
qualquer somos nós em nossos ramos. |
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Enquanto, pois,
perdurar a memória dolorosa, |
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Nela a pessoa
se entrosa, ninguém a pode amputar. |
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É bem lento e
demorado isto de a gente morrer, |
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Pedra no lago a
bater que, no círculo alargado, |
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Em ondas
percorre e cresce, serena, serenamente, |
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A lonjura toda
em frente, até que, quieta, fenece. |
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1149 - Ritmo |
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Tudo um ritmo
repetido parece ter, afinal, |
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Excepto a vida
em geral que em nós tem outro sentido. |
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Que em nós haja
um só nascer como um só morrer parece |
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Que com mais
nada acontece, não somos como qualquer. |
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Se não há coisa
nenhuma, pois, que se nos assemelhe |
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Que espanta que
me aconselhe e de mim não saiba, em suma? |
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1150 - Sol |
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O sol é vida e
consola se der uma vida à vida. |
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Porém, só como
vivida, enquanto de mim se evola, |
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Nos
subterrâneos da mente, é que ela é de carne e sangue. |
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Quando em
palavras a entangue, logo tudo nela mente. |
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De palavras o
vestido sobre uma verdade nua |
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Joga-lhe o
corpo na rua, ridículo e sem sentido. |
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1151 - Crepúsculos |
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No sol morro
cada dia em crepúsculos de sombra |
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E meu corpo
pela alfombra se estende à noite macia. |
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Assim é que,
quando morro, mato da mesma maneira |
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Que a vida de
mim se esgueira, nada corre se não corro. |
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É por mim
sempre que o faço, pelo sol nunca o faria, |
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Mas, ao passar
cada dia, sou afinal eu que passo. |
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1152 - Doido |
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Doido é sempre
quem abrir nas almas livre caminho, |
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A direito entre
o azevinho, para aquilo que há-de vir. |
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Às coisas lá
recalcadas, nestas almas mal sofridas, |
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Nem santuários
nem ermidas prometem asas de fadas. |
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Melhor é pregar
aos bichos, quer livres, quer nas gaiolas, |
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O nosso Natal
de esmolas. Para os mais são só caprichos! |
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1153 - Espírito |
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Quando a
estrada poeirenta geme a seca dentro em mim |
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É que inauguro
por fim quanto espírito se inventa. |
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Quando o gado
fatigado, esquelético caminha |
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Pela vereda que
é minha, minha alma me cresta ao lado. |
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E se, ao
morrer, o que morre, morre por mim dentro além, |
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O sangue que
dali vem é por minha alma que escorre. |
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1154 - História |
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A mulher tem
uma história para tudo o que acontece |
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E é com ela que
aquece qualquer frio da memória. |
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Histórias
correm ao lado da corida dos eventos, |
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Recobrem-lhe os
elementos com o sonho que é falado. |
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O encanto que a
mulher canta num murmúrio de magia |
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É que faz
nascer o dia que de manhã se levanta. |
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1155 - Terra |
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Quando a Terra
está a morrer, é ver que a Terra não morre: |
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O deserto onde
não corre uma outra vida qualquer |
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Teve em tempos vida a sério. Há, porém, limitações. |
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Se muita vez
das sezões um homem cai sob o império |
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Isto não
provará nunca que ele jamais morrerá: |
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A morte
mora-nos cá, ainda um dia ela nos junca! |
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1156 - Companheiro |
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Deixa andar à
tua frente quem conhecer o caminho |
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Das encostas
onde o vinho escorre pela vertente. |
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Quem ruma à
frente primeiro, mais que à tua frente vai, |
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É o que à
besta-fera sai, o que salva o companheiro: |
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Concede-te que
tu sejas, mostra-te o que a ti segredas, |
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Endireita-te as
veredas, conduz-te ao cume que almejas. |
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1157 - Herói |
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Olha para
aquele herói que tanto procura a vida: |
