DÉCIMO QUARTO VERSO
Épicos se erguem da jornada os
tectos
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entre os números 1371 e 1372.
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o poema correspondente como uma mensagem particular para o seu dia de hoje.
1371 - Épicos se erguem da jornada os tectos
Épicos se erguem da jornada os tectos:
Quantos poemas motes dão serenos
Em que vislumbro quanto são completos
Na plenitude os actos mais pequenos!
Pelo caminho, dos avós aos netos,
Do mais em nome iremos, sendo o menos,
E, se nos na jornada não perdemos,
É de isto farol ser do que queremos.
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1372 - Universos |
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Da vida humana,
um dos aspectos raros |
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É que vários
pequenos universos |
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Todos e cada
qual nos serão caros, |
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Para sonhos e
fins se mostram tersos |
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Quando servidos
com afins preparos, |
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Porém operam
como irmãos conversos |
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No tempo
coexistindo e nos espaços |
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Sem uns doutros
saberem dos abraços. |
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Um homem
avisado é marinheiro |
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Que pelo mar
incerto duma vida |
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Ausculta a ondulação, interesseiro, |
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Busca o vigor
dum braço para a lida, |
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Segue a rota do
Sol e, viageiro, |
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À nuvem mede a
cor, por mais delida, |
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E acaba
dominando os elementos |
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Por saber de
que lado andam os ventos. |
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Mais fácil
detestar é a multidão, |
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Que os feitos
se misturam de ameaça, |
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Que o povo se
transmuda no senão |
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Sem rumo ou
tradição que é a populaça, |
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Mais fácil do
que quando fica à mão |
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Um a um cada
homem que nos traça |
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Seu perfil ante
nós tão cara a cara |
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Que noutrem
cada qual em si repara. |
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A maldição dum
povo é a corrupção, |
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É a falta de
horizontes que sonhar, |
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São valores
perdidos pelo chão |
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E o tempo de
ano em ano a se arrastar, |
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É todo o nada
disto: sem perdão, |
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Onde o povo de
vez perde seu lar |
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É quando o
dirigirem nulidades, |
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- Então são
maldição suas verdades! |
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Um homem vale
um homem e o lugar |
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Ou a família em
cujo seio nasce |
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Lhe servem
dentre pares a ser par |
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Mas nunca o
reconduzem onde pasce |
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A cimeira grandeza singular: |
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Dum homem o
tamanho afinal faz-se |
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Por tudo aquilo
que em si próprio for, |
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Nada de fora o
tornará maior. |
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Primeiro
tribalistas nós o fomos, |
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Depois nacionalistas até agora, |
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Internacionalistas quando o somos |
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Ainda o
nacional se nos demora |
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No grupo,
ideologia que supomos |
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A cruzar as
fronteiras toda a hora. |
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É a nossa idade
que nos marca as pistas: |
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Os jovens são
essencialmente egoístas. |
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O que ocorre
comigo, humanidade |
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A tomar corpo
inábil, insegura, |
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É que jamais
descubro, com verdade, |
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O que é que
quero, de vontade pura, |
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Tanto
tergiversei, em cada idade, |
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Com o valor de
quanto a idade apura, |
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Não sei nunca o
que quero (e o custo a que orça), |
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Embora o queira
com imensa força! |
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A fama e o
prestígio, que agradável |
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A gratificação
que nos convence |
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Da efémera grandeza saudável! |
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E como a
timidez em nós se vence |
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Na ilusão de
que tudo nos é viável! |
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Porém, depois
do engodo, ao fim mantém-se |
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O mais pesado
custo da ignorância: |
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A fama a todos
põe mesmo à distância. |
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De tão polido,
brilha o aristocrata |
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Em tudo o que é
pequeno com fulgor, |
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Do trato lima
arestas com quem trata |
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Até que se
confunde com amor, |
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Contudo, se é
de bens que ele contrata |
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Ou se é de
sacrifícios o penhor, |
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Opera logo tal
como o beato: |
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- Por fora,
adora, dentro é um desacato. |
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Se apenas nós
vivêramos a morte |
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Sem a conceber
nunca num conceito, |
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O instante
apenas lhe sofrera a sorte, |
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Em nenhum tempo
lhe haveria preito, |
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Nem antes nem
depois teria corte |
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Que em eco lhe
dobrara a dor no peito, |
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Porém, como a
palavra evoca um acto, |
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Em concreto a
sofremos e em abstracto. |
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Em todo o
asceta um salvador dormita, |
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Por motu
próprio ou por moção estranha, |
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Ao contrariar o
que ao prazer concita, |
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A sensualidade
que é tamanha |
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Ao moderar
quando demais palpita. |
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Porém, atrás do
dique o que ele ganha |
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Não é um poder
