DÉCIMO QUARTO VERSO

 

 

Épicos se erguem da jornada os tectos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escolha entre os números 1371 e 1372.

 

Descubra o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1371 - Épicos se erguem da jornada os tectos

 

Épicos se erguem da jornada os tectos:

Quantos poemas motes dão serenos

Em que vislumbro quanto são completos

Na plenitude os actos mais pequenos!

Pelo caminho, dos avós aos netos,

Do mais em nome iremos, sendo o menos,

E, se nos na jornada não perdemos,

É de isto farol ser do que queremos.

 

 

 

1372 - Universos

 

Da vida humana, um dos aspectos raros

É que vários pequenos universos

Todos e cada qual nos serão caros,

Para sonhos e fins se mostram tersos

Quando servidos com afins preparos,

Porém operam como irmãos conversos

No tempo coexistindo e nos espaços

Sem uns doutros saberem dos abraços.

 

Um homem avisado é marinheiro

Que pelo mar incerto duma vida

Ausculta a ondulação, interesseiro,

Busca o vigor dum braço para a lida,

Segue a rota do Sol e, viageiro,

À nuvem mede a cor, por mais delida,

E acaba dominando os elementos

Por saber de que lado andam os ventos.

 

Mais fácil detestar é a multidão,

Que os feitos se misturam de ameaça,

Que o povo se transmuda no senão

Sem rumo ou tradição que é a populaça,

Mais fácil do que quando fica à mão

Um a um cada homem que nos traça

Seu perfil ante nós tão cara a cara

Que noutrem cada qual em si repara.

 

A maldição dum povo é a corrupção,

É a falta de horizontes que sonhar,

São valores perdidos pelo chão

E o tempo de ano em ano a se arrastar,

É todo o nada disto: sem perdão,

Onde o povo de vez perde seu lar

É quando o dirigirem nulidades,

- Então são maldição suas verdades!

 

Um homem vale um homem e o lugar

Ou a família em cujo seio nasce

Lhe servem dentre pares a ser par

Mas nunca o reconduzem onde pasce

A cimeira grandeza singular:

Dum homem o tamanho afinal faz-se

Por tudo aquilo que em si próprio for,

Nada de fora o tornará maior.

 

Primeiro tribalistas nós o fomos,

Depois nacionalistas até agora,

Internacionalistas quando o somos

Ainda o nacional se nos demora

No grupo, ideologia que supomos

A cruzar as fronteiras toda a hora.

É a nossa idade que nos marca as pistas:

Os jovens são essencialmente egoístas.

 

O que ocorre comigo, humanidade

A tomar corpo inábil, insegura,

É que jamais descubro, com verdade,

O que é que quero, de vontade pura,

Tanto tergiversei, em cada idade,

Com o valor de quanto a idade apura,

Não sei nunca o que quero (e o custo a que orça),

Embora o queira com imensa força!

 

A fama e o prestígio, que agradável

A gratificação que nos convence

Da efémera grandeza saudável!

E como a timidez em nós se vence

Na ilusão de que tudo nos é viável!

Porém, depois do engodo, ao fim mantém-se

O mais pesado custo da ignorância:

A fama a todos põe mesmo à distância.

 

De tão polido, brilha o aristocrata

Em tudo o que é pequeno com fulgor,

Do trato lima arestas com quem trata

Até que se confunde com amor,

Contudo, se é de bens que ele contrata

Ou se é de sacrifícios o penhor,

Opera logo tal como o beato:

- Por fora, adora, dentro é um desacato.

 

Se apenas nós vivêramos a morte

Sem a conceber nunca num conceito,

O instante apenas lhe sofrera a sorte,

Em nenhum tempo lhe haveria preito,

Nem antes nem depois teria corte

Que em eco lhe dobrara a dor no peito,

Porém, como a palavra evoca um acto,

Em concreto a sofremos e em abstracto.

 

Em todo o asceta um salvador dormita,

Por motu próprio ou por moção estranha,

Ao contrariar o que ao prazer concita,

A sensualidade que é tamanha

Ao moderar quando demais palpita.

Porém, atrás do dique o que ele ganha

Não é um poder que cremos ser fantástico:

Referve atrás do asceta um orgiástico!

 

Se este mundo é o só mundo que está certo,

Se as demais dimensões não existirem,

Por mais que ele nos fique de nós perto,

Que as investigações nos persistirem

No fim vamos parar sempre ao deserto

Com os limites que o saber medirem.

Nas dimensões cujo tear não urdo

Mora a esperança de romper o absurdo.