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Um sonho em
névoa delida e como um sopro se foi! |
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Em lugar da
eternidade, importa mantê-lo vivo |
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Para retornar
cativo à prisão de ter idade. |
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Homem, volta
são e salvo ao local donde vieste: |
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Não há portão
mais agreste do que imortal ir a um alvo! |
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1158 - Esconderijo |
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Quando sai do
esconderijo, lança um tal clarão no instante |
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Sobre quanto
toca adiante, que o creio ser o que exijo. |
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Confundo
naturalmente a luminosa verdade |
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Com a
ocasionalidade da revelação presente. |
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Alguém que
tenha sentido a música a arrebatá-lo |
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Dirá que ela é
que é o regalo em que o divino é ouvido. |
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Aquele a que a
imensidão do mar tocou no mais fundo |
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Verá no mar o
fecundo elo da religião. |
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Este dirá
“o meu profeta”, estoutro, “a minha capela”, |
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“Meu evangelho”
daquela é a verdade predilecta. |
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Cada qual seu
edifício em torno dum grão de pó |
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Constrói tal se
dele só pudera haver benefício. |
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Mas é livre o
numinoso, tanto e para além de tudo |
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Que é o mesmo,
mesmo se mudo, é o que é, mesmo se o não gozo. |
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Essência da
liberdade, libertarmo-nos dum bem |
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Que não
passará, porém, de parcela da verdade |
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É a vera
dificuldade: o inverso dum bem é um mal, |
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De vez nos
fecha o portal do bem à totalidade. |
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1159 - Memória |
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A memória nos
liberta pela mão do esquecimento. |
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Como escrever
um lamento, se a mão que a caneta aperta |
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Cada vez que
nela pego no espírito me traduz |
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Quantos passos
para a luz na senda da vida agrego? |
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Se o preço de
isto ocorrer me reproduzira a via, |
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Perdia toda a
magia, deixava mesmo de ser! |
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1160 - Borboleta |
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Sonhei a noite
passada que era a bela borboleta |
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A volitar na
valeta toda florida da estrada. |
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Quando acordei
era eu e não aquela ilusão. |
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Mas fica a
interrogação sobre quanto aconteceu: |
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Quem serei eu,
afinal? Eu sonhando a borboleta, |
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Ou antes a
borboleta tendo-me a mim por fanal? |
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1161 - Universal |
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A razão não
somos nós, pois todos os pensamentos |
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São da razão os
momentos, é o Universo a ter voz. |
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Não somos nós o
vital, pois tudo o que em nós é vida |
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É da vastidão
haurida duma vida universal. |
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Este corpo nós
não somos, dado que dele os compostos |
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São-nos,
afinal, impostos com as leis que lhes não pomos. |
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O que somos,
afinal, se eu não sou que estou em mim, |
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É que sou voz
do confim, rumo, em gérmen, ao total. |
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1162 - Ensaio |
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Têm a falha
fatal todas as revoluções: |
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Não há palcos
nem salões para o ensaio geral. |
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As rupturas,
são, assim, sempre o sonho de quenquer |
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Sem teia que
entretecer, chegam de antemão ao fim. |
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Operadas de
improviso, não é por falta de ser |
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Que a ser nem
chegam sequer, é por falta de juízo! |
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1163 - Fossa |
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O meu corpo é
uma carroça; a minha vida, o cavalo; |
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Cocheiro é o
que penso e falo e eu, vontade que o remoça. |
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Eu controlo o
meu cocheiro, o qual comanda o cavalo |
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Na carroça com
que abalo - todos num o dia inteiro. |
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Do tempo na
maior parte, circula o carro sem dono, |
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Tomba o
cocheiro de sono e a besta destina e parte. |
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Então é quando
a carroça, em desvario, ao virar-se, |
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De acordo põe,
sem disfarce, a todos dentro da fossa. |
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1164 - Letras |
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Tragédia de ser
humano é a de que um pequeno eu |