que cremos ser fantástico: |
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Referve atrás
do asceta um orgiástico! |
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Se este mundo é
o só mundo que está certo, |
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Se as demais
dimensões não existirem, |
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Por mais que
ele nos fique de nós perto, |
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Que as
investigações nos persistirem |
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No fim vamos
parar sempre ao deserto |
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Com os limites
que o saber medirem. |
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Nas dimensões
cujo tear não urdo |
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Mora a
esperança de romper o absurdo. |
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Sou Homem
apesar de quanto falho, |
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Sou Homem
apesar de quanto quero |
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E depois traio
ao gerir trabalho, |
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Numa perpétua
fuga ao desespero. |
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Sou homem de
raiz como um carvalho, |
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Mas sempre nas
areias é que opero. |
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De além
fronteiras homem sobretudo, |
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Homem serei mas
apesar de tudo. |
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Quem ídolo quer
ser, ignora a dor |
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Que espreme a
idolatria, grau a grau, |
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Por ondas
atingindo em seu redor |
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As correntezas
sem lhe deixar vau. |
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Os ídolos
desabam e o fervor |
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No idólatra
morreu e torna-o mau. |
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Mas quem mais
vai sofrer é o deus caído, |
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De si mais que
de deus destituído. |
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Um povo luta
até ao fim da vida |
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Por uma vida
cujo fim visou, |
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Um Camões
naufragado, a mão erguida, |
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Por um poema o
fôlego arriscou, |
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Mas uma
empresa, se se vê falida, |
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À outra vende
aquilo em que apostou: |
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Em dinheiro
qualquer sonho resolve, |
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Que, se o
retém, a empresa se dissolve. |
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No mundo, ao
fim e ao cabo, que há de errado? |
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Quando nosso destino verdadeiro |
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Examino curioso e desvelado, |
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Descubro, na
incerteza do sendeiro, |
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Que se firma no
chão, de cada lado, |
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Cada dia mais
livre, mais ordeiro... |
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O derradeiro
erro, se aprofundo, |
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É o absurdo
total do que é o mundo. |
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Quem busca a
solidão nisto conjuga |
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Consigo o mundo
inteiro que abandona |
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Para se não
perder na eterna fuga |
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De quem lá se
procura numa zona |
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Em que tudo o
que encontra é o que subjuga. |
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Na multidão
ninguém vem nunca à tona, |
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O solitário é
quem descobre o veio: |
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Entre tudo e
ninguém, ocupa o meio. |
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A mulher tem ou
cabeleira de oiro |
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Ou cabeleira
negra cor da treva. |
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Tentação e
promessa de tesoiro, |
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A espera duma
luz que nos enleva, |
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Dos dois
fascínios é a mulher agoiro |
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Que eterna a
Humanidade no imo leva: |
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A fome de
riqueza uma resume, |
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A outra a do
saber que se comsume. |
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A que é que
sabe o pão que dia a dia |
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Ganham as mãos
anónimas que pões |
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A servir-te
hora a hora a fantasia? |
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Vai saber-te a
remorsos e sermões. |
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Só sabe bem o
pão que comeria |
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A boca que o
cozeu em seus fogões. |
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O pão que
melhor sabe é o pão dos grãos |
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Que dia a dia
ganham nossas mãos. |
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Deveras tudo
chega à capital |
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Mas tudo é na
província que se passa. |
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Aqui não há
relevo nem sinal, |
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Mas dramas que
em silêncio se ultrapassa, |
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Mistérios escondidos na actual |
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Palavra que as
catástrofes deslaça. |
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Aqui é que as
acções têm valor, |
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Na província é
que o público é senhor. |
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Entre o céu e a
terra onde há duelo |
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Não é nas
grandes urbes nevoentas |
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Mas onde o
vinhateiro faz apelo |
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Com mais vozes
agrárias fatais, lentas, |
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De tanoeiros a
marujos, elos |
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Se
estrangulando dentre as mãos cruentas: |
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Pois permanente
aqui se rasga o véu |
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Do desencontro
entre terra e céu. |
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Incerta vai
reinar a opinião, |
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Que de
incerteza o âmago lhe é feito, |
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E assim incerta
fica a duração |
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Em que sobre
nós reina, mal afeito, |
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O inseguro
tremor de seu pendão. |
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Nunca tende,
porém, a ter tal jeito |
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A opinião da
aldeia, criticável, |
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Pois, quando
opina, opina inabalável. |
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Como ave de
alto preço engaiolada |
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Que mimalha seu
preço desconhece, |
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Em provas de
amizade interessada |
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Em que cegada
crê, com que entorpece, |
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A ingénua