 

Sou Homem apesar de quanto falho,

Sou Homem apesar de quanto quero

E depois traio ao gerir trabalho,

Numa perpétua fuga ao desespero.

Sou homem de raiz como um carvalho,

Mas sempre nas areias é que opero.

De além fronteiras homem sobretudo,

Homem serei mas apesar de tudo.

 

Quem ídolo quer ser, ignora a dor

Que espreme a idolatria, grau a grau,

Por ondas atingindo em seu redor

As correntezas sem lhe deixar vau.

Os ídolos desabam e o fervor

No idólatra morreu e torna-o mau.

Mas quem mais vai sofrer é o deus caído,

De si mais que de deus destituído.

 

Um povo luta até ao fim da vida

Por uma vida cujo fim visou,

Um Camões naufragado, a mão erguida,

Por um poema o fôlego arriscou,

Mas uma empresa, se se vê falida,

À outra vende aquilo em que apostou:

Em dinheiro qualquer sonho resolve,

Que, se o retém, a empresa se dissolve.

 

No mundo, ao fim e ao cabo, que há de errado?

Quando nosso destino verdadeiro

Examino curioso e desvelado,

Descubro, na incerteza do sendeiro,

Que se firma no chão, de cada lado,

Cada dia mais livre, mais ordeiro...

O derradeiro erro, se aprofundo,

É o absurdo total do que é o mundo.

 

Quem busca a solidão nisto conjuga

Consigo o mundo inteiro que abandona

Para se não perder na eterna fuga

De quem lá se procura numa zona

Em que tudo o que encontra é o que subjuga.

Na multidão ninguém vem nunca à tona,

O solitário é quem descobre o veio:

Entre tudo e ninguém, ocupa o meio.

 

A mulher tem ou cabeleira de oiro

Ou cabeleira negra cor da treva.

Tentação e promessa de tesoiro,

A espera duma luz que nos enleva,

Dos dois fascínios é a mulher agoiro

Que eterna a Humanidade no imo leva:

A fome de riqueza uma resume,

A outra a do saber que se comsume.

 

A que é que sabe o pão que dia a dia

Ganham as mãos anónimas que pões

A servir-te hora a hora a fantasia?

Vai saber-te a remorsos e sermões.

Só sabe bem o pão que comeria

A boca que o cozeu em seus fogões.

O pão que melhor sabe é o pão dos grãos

Que dia a dia ganham nossas mãos.

 

Deveras tudo chega à capital

Mas tudo é na província que se passa.

Aqui não há relevo nem sinal,

Mas dramas que em silêncio se ultrapassa,

Mistérios escondidos na actual

Palavra que as catástrofes deslaça.

Aqui é que as acções têm valor,

Na província é que o público é senhor.

 

Entre o céu e a terra onde há duelo

Não é nas grandes urbes nevoentas

Mas onde o vinhateiro faz apelo

Com mais vozes agrárias fatais, lentas,

De tanoeiros a marujos, elos

Se estrangulando dentre as mãos cruentas:

Pois permanente aqui se rasga o véu

Do desencontro entre terra e céu.

 

Incerta vai reinar a opinião,

Que de incerteza o âmago lhe é feito,

E assim incerta fica a duração

Em que sobre nós reina, mal afeito,

O inseguro tremor de seu pendão.

Nunca tende, porém, a ter tal jeito

A opinião da aldeia, criticável,

Pois, quando opina, opina inabalável.

 

Como ave de alto preço engaiolada

Que mimalha seu preço desconhece,

Em provas de amizade interessada

Em que cegada crê, com que entorpece,

A ingénua pequenez da namorada

Nunca vê quanto ao fim é um interesse

Não dela que é vendida e que é comprada,

Mas dum contrato em que é mera jogada.

 

A miserável condição humana

Não é de ser miséria preterida,

Nem da fome nem guerra em que se engana,

Nem duma epidemia sem saída,

Nem de ao vento devir infiel cana

Que todo o rumo aponta de fugida,

- Miserável é ter felicidade

E nem saber sequer quanto é verdade.

 

Sendo a luz o primeiro amor da vida,

Por ela pauto a vida quando nasço;

Luz e trevas, se dura, são medida

Do acerto e desacerto do que faço

E até na morte um túnel me convida

A o percorrer da luz buscando o abraço.

Mas quando o amor nos borbotar do chão,

Eis a primeira luz do coração.

 

É do nobre destino da mulher

Deixar-se comover bem mais depressa

Da miséria por marcas que tiver

Quando humilde na via se atravessa

Do que pelo esplendor que haja qualquer

Fortuna cuja inveja se enalteça.