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Assina as
letras, labéu de que a seguir pago o dano. |
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Sou eu, homem
no meu todo, que enfrento esta situação. |
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Vidas inteiras
se vão, a resgatar, deste modo, |
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As dívidas
contraídas por uns eus acidentais |
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Que acabam
pesando mais que as demais vidas das vidas. |
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1165 - Queima-roupa |
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Morrer é mudar
de roupa e aquele a que a morte assusta |
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É como o actor
a quem custa um disparo à queima-roupa |
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Duma pistola no
palco que sabe que é disparada |
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Com pólvora
seca, dada a imitar o catafalco. |
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Mas pardal
habituado à gaiola não se importa: |
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Não voa se lhe
abro a porta, é por dentro encarcerado! |
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1166 - Caixinhas |
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Agora vais
retornar ao sistema das caixinhas, |
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Pelo horizonte
caminhas, do cosmos sais do lugar. |
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No mundo a três
dimensões reentras que construído, |
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Artificial,
medido pelos humanos supões. |
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Como os demais
ocupar uma única caixinha |
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Irás até que a
adivinha te consiga decifrar: |
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Convencer-te-ás
de novo de que a vida e o mundo inteiro |
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Algum valor a
terreiro trarão a chocar no covo. |
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1167 - Candeia |
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Quando alguém
te perguntar, vendo-te a candeia acesa, |
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Para a luz que
tanto preza da fonte qual o lugar, |
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Sopra, apaga a tua chama. Responde-lhe então assim: |
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“Agora que lhe
dei fim, onde é que o lume se acama? |
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Diz-me para
onde ele foi, dir-te-ei donde ele vinha.” |
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Verás que desta
adivinha novo lume se constrói. |
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1168 - Cume |
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A evolução será
feita pela experimentação, |
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Já que o fim da
vida não é aquilo a que vive atreita. |
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Embora a
felicidade seja, para a maioria, |
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O que ao fim
decidiria da vida a finalidade, |
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Ser feliz
(fugir à ausência) nunca pode ser o fim, |
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Mas antes
viver-me a mim de que então é consequência. |
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Quando me vivo
conforme, tal felicidade advém, |
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Já que treparei
também da mudança o cume informe. |
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Quando a mim eu
me transgrido, vem então o sofrimento |
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Que aponta, em
qualquer momento, quanto de mim me divido. |
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1169 - Fantoches |
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Os fantoches de
madeira imitam tanto o ser vivo |
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Que o seu
manejo cativo é uma vida verdadeira. |
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Manejo-vos com
os dedos, dou três voltas ao cordel |
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E vós cumpris o
papel, rides ou tremeis de medos. |
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Porém, quando a
mão retiro, vos jogo nos bastidores, |
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Vai-se a ilusão
e os humores, mortos se ao chão vos atiro. |
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E os fantoches
que ali vimos somos nós, homens, apenas, |
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Só que não
cremos nas cenas e sonhamos que existimos. |
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1170 - Lanterna |
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Caminho
trazendo às costas a lanterna da experiência |
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Que me vai
dando a ciência das sendas antes transpostas. |
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É o caminho
percorrido, quando aquele por correr |
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É que me
importa saber para à vida dar sentido. |
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Porém, o nosso
destino que caminha à nossa frente |
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Só minha sombra
pressente quando no abismo me inclino. |
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1171 - Dados |
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Se os dados
estão lançados na vida, cada um pode |
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Fazer tudo o
que lhe acode, quebrando as pernas aos fados. |
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Experiência não
é o que aconteceu a um homem |
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Mas dele os
actos que somem o que a vida pôs de pé. |
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Nem à mesa te
acontece nada ir parar-te à boca |
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Se a tua mão
não lhe toca, se de ajudar-te se esquece. |
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1172 - Esforço |
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Olha que nenhum
esforço, por mais pequeno que seja, |
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Perde a fruta