pequenez da namorada |
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Nunca vê quanto
ao fim é um interesse |
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Não dela que é
vendida e que é comprada, |
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Mas dum
contrato em que é mera jogada. |
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A miserável condição humana |
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Não é de ser
miséria preterida, |
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Nem da fome nem
guerra em que se engana, |
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Nem duma
epidemia sem saída, |
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Nem de ao vento
devir infiel cana |
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Que todo o rumo
aponta de fugida, |
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- Miserável é ter felicidade |
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E nem saber
sequer quanto é verdade. |
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Sendo a luz o
primeiro amor da vida, |
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Por ela pauto a
vida quando nasço; |
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Luz e trevas,
se dura, são medida |
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Do acerto e
desacerto do que faço |
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E até na morte
um túnel me convida |
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A o percorrer
da luz buscando o abraço. |
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Mas quando o
amor nos borbotar do chão, |
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Eis a primeira
luz do coração. |
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É do nobre
destino da mulher |
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Deixar-se
comover bem mais depressa |
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Da miséria por
marcas que tiver |
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Quando humilde
na via se atravessa |
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Do que pelo
esplendor que haja qualquer |
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Fortuna cuja
inveja se enalteça. |
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Do nada onde
uma vida breve aponta |
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É que a mulher
retira sua conta. |
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Um amor que um
amor é verdadeiro |
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Verdadeira retém a presciência |
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Da via que
conduz a amor inteiro, |
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Embora quase
nunca haja a evidência |
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Do que um
parceiro leva a seu parceiro |
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Nem jamais a
final disto ciência. |
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Amor que sabe a
amor, sabe o valor |
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E vale quanto
amor excita o amor. |
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Todo o poder
humano é um derivado |
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De duas linhas
de enredar a teia: |
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Uma o tempo
desnuda com cuidado |
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Por onde a
outra trepa a lenta ameia. |
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De ano em ano o
vigor do que é traçado |
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É pela
paciência que se alteia. |
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Paciência e
tempo é que o poder revelam: |
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Fortes são os
que querem e que velam. |
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O avarento ao
cordeiro engordará, |
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Metê-lo-á no
redil e depois mata-o, |
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Cozinha-o por
poupança mesmo lá, |
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Porventura até
come e nisto acata-o, |
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Mas despreza,
porém, quanto nele há. |
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É que a avareza
enreda-o, depois ata-o: |
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O avaro se
alimenta como alguém |
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Que dinheiro
digere mais desdém. |
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Da riqueza a
vantagem perigosa |
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É que destrói
nos luxos a igualdade. |
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Tem a miséria a
face de que goza |
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Quando iguais
nos revela e persuade. |
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Tem a mulher
dos anjos a formosa |
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Veia da
compaixão que sempre a invade, |
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Qual tesoiro
maior que qualquer cofre, |
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Quando na vida
topa alguém que sofre. |
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A vida moral
quer respiração |
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Senão morre por
falta do que aspira. |
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Qualquer alma
quer ter um coração |
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O qual por ela
sinta quanto a fira, |
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Absorva os
sentimentos, a emoção |
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Que noutrem
despertou e lhos retira |
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Para os
assimilar com tal perfil |
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Que em paga a
cada qual retribui mil. |
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Lisonja de
grande alma não dimana, |
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É apanágio de
espíritos mesquinhos |
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Que aos ventos
ainda vergam mais a cana |
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Do capitoso
eflúvio dos bons vinhos |
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Que em torno a
quem gravitam sempre emana, |
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Por muito que
divirjam os caminhos. |
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Lisonja oculta
sempre um interesse |
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Que bem pequeno
torna quem a tece. |
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Sem nada todos,
todos nós nascemos, |
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Considerando
que é uma desvantagem, |
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Já que inermes
a vida percorremos |
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Impreparados de
vez para a viagem |
|
E por mais que
aprendamos não sabemos |
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O que serve ou
não serve na triagem. |
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Porém, se nada
sou e nada sois, |
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É lucro o que
adquirimos nós depois. |
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Por entre
nossas perdas e vitórias |
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Podemos tirar
sempre nosso ganho |
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Se apenas não
buscamos fúteis glórias |
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Mas do saber e
ser tudo o que apanho. |
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Com efeito, a
melhor destas memórias |
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Não vem só do
combate em que me assanho, |
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É que há
vitórias de alma ao perder quando, |
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Mesmo perdendo,
aqui me vou ganhando. |
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Ao buscar a
falaz publicidade |
|
Obteremos os
ganhos do produto; |
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Ao inchar a
peitaça de vaidade, |
|
O namorado pode
colher fruto. |