Do nada onde uma vida breve aponta

É que a mulher retira sua conta.

 

Um amor que um amor é verdadeiro

Verdadeira retém a presciência

Da via que conduz a amor inteiro,

Embora quase nunca haja a evidência

Do que um parceiro leva a seu parceiro

Nem jamais a final disto ciência.

Amor que sabe a amor, sabe o valor

E vale quanto amor excita o amor.

 

Todo o poder humano é um derivado

De duas linhas de enredar a teia:

Uma o tempo desnuda com cuidado

Por onde a outra trepa a lenta ameia.

De ano em ano o vigor do que é traçado

É pela paciência que se alteia.

Paciência e tempo é que o poder revelam:

Fortes são os que querem e que velam.

 

O avarento ao cordeiro engordará,

Metê-lo-á no redil e depois mata-o,

Cozinha-o por poupança mesmo lá,

Porventura até come e nisto acata-o,

Mas despreza, porém, quanto nele há.

É que a avareza enreda-o, depois ata-o:

O avaro se alimenta como alguém

Que dinheiro digere mais desdém.

 

Da riqueza a vantagem perigosa

É que destrói nos luxos a igualdade.

Tem a miséria a face de que goza

Quando iguais nos revela e persuade.

Tem a mulher dos anjos a formosa

Veia da compaixão que sempre a invade,

Qual tesoiro maior que qualquer cofre,

Quando na vida topa alguém que sofre.

 

A vida moral quer respiração

Senão morre por falta do que aspira.

Qualquer alma quer ter um coração

O qual por ela sinta quanto a fira,

Absorva os sentimentos, a emoção

Que noutrem despertou e lhos retira

Para os assimilar com tal perfil

Que em paga a cada qual retribui mil.

 

Lisonja de grande alma não dimana,

É apanágio de espíritos mesquinhos

Que aos ventos ainda vergam mais a cana

Do capitoso eflúvio dos bons vinhos

Que em torno a quem gravitam sempre emana,

Por muito que divirjam os caminhos.

Lisonja oculta sempre um interesse

Que bem pequeno torna quem a tece.

 

Sem nada todos, todos nós nascemos,

Considerando que é uma desvantagem,

Já que inermes a vida percorremos

Impreparados de vez para a viagem

E por mais que aprendamos não sabemos

O que serve ou não serve na triagem.

Porém, se nada sou e nada sois,

É lucro o que adquirimos nós depois.

 

Por entre nossas perdas e vitórias

Podemos tirar sempre nosso ganho

Se apenas não buscamos fúteis glórias

Mas do saber e ser tudo o que apanho.

Com efeito, a melhor destas memórias

Não vem só do combate em que me assanho,

É que há vitórias de alma ao perder quando,

Mesmo perdendo, aqui me vou ganhando.

 

Ao buscar a falaz publicidade

Obteremos os ganhos do produto;

Ao inchar a peitaça de vaidade,

O namorado pode colher fruto.

Tem um preço, porém, esta ansiedade

Que não compensa o ganho diminuto:

O que mata as doninhas é o alarde

Que fazem delas próprias, cedo ou tarde.

 

O que importa é viver suficiente

Vida para rever bem cuidadoso,

Examinando à vez, atentamente,

Numa segunda volta, o que formoso

A mim me apareceu quando presente,

De que, por isso, indefectível gozo.

O inteiramente certo a vez primeira

Falha, se vivo assaz, à derradeira.

 

Aceitar um favor dum inimigo

Ou é reconversão ou tanto faz,

Atendo a quando enfim me desobrigo,

Tudo o mais abandono para trás.

Quando aceito um favor, porém, de amigo

Serão dois os favores que ele traz:

Primeiro, o que ele faz ao meu apelo;

Segundo, o que lhe faço ao acolhê-lo.

 

Há quem se modifique ao ver a luz,

Arrebatado no êxtase da aurora.

Outros, porém, jamais isto os seduz,

Pois é o frio que os tolhe de ir-se embora:

É nestes que a mudança se traduz

Pelo calor que sentem desde agora.

São a luz e o calor o que convida

Qualquer vida a trepar pela subida.

 

O Criador nunca teria feito

Dias tão lindos nem teria dado

A sensibilidade com tal jeito

De apreciá-los bem por todo o lado

Se nos não destinara a maior preito

Do que na curta vida o que é prestado,

Se acaso não houvera programado

Para a imortalidade nosso fado.

 

Riremos com humor do inabitual

E com humor também do acto falhado,

Do desigual riremos quando igual

Se puser do diverso mesmo ao lado.