que vareja, dê na festa ou no remorso. |
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Na boa ou má
direcção, nada morrerá na teia |
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Das causas em
que se enleia, mesmo o fumo em dispersão. |
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Tudo marca os
próprios traços e podes criar desde hoje, |
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Na correnteza
que foge, teus mais oportunos passos. |
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1173 - Veludo |
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Sejas pai,
sejas político, sacerdote ou director, |
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Empresário, teu
maior de actuar princípio crítico |
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É que terás de
aprender a ser mais que paciente |
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Dirigindo o
diferente com o igual que convier. |
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Pois o que
convém a tudo, ao dirigi-lo sem erro, |
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É que tenhas
mão de ferro mas em luva de veludo. |
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1174 - Domingo |
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Para muitos
toda a vida foi a tarde de domingo |
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Em que,
infeliz, nem distingo, quando passa de corrida, |
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Se é apenas
quente e pesada ou se o que é desagradável |
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É de tudo ser
inviável e a fazer não haver nada. |
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Dessa tarde, na
lembrança, fica a contrariedade, |
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O aborrecimento
que há-de marcá-la em troca da dança. |
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Depois, muito
bruscamente, finda pela noite dentro... |
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- E a vida em
que já não entro foi mero sonho que mente. |
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1175 - Camponês |
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Manhã cedo, o
camponês nas hortas vai encontrar |
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Uma grande égua
a pastar, linda da cabeça aos pés. |
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De ninguém como
não era, com ela ficou, feliz. |
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Cada vizinho
maldiz a sorte que não tivera! |
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Porém, uns
tempos depois, a égua desaparece. |
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A noite fez que
o fizesse bem antes dos arrebóis. |
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Então toda a
vizinhança lamenta o infortunado... |
|
Até que, um
tempo passado, de novo a égua se alcança: |
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Traz um
potrozinho ao lado, a saltitar pela aragem. |
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E a vizinhança,
em romagem, inveja o inesperado. |
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Uma semana mais
tarde, um coice do potro fere |
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O filho. Quando
o confere, chora a aldeia com alarde: |
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|
“Mais te valera
não teres tido égua do que um filho |
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Coxo de vez e
sem brilho para a vida que lhe deres.” |
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Porém, os
oficiais do senhor local da guerra |
|
Recrutam após,
na terra, quem de jovem dê sinais. |
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|
Ante a
iminência da morte para os filhos, o lamento |
|
Outra vez o
sentimento muda em inveja: “Que sorte! |
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Os nossos correm o risco de ser mortos. Mais vale um |
|
Coxo ter do que
nenhum rapaz a tratar do aprisco!” |
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1176 - Conjuntura |
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|
Acolher a
conjuntura não é me manter passivo. |
|
Se no remoinho
vivo, corro o risco da fundura. |
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|
Poderei, ou
recusar e então me debaterei, |
|
O que vai
cumprir a lei de melhor eu me afogar, |
|
|
|
Ou aceitar tal
evento, procurando então a forma |
|
De me libertar:
a norma de boiar sobre o elemento. |
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|
|
O que daqui se
recolhe tem esta verdade inclusa: |
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Quem acolhe é
que recusa e quem recusa é que acolhe. |
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1177 - Comédia |
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Olha o que é a
vida: a comédia de marionetas sombrias, |
|
Meras
fantasmagorias, o inverso duma tragédia. |
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Piruetas e
esgares, fantoches cruzam a cena |
|
Rindo e
chorando sem pena, com lábios ocos de alvares. |
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|
Na outra ponta
do palco desaparecem de vez, |
|
Já sem máscara
nem tez, terminam no catafalco. |
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|
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Morrem sem se
recordar de que a mesma mascarada |
|
Viveram em cada
entrada, prontos a recomeçar |
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Maquinalmente a
cegueira, movidos das mesmas molas: |
|
Amor, ódio,
umas esmolas de sexo ali mesmo à beira. |
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Uma volta ao
carrocel e depois uma saída |
|
Mais ou menos
conseguida e retoma-se o papel. |
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Somos bolas de
sabão que nas nuvens se dissolvem |
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E sem vestígios
resolvem formar de novo o balão. |
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1178 - Purgatório |
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A vida tem um
sentido: não é ser um purgatório |
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Nem um buraco
ilusório para o além desconhecido. |
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A vida é um
laboratório onde a pedra, a pouco e pouco, |
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Abandona o
mundo mouco, de planta num envoltório, |