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Tem um preço,
porém, esta ansiedade |
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Que não
compensa o ganho diminuto: |
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O que mata as
doninhas é o alarde |
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Que fazem delas
próprias, cedo ou tarde. |
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O que importa é
viver suficiente |
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Vida para rever
bem cuidadoso, |
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Examinando à vez, atentamente, |
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Numa segunda
volta, o que formoso |
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A mim me
apareceu quando presente, |
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De que, por
isso, indefectível gozo. |
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O inteiramente
certo a vez primeira |
|
Falha, se vivo
assaz, à derradeira. |
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Aceitar um
favor dum inimigo |
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Ou é
reconversão ou tanto faz, |
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Atendo a quando
enfim me desobrigo, |
|
Tudo o mais
abandono para trás. |
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Quando aceito
um favor, porém, de amigo |
|
Serão dois os
favores que ele traz: |
|
Primeiro, o que
ele faz ao meu apelo; |
|
Segundo, o que
lhe faço ao acolhê-lo. |
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Há quem se
modifique ao ver a luz, |
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Arrebatado no
êxtase da aurora. |
|
Outros, porém,
jamais isto os seduz, |
|
Pois é o frio
que os tolhe de ir-se embora: |
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É nestes que a
mudança se traduz |
|
Pelo calor que
sentem desde agora. |
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São a luz e o
calor o que convida |
|
Qualquer vida a
trepar pela subida. |
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O Criador nunca
teria feito |
|
Dias tão lindos
nem teria dado |
|
A sensibilidade
com tal jeito |
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De apreciá-los
bem por todo o lado |
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Se nos não
destinara a maior preito |
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Do que na curta
vida o que é prestado, |
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Se acaso não
houvera programado |
|
Para a
imortalidade nosso fado. |
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Riremos com
humor do inabitual |
|
E com humor
também do acto falhado, |
|
Do desigual
riremos quando igual |
|
Se puser do
diverso mesmo ao lado. |
|
No riso
pretendemos que se emale |
|
O nada que se
grande crê talhado. |
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Humor é rir
daquilo que não temos |
|
E libertar a
festa em quanto vemos. |
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Fugir dizem que
é muito saudável |
|
Embora algumas
vezes seja feio. |
|
Se a prudência
o comanda, é desejável, |
|
Mas prudente é
reter o justo meio, |
|
Ao excesso escapando condenável |
|
De ser a
marioneta do receio; |
|
Depois, é
quando a fuga tem lugar |
|
Que se está
mais sujeito a tropeçar. |
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|
Ninguém logra
viver de antanho a vida, |
|
Que de antanho
uma vida já passou |
|
E atrás a
caminhada é proibida, |
|
Só a memória
ali logra um sobrevoo. |
|
Repara adiante
até que além progrida |
|
Esta passada
incerta que és e sou. |
|
Olhai em frente
o que vos mostra a montra: |
|
Em frente olhai
onde o porvir se encontra. |
|
|
|
Se andarmos
construindo a vida a dois, |
|
Não podemos deixar interferir |
|
Os outros nos
ideais, porque depois |
|
Tais
influências vão-nos destruir. |
|
Os demais podem
ser os nossos sois |
|
De longe a
iluminar o que há-de vir, |
|
Se quem cavar
as hortas formos nós |
|
Do alvor desde
antes ao poente após. |
|
|
|
O que a
felicidade tem de mais |
|
Maravilhoso foi
que, mesmo quando |
|
Dela à procura
nem sequer andais, |
|
Ao vosso
encontro pode vir andando. |
|
Senão, como é
que então vos explicais |
|
Este petiz os
vossos pés mirando? |
|
“Que lindos!” -
encantado, ri o petiz. |
|
- E, sem mais,
cada qual fica feliz! |
|
|
|
Se dentro das
famílias as pessoas |
|
Não tiverem
descanso umas das mais, |
|
Em breve
deixarão de andar às boas, |
|
Enervam-se, de
guerra dão sinais. |
|
E os dias
depois só não arregoas |
|
Do arado das
discórdias se te vais |
|
Programar
consciente, em cada dia, |
|
Teu tempo de
estar só, sem companhia. |
|
|
|
Dormir sobre um
assunto, diz o povo |
|
Que ajuda a
resolver certos problemas, |
|
Sem descobrir
quanto me ali renovo, |
|
Desde a acalmia
a que sujeito os lemas, |
|
Efeito
primordial por que me movo, |
|
Até me
estruturar todos os temas: |
|
Se, quando
treino, eu ao sonhar me rendo, |
|
Durante os
sonhos é que mais aprendo. |
|
|
|
Se a vida não
te acerta na pintura, |
|
Que a jarra
nela posta não combina |
|
Com as
tonalidades que emoldura, |
|
Mistura alguma
com tais tons atina, |
|
Se pintor
queres ser, mas com finura, |
|
A quem pintar
tal vida te destina |
|
Pinta-lhe a
vida, sim mas troca a barra: |
|
- Pinta-lhe em
tom igual também a jarra! |
|
|
|
Depois de por
fim termos perdoado, |
|
Rimos a vida,
sentimento fundo, |
|
Aos outros cada
qual é mais ligado, |
|
Começa a
desbravar um outro mundo. |
|
O bom sentir
que então será gerado |
|
Vai recobrir
caminhos tão fecundo |
|
Que nos chega a
curar dos traumatismos, |
|
A borda nos
saltando dos abismos. |
|
|
|
Não julgues que
perdoar será esquecer: |
|
Não conseguimos
esquecer a dor |
|
E nem o
deveríamos sequer. |
|
As experiências
é que vão-nos pôr |
|
De prevenção
contra um algoz qualquer. |
|
Ser vítima de
novo é bem pior |
|
Que a vez
incauta em que primeiro foi |
|
E o que doeu
prevenirá o que doi. |
|
|
|
O perdão pode
bem exigir mais |
|
Do que por nós
teremos para dar, |
|
Tão pequeninos somos, desiguais |
|
Da ofensa ante
os tamanhos e o lugar. |
|
É preciso rumar
aos arraiais |
|
Onde a pegada
humana não tem par. |
|
Errar é humano,
eis o fatal destino, |
|
Mas perdoar,
perdoar é divino. |
|
|
|
Pessoas perdoadas podem nunca |
|
Compreender que
nos fizeram mal |
|
Ferindo-nos de
esquiva garra adunca. |
|
As marcas que
nos deixam, cada qual |
|
Poderá renegar,
que o chão se junca |
|
De cicatrizes
mil, rede banal. |
|
Poderão nem
saber que as perdoámos, |
|
Da raiva,
porém, nós nos libertámos. |
|
|
|
Quero vingança
e à vingança o preito |
|
Ando a prestar
solene. E, na verdade, |
|
A vingança não
deixa satisfeito |
|
Quanto deixa o
perdão que persuade. |
|
Pois perdoar
jamais quer a um suspeito |
|
Ceder, mas o
apagar que nos agrade. |
|
Quando perdoo,
eu quebrei grilhões: |
|
De quem me
maltratou fujo às prisões. |
|
|
|
O perdão livra
mais dum pesadelo |
|
Em que outrem
para nós se transformou |
|
Que as raivas
incontidas o atropelo |
|
Dos gestos me
provocam em que sou. |
|
O perdão nos
acorda para o apelo |
|
Das caminhadas
mil em largo voo, |
|
Em que da raiva
o inferno inteiro passa |
|
Pondo-nos em
estado nós de graça. |
|
|
|
Se o perdão de
alguém faz sentir tão bem |
|
Por que será
que tantos dão consigo |
|
A arrastar
ressentida a vida além? |
|
Será porque a
impotência não consigo |
|
Compensar
quando me magoa alguém, |
|
Senão se à
fúria em mim lhe der abrigo? |
|
Só que o perdão
incute a sensação |
|
Maior que do
poder os dias dão. |
|
|
|
Quando a alguém
eu perdoo, recupero |
|
O meu poder de
escolha já perdido. |
|
A raiva me
mantém por prisioneiro |
|
De quem para
mim quis ser um bandido. |
|
E, se nenhum
perdão merece, quero |
|
Para mim o
direito preterido. |
|
Pouco importa a
injustiça que sofremos, |
|
Se conta que
ser livres merecemos. |
|
|
|
Quem crer que
perdoar é a confissão |
|
De que o
perdoador andava errado, |
|
De que afinal é
justa a punição |
|
Que a vítima
atirara para o lado, |
|
Engana-se, que
não livra o perdão |
|
Quenquer que
haja ofendido ou mal andado: |
|
Perdoar é
arrancarmos o punhal |
|
Que nos cravou
nos pés o marginal. |
|
|
|
Muitas vezes
aquele que magoa |
|
Nem dá conta da
mágoa que provoca, |
|
Não importa
esperar que se condoa |
|
Por nos roubar
de vez o pão da boca. |
|
É o perdão que
me dá uma trilha boa |
|
Do mal ao
libertar-me que me toca. |
|
Senão, enquanto
sofro na amargura, |
|