No riso pretendemos que se emale

O nada que se grande crê talhado.

Humor é rir daquilo que não temos

E libertar a festa em quanto vemos.

 

Fugir dizem que é muito saudável

Embora algumas vezes seja feio.

Se a prudência o comanda, é desejável,

Mas prudente é reter o justo meio,

Ao excesso escapando condenável

De ser a marioneta do receio;

Depois, é quando a fuga tem lugar

Que se está mais sujeito a tropeçar.

 

Ninguém logra viver de antanho a vida,

Que de antanho uma vida já passou

E atrás a caminhada é proibida,

Só a memória ali logra um sobrevoo.

Repara adiante até que além progrida

Esta passada incerta que és e sou.

Olhai em frente o que vos mostra a montra:

Em frente olhai onde o porvir se encontra.

 

Se andarmos construindo a vida a dois,

Não podemos deixar interferir

Os outros nos ideais, porque depois

Tais influências vão-nos destruir.

Os demais podem ser os nossos sois

De longe a iluminar o que há-de vir,

Se quem cavar as hortas formos nós

Do alvor desde antes ao poente após.

 

O que a felicidade tem de mais

Maravilhoso foi que, mesmo quando

Dela à procura nem sequer andais,

Ao vosso encontro pode vir andando.

Senão, como é que então vos explicais

Este petiz os vossos pés mirando?

“Que lindos!” - encantado, ri o petiz.

- E, sem mais, cada qual fica feliz!

 

Se dentro das famílias as pessoas

Não tiverem descanso umas das mais,

Em breve deixarão de andar às boas,

Enervam-se, de guerra dão sinais.

E os dias depois só não arregoas

Do arado das discórdias se te vais

Programar consciente, em cada dia,

Teu tempo de estar só, sem companhia.

 

Dormir sobre um assunto, diz o povo

Que ajuda a resolver certos problemas,

Sem descobrir quanto me ali renovo,

Desde a acalmia a que sujeito os lemas,

Efeito primordial por que me movo,

Até me estruturar todos os temas:

Se, quando treino, eu ao sonhar me rendo,

Durante os sonhos é que mais aprendo.

 

Se a vida não te acerta na pintura,

Que a jarra nela posta não combina

Com as tonalidades que emoldura,

Mistura alguma com tais tons atina,

Se pintor queres ser, mas com finura,

A quem pintar tal vida te destina

Pinta-lhe a vida, sim mas troca a barra:

- Pinta-lhe em tom igual também a jarra!

 

Depois de por fim termos perdoado,

Rimos a vida, sentimento fundo,

Aos outros cada qual é mais ligado,

Começa a desbravar um outro mundo.

O bom sentir que então será gerado

Vai recobrir caminhos tão fecundo

Que nos chega a curar dos traumatismos,

A borda nos saltando dos abismos.

 

Não julgues que perdoar será esquecer:

Não conseguimos esquecer a dor

E nem o deveríamos sequer.

As experiências é que vão-nos pôr

De prevenção contra um algoz qualquer.

Ser vítima de novo é bem pior

Que a vez incauta em que primeiro foi

E o que doeu prevenirá o que doi.

 

O perdão pode bem exigir mais

Do que por nós teremos para dar,

Tão pequeninos somos, desiguais

Da ofensa ante os tamanhos e o lugar.

É preciso rumar aos arraiais

Onde a pegada humana não tem par.

Errar é humano, eis o fatal destino,

Mas perdoar, perdoar é divino.

 

Pessoas perdoadas podem nunca

Compreender que nos fizeram mal

Ferindo-nos de esquiva garra adunca.

As marcas que nos deixam, cada qual

Poderá renegar, que o chão se junca

De cicatrizes mil, rede banal.

Poderão nem saber que as perdoámos,

Da raiva, porém, nós nos libertámos.

 

Quero vingança e à vingança o preito

Ando a prestar solene. E, na verdade,

A vingança não deixa satisfeito

Quanto deixa o perdão que persuade.

Pois perdoar jamais quer a um suspeito

Ceder, mas o apagar que nos agrade.

Quando perdoo, eu quebrei grilhões:

De quem me maltratou fujo às prisões.

 

O perdão livra mais dum pesadelo

Em que outrem para nós se transformou

Que as raivas incontidas o atropelo

Dos gestos me provocam em que sou.

O perdão nos acorda para o apelo

Das caminhadas mil em largo voo,

Em que da raiva o inferno inteiro passa

Pondo-nos em estado nós de graça.

 

Se o perdão de alguém faz sentir tão bem

Por que será que tantos dão consigo