Nada sente,
ignorante, quem tortura. |
|
|
|
O passado nos
fere ao revivermos |
|
As cicatrizes
que ele nos causou. |
|
O corpo então
nos mata, dado sermos |
|
Sempre este
corpo de alma que incarnou. |
|
Um simples
recordar de quanto houvermos |
|
Sofrido, o
coração que se magoou |
|
Magoa-se lá
então a vez segunda, |
|
Na morte, lento
e lento, ali se afunda. |
|
|
|
Alguns não
poderão nunca atingir |
|
O estádio
derradeiro do perdão. |
|
Mas o bem como
importa prevenir, |
|
Que nem uma
migalha caia ao chão, |
|
Todo o perdão
importa descobrir |
|
Que desde o
mais pequeno já é bom. |
|
O perdão é tão
bom que já faz bem, |
|
Perdoe embora parcialmente alguém. |
|
|
|
Será o
ressentimento que é menor |
|
Que nos vai
fornecer campo de treino |
|
Para as forças
treinar de o sobrepor |
|
E apertar
quanto em nós estiver leino. |
|
Perdoar o
pequeno tem valor |
|
De nos
introduzir no novo reino: |
|
Quem perdoa o
menor, perdão suave, |
|
Aqui treina o
perdão da ofensa grave. |
|
|
|
Se no vale de
lágrimas vivemos, |
|
A linha de água
que por ele corre |
|
São dias a
chorar que entretecemos, |
|
Até que a vida
exausta enfim nos morre. |
|
As lágrimas em
nós são voz dos demos, |
|
Suor do inferno
que na Terra escorre. |
|
O tempo a rir
passado é o tempo ideal, |
|
Já que é tempo
de céu, é deus no vale. |
|
|
|
Se alguém ama
em verdade, a tabuleta |
|
À porta com o
signo “amor” não põe, |
|
Como ante o
mundo quem cumpre a etiqueta. |
|
Se alguém der
de verdade não se expõe |
|
No termo
“caridade” como a meta |
|
Pública duma
paga que propõe. |
|
Quando vir tais
palavras descaradas, |
|
Apenas cobrem
os ladrões de estradas. |
|
|
|
Nem fúrias nem
frequências duma briga |
|
Provocam a
ruptura a um casamento. |
|
O modo como
cada qual se obriga |
|
À diferença a
dar o atendimento |
|
É que aos
casais retira ou dá fadiga. |
|
Quatro passos
darão o finamento: |
|
A crítica ao
parceiro e após desprezo; |
|
A defensiva e a
fuga enquanto ileso. |
|
|
|
Uma pequena crítica ignorada |
|
Transforma-se
na raiva e, de seguida, |
|
No desprezo: a
pessoa mal-amada |
|
Contra o
parceiro joga, enraivecida. |
|
Este, na
defensiva da jogada, |
|
Fecha-lhe as
portas a qualquer guarida. |
|
Tais passos, de
acrescento em acrescento, |
|
Provocam, no
final, o afastamento. |
|
|
|
Encoraja a
família a rapariga |
|
A que exprima a
emoção bem francamente, |
|
Enquanto dum
rapaz quer que prossiga |
|
Aguentando
calado e vindo em frente. |
|
O sistema
nervoso ao homem liga |
|
Mais
sensibilidade que ele mente. |
|
Do lar na briga
sofrem mais pressão |
|
Os homens do
que as moças sofrerão. |
|
|
|
As brigas os
casais interromper |
|
Deveriam o
tempo de acalmar, |
|
Deixar de a si
deviam de atender |
|
Para ao sentir
doutrem manter lugar. |
|
E para nunca
mais haver sequer |
|
A perda do que
aqui se conquistar |
|
Deviam praticar esta receita |
|
Até que a vida
a ela fique afeita. |
|
|
|
Recordar-nos-ão
sempre os pessimistas |
|
Que os lírios à
família-mor pertencem |
|
Das cebolas que
às lágrimas malquistas |
|
Os mais
inveterados já convencem. |
|
Ao contrário,
porém, os optimistas |
|
Lembrarão que
as cebolas que nos vencem |
|
Na família dos
lírios bem se integram |
|
E os lírios é
que a nós nos ao fim regram. |
|
|
|
Um parvo em
posição muito elevada |
|
É como um homem
em cimeira torre: |
|
Tudo parece-lhe
pequeno, um nada, |
|
Enquanto a toda
a gente que lá corre |
|
Ele é que mal
se vê, cisco de nada. |
|
E quando do
balofo cimo escorre |
|
A palavra ou a
lei de tal vanglória |
|
Todos sentimos
que o que chove é escória. |
|
|
|
Aquele só que
em vãos divertimentos |
|
A vida ocupa
sem jamais cuidar |
|
Dos meios de
viver, dos mantimentos, |
|
Por muito que
fizer isto durar, |
|
Por múltiplos,
certeiros seus intentos, |
|
Quando
indigente houver de se topar |
|
Recusa encontrará do prevenido, |
|
Por ao porvir
não ter prestado ouvido. |
|
|
|
Sempre a
lisonja, estulto, do interesse |
|
É filha, que o
viver do lisonjeiro |
|
De quem
adulações preza se tece, |
|
Come-lhe o
queijo e a fama que primeiro |
|
Louvou e que,
abonada, logo esquece. |
|
É quem na
adulação for pioneiro |
|
Que pioneiro
muda de casaca: |
|
Nas costas de
quem suga espeta a faca. |
|
|
|
É sempre que em
grandeza pede meças |
|
O pobre ao
potentado que acontece |
|
Que esquece de
que peças são as peças |
|
De que é feita
a vaidade que entontece. |
|
À medida que
ele incha com as pressas |
|
A simular
grandeza que não tece |
|
O peito lhe
transborda em modo tal |
|
Que explode
feito bomba em carnaval. |
|
|
|
Os cumes nos
atraem como um fado |
|
E o cimeiro
lugar é apetecido, |
|
Tal se da final
prova fora o dado, |
|
No pedestal
erguera o herói subido. |
|
Contudo, o
viver dita que, ignorado, |
|
O pobre,
humilde, escapa de esquecido |
|
E aquele que
mais mora levantado |
|
Mais arrisca na
queda, se tombado. |
|
|
|
Há quem a
sujeição aguente ledo |
|
Em troca duma
vida de favores, |
|
Jura e trai a
lição de qualquer credo, |
|
Não tem
fidelidades nem amores. |
|
Porém, homem a
sério desde cedo |
|
Às cadeias não
cede dos credores: |
|
Antes mísero e
pobre em liberdade |
|
Que em prisões
rico de que não se evade. |
|
|
|
Quem com os
poderosos fez tratado |
|
Ou é tão
poderoso como os mais, |
|
Ou breve tem o
trato desmanchado |
|
Ou destruído
foi com muitos mais. |
|
Porque, sem
garantia, o combinado |
|
Apenas de quem
tem dará sinais. |
|
Quem com os
poderosos tem contrato |
|
Mui raro colhe
frutos de tal acto. |
|
|
|
Das dobras do
destino uma é fatal, |
|
A de quanto
pesamos como bem, |
|
Que o nosso
peso jamais fica igual |
|
Quando alguém
requerer pesar também |
|
O que nos foi
pesado como mal, |
|
Pois mais nos
pesa o que nos mais convém: |
|
Fácil cremos no
bem que mal ouvimos |
|
E no que é mal,
nem quando à frente o vimos! |
|
|
|
A grandeza buscada insanamente |
|
Quantas vezes
traiu quem a adorou! |
|
De inquietações
pejada, o que consente |
|
É o flagelo de
quem sacrificou, |
|
De enganos
combatido, e que, demente, |
|
Mentido vê na
espera qualquer voo. |
|
Em paz, calado,
o que afinal mais goza |
|
É o que viu que
a humildade é mais ditosa. |
|
|
|
Para honrar
seus crimes, prepotente, |
|
Sempre o sagaz
buscou clara aliança |
|
Com a razão,
por base bem assente |
|
Para encobrir o
mal de quanto alcança. |
|
Assim é que a
razão à razão mente, |
|
Pois que a
razão na má razão descansa. |
|
Então o maior
crime é o que consente |
|
De razão se
encobrir só aparente. |
|
|
|
Quando um
ladrão com um ladrão à briga |
|
Ambos disputam ladravaz destino, |
|
Sempre um
terceiro atento os desobriga, |
|
Das mãos lhes
desviando, noutro tino, |
|
Da ladroagem
furtos e os castiga |
|
Sem nada lhes
deixando o desatino. |
|
Assim, quando
nas guerras se disputam, |
|
Perdem os povos
quanto por que lutam. |
|
|
|
O poeta e o
sábio são os filhos |
|
Que do céu para
a terra vêm descendo |
|
E nos atam
suaves os cadilhos |
|
Que de lá nos
atraem, ascendendo, |
|
Desvelando da
altura os breves trilhos. |
|
Quem os ignora,
a si não entendendo, |
|
Se os céus ao
mesmo tempo menoscaba, |
|
Será consigo
próprio que ele acaba. |
|
|
|
As raparigas
nos atraem belas |
|
E por mais que
o machismo predomine |
|
É nelas que se
encontram as janelas |
|
Onde a vida
fiel mais se define. |
|
E do poder dos
homens as sequelas |
|
Serão que
quando um deles não atine |
|
É que à vontade
duma se adivinha |
|
Que verga e não
à dele que antes tinha. |
|
|
|
Se de vez a
razão fizera a lei |
|
E a justiça
fizera de equidade, |
|
Acabava a
trapaça cuja grei |
|
Prolifera, ao arbítrio, falsidade. |
|
Assim é que os
que julgam saberei |
|
Se operam na
viril legalidade |
|
Ou se a lei ao
capricho torceriam |
|
Dos que maior
empenho pagariam. |
|
|
|
A pérola
tombada no poder |
|
De quem o valor
dela não veria |
|
Desprezada por
certo ela há-de ser, |
|
Que ao néscio
não lhe sobra fantasia. |
|
Preterida por
ciscos, em qualquer |
|
Momento pela
vaza se perdia. |
|
Morre às mãos
do ignorante o alto valor |
|
Das descobertas
sábias dum autor. |
|
|
|
Antes ser a
dobrável cana ao vento |
|
Que ao tufão se
modela de alto a baixo, |
|
Deste modo
resiste ao turbulento |
|
Meio que os
demais muda em escalracho, |
|
Do que ser dum
carvalho este portento |
|
A resistir
erecto como um facho |
|
Mas que quebra
da vida nas procelas |
|
Enquanto o
pobre escapa por entre elas. |
|
|
|
Os apertos da
vida são por vezes |
|
De modo que as
mezinhas que se encontra |
|
Piores são que
o mal e seus reveses. |
|
São mil
receitas que se expõe na montra, |
|
Projectos desde
os finos aos soezes, |
|
Quer da gente
de bem, quer do bilontra. |
|
Tudo pode
entreter uma assembleia, |
|
Que só o que é
praticado é que urde a teia. |
|
|
|
O problema
insolúvel do juiz |
|
É de ver o
inocente inocentado |
|
E de nunca
punir, nem por um triz, |
|
Quem a prova
não tenha de culpado. |
|
E muito
criminoso, de feliz, |
|
Por esperto se
ter escamoteado, |
|
A vitimar, impune, continua |
|
Porque o juiz
sempre o porá na rua. |
|
|
|
Nas batalhas
cruéis dos potentados |
|
A tragédia
maior não é das percas |
|
Nos teres que
vão sendo estraçalhados |
|
Quando lhes
caem do direito as cercas. |
|
Mais cruel é
que vão ser esmagados |
|
Os que nada te
dão de quanto mercas, |
|
Os pequenos:
por nunca terem nada |
|
São a terra do
chão sempre esmagada. |
|
|
|
Quantos na dor
desejam mais a morte |
|
Que, perante
esta morte desejada, |
|
Preferem,
afinal, a triste sorte |
|
Que a vida lhes
mantém acorrentada! |
|
É do mortal a
sina fazer corte, |
|
Não à morte
fatal predestinada |
|
Mas ao instinto
que os viventes quer |
|
Que vivam a
penar até morrer. |
|
|
|
Virão as
soluções sempre do amor |
|
Em cujas
guerras quem for adestrado |
|
Verá que mata e
morre bem melhor |
|
Do que o
exército mais bem armado. |
|
O que a
desgraça faz que em nós demore |
|
É meio mundo
haver armas gizado |
|
Que a uma
metade entrega que, aguerrida, |
|
Outra metade
delas tem ferida. |
|
|
|
Sempre abusa o
preverso da bondade |
|
E se lhe
abrimos franco o coração |
|
Não mais larga
o que a só necessidade |
|
Nos levou a
emprestar-lhe sem questão. |
|
O bem que aos
maus fazemos, na verdade, |
|
Quase sempre o
deplora o ingénuo em vão. |
|
Em casa mete a
gente a toda a hora |
|
Quem às vezes
nos expulsa dela fora. |
|
|
|
Quando o grande
se finca ao pedestal, |
|
Do tamanho é
por norma tão temido |
|
Que apenas
afrontado por igual |
|
O cremos
porventura ser vencido. |
|
Um mosquito,
porém, dá-nos sinal |
|
Que um homem da
picada é combalido: |
|
Às vezes é,
portanto, o mais pequeno |
|
Do maior mal o
mais subtil terreno. |
|
|
|
Muitas vezes,
pequenos, a vitória |
|
Nos sorriu e
trepou pela cabeça |
|
De modo que,
tamanhos na vanglória, |
|
Não há grandeza
igual à que nos meça! |
|
Enquanto apregoamos a memória |
|
Da coragem
gabada em cada peça, |
|
Uma frágil,
fugaz teia de aranha |
|
De insecto a
pequenez nos logo apanha. |
|
|
|
Solitário
guiar-me é atrevimento, |
|
Por outrem me
guiar, alienação. |
|
Onde encontrar
então o fundamento |
|
De ser eu com
os mais sem confusão? |
|
Entre os mais
procurar meu alimento, |
|
Da escolha não
me exclui da conclusão: |
|
Por más cabeças
guiar-me me embaraça, |
|
Que a boa sorte
dum, a cem desgraça. |
|
|
|
Nós somos esta
raça de insofridos, |
|
Pelo tempo
incapazes de esperar, |
|
A temer a
ameaça dos olvidos |
|
Se o porvir
vier muito devagar. |
|
São, porém, os
trabalhos repetidos |
|
Em que só
paciência tem lugar |
|
Que fazem mais
que a força, que a imprudência, |
|
Pois a fúria a
ninguém dá competência. |
|
|
|
De boca aberta
fica a Humanidade, |
|
Pobre glutona
que tardia vê |
|
Que só deve
contar, na inanidade, |
|
Com o que tem à
mão ou mora ao pé. |
|
Vendo que a
gratidão tantos invade, |
|
Então o mais
viável por fim é |
|
Que o fazer bem
não se perdeu no mundo: |
|
As mais das
vezes frutos deu, fecundo. |
|
|
|
O mais medroso
dos medrosos há-de |
|
Um mais medroso
ver onde nem pensa, |
|
Quando a um
qualquer o medo o persuade |
|
A escondê-lo,
canino, na despensa. |
|
Assim é que a
desdita que o invade |
|
Ao desespero o
não talvez convença, |
|
Que do que ele
outro bem mais infeliz |
|
No mundo há-de
encontrar sem alibis. |
|
|
|
Normal é que o
matreiro fique a rir |
|
Quando o
tratante vê fugir com medo, |
|
De orelha
baixa, rubra, a lhe fremir. |
|
Que prazer
quando o vemos com o credo, |
|
De enganador
feito enganado a ir |
|
Desmascarado e
nu, mais tarde ou cedo, |
|
Tornada a
tentativa toda vã, |
|
Bem tosquiado
quando vinha à lã! |
|
|
|
Quando um homem
entrar por uma empresa, |
|
Por muito que o
sonhar bem lho comande, |
|
É bom que as
forças pese do que pesa |
|
Antes que em
frente qualquer passo ande. |
|
Não basta o
sonho a garantir a presa, |
|
Nem quando em
mim deixar que ele me mande. |
|
Da natureza e
da cultura os modos |
|
Implicam que
nem tudo é para todos. |
|
|
|
Jamais um
invejoso quer a troca |
|
Do que tem
contra aquilo que teria |
|
Se ter lograra
o que lhe a inveja evoca |
|
E por que nutre
estrénua idolatria. |
|
O nosso
instinto o que cruel provoca |
|
É de invejar o
que outrem possuía |
|
Para apenas,
porém, nos alargarmos |
|
- Mas sem
jamais o que é nosso largarmos! |
|
|
|
Um homem não
consegue corrigir |
|
A mulher que
por génio seja má, |
|
Porque somente
a cova há-de o devir |
|
Mudar às
propensões que o berço dá. |
|
A novidade, a
aposta em descobrir |
|
Serão véu que
aos defeitos cobrirá. |
|
Só que
avultarão estes e enfastiam |
|
Quando saturar
já o que prometiam. |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Enganador que,
de intenção nociva, |
|
Proveito doutrem pretender tirar, |
|
Tramas com
tramas, numa roda viva, |
|
A vida
logo forçará a pagar. |
|
Quase sempre os
que iludem à deriva |
|
São iludidos em
qualquer lugar. |
|
Pois nunca aos
outros faça então ninguém |
|
O que não quer
que a si façam também. |
|
|
|
Daquele estado
em que hoje enfim vivemos |
|
Jamais os
homens conformados são, |
|
Pois mais falta
nos faz o que não temos |
|
Que o que temos
domado aqui à mão. |
|
Acontece,
porém, quando o perdemos |
|
Que o
buscaremos com fervor então, |
|
Só na ausência
descobre-se em lamento |
|
O peso que
“hoje” tem quando o invento. |
|
|
|
É dos
mexeriqueiros sempre insanos |
|
Que quem casa
tiver tem de ter medo, |
|
Que a tragédia
dos lares, levianos, |
|
Acabarão
tramando, tarde ou cedo. |
|
Com pés de lã
se metem nos arcanos, |
|
Trazem e levam,
apontando a dedo, |
|
E os que às
intrigas vierem a dar peso |
|
Sentem ao fim
que nada fica ileso. |
|
|
|
Quando os
vícios por dentro se inveteram |
|
Tornam-se males
que não têm cura, |
|
Agora e sempre
vivos reiteram |
|
Contra a
vontade embora que os atura |
|
E nem as
sepulturas recuperam |
|
As marcas que
gravou sua figura. |
|
Os vícios pior
são que causar danos, |
|
Pois que aos
covais arrastam os humanos. |
|
|
|
Quantas vezes
nos vem dos benefícios |
|
Que damos aos
malévolos um dia |
|
Uma trama tão
vil de sacrifícios |
|
Que de tal cada
qual se arrependia! |
|
Os frutos que
tiramos, malefícios |
|
Sobre nós são
que caem numa orgia. |
|
O bem feito ao
malévolo é um invento |
|
Com que se
inventa um arrependimento. |
|
|
|
Ao inimigo raro
alguém o pinta |
|
Com alguma
faceta de favor. |
|
E ao contrário
é vulgar que então se minta |
|
Sobre o que é
nosso com falaz louvor. |
|
Assim é que a
verdade não consinta |
|
Revelar qual ao
fim o seu teor. |
|
Então vivemos todos enganados, |
|
Do grupo e não
de nós só comandados. |
|
|
|
É quando do
poder o poderoso |
|
Decai que
antigamente lhe coubera, |
|
Que ele há-de
suportar o doloroso |
|
Preço do que
antes foi uma quimera. |
|
Em dor se vai
mudar o antigo gozo |
|
E só se bem
serviu é boa a espera. |
|
Doutra maneira
conte que o mais vil |
|
Há-de
afrontá-lo quanto foi servil. |
|
|
|
A muitos o que
ocorre no labor |
|
E mais
ocupações do dia a dia |
|
É que engordar
pretendem dum teor |
|
Que, para além
de ser em demasia, |
|
Lhes inflará um
perfil tanto maior |
|
Que não resta
buraco nem fasquia |
|
Por onde no
ajustar das contas vão |
|
Poder safar nem
bens nem coração. |
|
|
|
Há muitos que
perseguem altos planos, |
|
Que por
grandiosas metas já se empenham, |
|
Que sôfregos
mais são que são humanos |
|
À espera de que
os frutos sobrevenham. |
|
Porém depois,
com o correr dos anos, |
|
De tudo aquilo
já afinal desdenham |
|
Não por perder
valor, como referem, |
|
Mas porque o
fruto ao fim lho não conferem. |
|
|
|
Contra a
desgraça meu melhor escudo |
|
É prevenir-me
bem, desconfiando |
|
Com justa
desconfiança sobre tudo |
|
Quanto na vida
for peso tomando. |
|
Raras vezes se
engana e por miúdo |
|
Quem com um pé
atrás vai avançando. |
|
Seguro do
terreno por que pisa |
|
Corre-lhe a
vida como quem desliza. |
|
|
|
A ingénua, cega
e vil credulidade |
|
A intérminas
desgraças nos conduz. |
|
Porém, uma
paixão, maior deidade, |
|
Maiores danos afinal produz. |
|
O férvido
apetite é que nos há-de, |
|
No culto da
paixão que nos induz, |
|
Levar a
precipícios mal temidos, |
|
Se somente ao
amor damos ouvidos. |
|
|
|
Quando um burro
quiser passar por cão |
|
Põe-se a ladrar
em vez de andar zurrando |
|
E desconhece-se
a partir de então. |
|
Importa
conhecer-nos sempre quando |
|
A um projecto
queremos lançar mão: |
|
Sou leviano
quando me comando |
|
A ultrapassar
limites numa empresa |
|
Que fica para
além da natureza. |
|
|
|
É o homem ao
sobreiro comparado |
|
Que as bolotas
apenas nos entrega |
|
Quando valentemente varejado. |
|
A quem se
prestam honras não se agrega |
|
Senão casca de
inútil enfatuado. |
|
Só o rigor e a
violência nele adrega, |
|
Agora e sempre
e em qualquer lugar, |
|
A força de ser
útil despertar. |
|
|
|
Aquele que do
alheio se vestir, |
|
Mesmo em
privado, em breve irá na praça |
|
Ter
vergonhosamente que o despir. |
|
Despi-lo-á
também quem rouba a traça |
|
Do tamanho
pequeno que auferir, |
|
Mentindo dum
maior a etérea graça. |
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Cultura e
natureza dão lição |
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Aos que parecer
querem mais que são. |
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O mal que fazer
quer com um embuste |
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Sobre o
embusteiro tarde ou cedo cai. |
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As tramas quase
sempre que ele ajuste |
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Se ajustam às
passadas em que vai |
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E o mal que não
pensou que bem lhe custe |
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A volta acaba
dando com que o trai. |
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Mil vezes a
perfídia com rigor |
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Tomba violenta
sobre o seu autor. |
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Há muito quem,
pela vulgar vingança, |
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Néscia prole
que advém da fatuidade, |
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Se prive do que
após jamais se alcança, |
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Do usufruto da
frágil liberdade. |
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Por isso é que
a prudência que não cansa |
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Ignorar uma
ofensa impor-nos há-de |
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Toda a vez que
o furor de nos vingarmos |
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Abismos cave
até de nos matarmos. |
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Nas ameaças de
quem muito ama |
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Manda a
prudência que se creia pouco. |
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Quem nelas crer
em breve tem a fama |
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De ser um
crédulo não tarda louco. |
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É que o amor
sempre de quem desama |
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Ao desamor fará
um ouvido mouco, |
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Impõe ao fim o
rumo que condiga |
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Com os metais
do amor na melhor liga. |
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De varas quando
um feixe fica unido, |
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Vantagem que
nos traz uma união, |
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Não há força
que o tenha já partido, |
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Ao contrário de
soltos quando são. |
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O forte, quando
vive desunido, |
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As mãos mais
frágeis fim lhe encontrarão. |
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Aos baldões da
injustiça que há na sorte |
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Só escapa quem
se unir até à morte. |
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Quase sempre
aos mortais a segurança |
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À liberdade
serve de guarida, |
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Embora importe
ver o que ela alcança |
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Porque terá de
ser bem comedida. |
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Quem no seguro
apenas se descansa, |
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Não tarda só a
prisão tem por medida. |
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Segura, não é
vã desconfiança |
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A que a vida
mil vezes nos entrança. |
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Bem raro, se
calhar em extinção, |
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É o dum amigo a
sério, verdadeiro, |
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Com que contar
se pode sempre à mão, |
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Gratuito a dar,
jamais interesseiro. |
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Nome sagrado
não há tanto em vão |
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Que mais se
invoque pelo ano inteiro. |
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Não há uma casa
que, por mais pequena, |
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Alguma vez vá
ficar deles plena. |
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Irá ser quase
sempre uma amizade |
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A espúria filha
vil dum interesse. |
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Quando se lhe
procura a identidade, |
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Logo esta
identidade lhe falece. |
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Pendente do que
lucra, na verdade, |
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O nome de
amizade logo esquece |
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Quando se lhe
acabar a dependência |
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E resta da
amizade uma falência. |
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Quando um ímpio
extático ficou |
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Por receber em
mal do mal a paga, |
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De intuito ele
deveras não mudou |
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Porque do mal
as obras são que afaga. |
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O mau do mau
agir só se deixou |
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Quando de algum
terror o inunda a vaga |
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Ou se os olhos
lhe fecha eternamente |
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A justiceira morte, finalmente. |
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Se alguém
quiser vencer uma demanda, |
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Se uma tarefa
quer levar a termo, |
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Não pode
repousar em quanto manda, |
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Que um membro
que é mandado é membro enfermo: |
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A si próprio,
se quer, é que comanda |
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As fúrias a
vencer em qualquer ermo. |
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Quem quer vai,
diz o sábio popular, |
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Quem não quer
manda e então não muda de ar. |
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Quando um
ricaço for um avarento |
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De nada lhe
valeu ter tanto oiro, |
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Que não lhe
diminui o sofrimento |
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O que lhe
aumenta as arcas do tesoiro. |
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Igual ao pobre
será seu lamento, |
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Traz-lhe a
fortuna apenas mais desdoiro. |
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É quem não quer
tal como quem não pode, |
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Não goza a
sorte a que a fortuna acode. |
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É de antes
preferir um “toma lá!” |
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Que dois
“eu-te-vou-dar-em-qualquer-dia”. |
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Seguro do
seguro sempre está |
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Quem o mantém à
mão tente e com guia. |
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Da sorte cada
qual se queixará |
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Se pretender
viver da fantasia. |
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É tolo quem
deixar o duvidoso |
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Ao certo
ultrapassar que lhe dá gozo. |
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Vaidoso, se
teus fumos foram menos, |
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A vida alcançarias venturosa. |
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Descobre que
teus membros são pequenos, |
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Descansa e, do
que a vida te deu, goza. |
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Pois sempre que
supomos de somenos |
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Nossa vida
afinal tão prestimosa, |
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Supondo ter o
que jamais teremos, |
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Só do engano os
incómodos sofremos. |
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Quem um delito
cometeu gravoso |
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Um ferrete
danoso nele imprime |
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Tal que
parceiros busca pressuroso |
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Que na fronte
demonstrem ter tal crime. |
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A si mentindo
crê que o vergonhoso |
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Deixa de o ser
quando os demais encime. |
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Mancha de crime
desde então não conta, |
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Tão usual que
já ninguém afronta. |
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Aquele que
melhor vir é por ver |
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No campo onde
andará mais empenhado. |
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Nada os olhares
doutrem vão sequer |
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Pressentir, se
são olhos dum criado. |
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Não é do mau
empenho que ele houver, |
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Apenas dum
sentir que é desviado. |
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Só quando for
profundo um interesse |
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Profundamente as vistas esclarece. |
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Carniceiro, ervanário, vendedor, |
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Por tudo quis
passar sem estudar, |
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Sem nunca à
altura certa se propor. |
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É sempre esta a
toleima, se calhar, |
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De certa
humanidade sem valor. |
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O prémio que
ela acaba por ganhar, |
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Vem de que cada
qual, afinal, faz-se |
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No contexto de
ser para o que nasce. |
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Quem seus
campos de muito revolver |
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Em busca de
hipotético tesoiro |
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Ignora o
cultivar e o recolher |
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Trocou-se no
teor de qual o oiro. |
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Se desvendá-lo
pretender quenquer |
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Vai na seara
apostar de trigo loiro, |
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Porque no mundo
aquilo que ao fim valho |
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É aquilo que
valer o meu trabalho. |
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Quando a
montanha nos promete a vida |
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E partureja, em
pleno aturdimento, |
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Barregando tal
vaca mal parida, |
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Um reles
musaranho em fingimento |
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Da plenitude apenas prometida, |
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Repetimos o
eterno e vão lamento |
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De todos que de
tudo o que prometem |
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O nada que nós
somos nos cometem. |
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Se aos danos
sucumbir quem quer perigo, |
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Muito invulgar
é desculpar-se logo |
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Com o destino
falso que, inimigo, |
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Aos passos lhe
ateou infausto fogo: |
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Pelo contrário,
nunca busca abrigo, |
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Teimando vida
além no próprio jogo. |
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Na vida a maior
parte dos reveses |
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De má escolha
são fruto o mais das vezes. |
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Sempre o
fingido anda arriscado a ser |
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Por um descuido
descoberto logo |
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E punido do
dolo que tiver. |
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Cansa-se em vão
quem pretender o jogo |
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De encobrir o
perfil ante quenquer, |
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Que, mais tarde
ou mais cedo, o que lhe advogo |
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É que, quando
ele menos o sentir, |
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Lhe há-de a
máscara aos pés de vez cair. |
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Com remédios ou
sem, nós findaremos, |
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Que a morte a
todos toca por igual, |
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Só que em maior
desgraça viveremos |
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Se for
“tanto-pior!” nosso fanal. |
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Doentes, à saúde propendemos |
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Sem de mais nós
mudarmos o sinal, |
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Se num
“tanto-melhor!” nós apostarmos |
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Que opera de
alavanca de arribarmos. |
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Muitas vezes o
avaro foi quem mata |
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Dos ovos de
oiro o galináceo mago |
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Sempre que de
ambição tanto o maltrata |
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Que à morte o
leva em derradeiro pago. |
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Mais estranho é
que fica-lhe barata |
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A fonte que
afinal destrói dum trago. |
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Depois jamais
encontra tal condão |
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E assim paga de
vez sua ambição. |
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Aquele que
destrói o seu amparo, |
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Que a vida
assim coloca a descoberto, |
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Sem abrigo
morrer não será raro, |
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Paga justa de
tanto desconcerto. |
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Quem à roda em
que gira parte um aro |
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Espere baquear
logo mais perto. |
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Quem profanar o
asilo que o conserva |
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Apenas tem a
morte de reserva. |