Do Sonho – Quadras
Quase
Ser livre é ser responsável
De tudo quanto fizer:
É quase Deus confiável
Em tudo a transparecer.
Visar
Ao tomar posse de mim,
Adiante,
Poderei visar, por fim,
A estrela mais distante.
Pedaço
O homem, do Infinito na estrada,
É, por engano,
Um pedaço de nada
Humano.
Quero-o
O Infinito quero-o ao vivo
Mas ele vem devagar.
Quão mais alto o objectivo,
Mais alto o preço a pagar.
Lindos
Todos somos lírios-do-bosque
Tão lindos, tão frágeis,
Até que à esperança cada um nos enrosque
Dos sonhos mais inacreditáveis.
Livrarias
Livrarias muito exíguas
Abrem portas e janelas
Pelas lombadas ambíguas
A caminho das estrelas.
Larga
Larga lá o palavreado
E vem! Que o Infindo lembre
O pouco tempo apostado
De estar juntos para sempre.
Lançar
Soltei o meu papagaio
Que pelo ar fora correu.
Foi meu infantil ensaio
De me lançar pelo céu.
Recomeça
O amor é assim
Esquisito:
Ao chegar a casa, do dia ao fim,
Começa o Infinito.
Domesticar
A domesticar o sonho
Somos todos muito bons:
Botão mínimo lhe aponho,
Murcham da esperança os tons.
Sonho
Eu bem queria sonhar
Mas o sonho que persigo
Quer alguém, comigo a par,
O sonho a sonhar comigo.
Voar
Como eu queria ser fada,
A voar por sobre o mundo,
Todos a arrancar da estrada,
Céu dentro em cortejo fundo!
Chegar
Não vais deixar de sonhar?
Não cuides que é destrambelho.
É que, para principiar,
Nunca irás chegar a velho.
Sonho
O sonho é o que prende ao chão
Para nos fazer voar,
Senão era uma ilusão,
Nunca a mim ia chegar.
Êspertos
Os espertos é que mudam,
Os palermas é que não.
Uns ao Infinito grudam,
Os mais grudam ao caixão.
Preciso
Eu preciso do silêncio
Para me escutar a mim?
Esta escuta ao fim convence-o
Do Infindo que espreita ao Fim.
Infindo
Sou muito mais quem não sou
Que, enfim, o que sou serei:
O Infindo além me arpoou;
Germe aqui, mal germinei.
Ameia-me
Não quero a vida normal,
Quero a que parece eterna.
Transparece no banal,
Ameia-me e tem-me à perna!
Carreia
Há muito envelhecimento
Que carreia juventude,
Espalha vida em fermento,
Sonho que já não ilude.
Poema
Preciso de ver quem amo
Como o poema perfeito.
Aí então eu proclamo:
Tenho o Infinito a jeito!
Sonhar
Há quem sonhe a vida toda
E a vida toda viveu
Sem saber sonhar a coda
Que um cântico lhe pediu.
Cair
O sonho acredita
Que cair na lama
Pode ser a cita
Que a voar o chama.
Medo
Terei medo de sonhar,
De perder o chão que é meu?
E se o que então me calhar
For eu atingir o céu?
Sonham
Os jovens sonham com o mundo todo.
Mais velhos, vão inda à janela ao sonho.
Mesmo distante o buscam deste modo,
Mesmo uma frincha é réstia onde o ponho.
Sem-abrigo
Sem-abrigo, o sonho abrasa,
Onde é que dele disponho?
- Temos de morar em casa
Mas com vista para o sonho.
Maior
O maior dos sem-abrigo
Não será o que não tem casa,
Mas o que, para castigo,
Nem sequer o sonho abrasa.
Eleve
Quando tudo é negridão,
Preciso da maravilha
Que, sem me tirar do chão,
Aos céus me eleve e envencilha.
Diferença
A diferença nos une
Muito mais que a paridade,
Que o complementar reúne
A crescer à Infinidade.
Pôr-me
Sonhar
É a melhor maneira
De olhar,:
Do Infinito a pôr-me à beira.
Aguenta
Quem a possibilidade
Aguenta de morrer antes
Do sonho que o persuade,
Pigmeus a dar, não gigantes?
Do Sonho – Quintilha
Poesia
Triando o trigo do joio,
A poesia não ocupa espaço,
Constrói-o.
E é um perene abraço
Do Infinito ao inefável comboio.
Do Sonho – Sextilhas
Antes
A liberdade absoluta
É a consciência antes da escolha,
Disponível à disputa,
Antes de ver o que acolha.
É apenas vazio apresto,
Pronto a encher de Infindo o cesto.
Encontrar
A nossa interdependência
Não é nunca um cativeiro,
É o meio de minha essência
Encontrar dela o carreiro:
Por aí vou dando ao imo
Patins de ir trepando ao cimo.
Vazio
A ser livre inteiramente
Só o é o meu eu consciente:
Eu – vazio disponível
Ao Todo que for vivível.
Por detrás, antes da escolha,
De Infindo o sonho que eu colha.
Bebé
Um bebé nasce
Prenhe de potencialidade:
Nele já pasce,
Em germe, a Infinidade.
Com o que desde logo tem
Não precisa de invejar ninguém.
Miúdo
O miúdo ouve a leitura:
A entrada dum paraíso
Pequenino e provisório.
Aí, sem saber, apura
Qual o tamanho preciso
Do céu no seu promontório.
Dás
Quando a outrem dás um livro,
Mais que papel, tinta e cola,
Dás-lhe a vida com que privo
Que nova se desenrola.
Que num livro cabe tudo,
Do Cosmos ao mais miúdo.
Sonho
Um adulto a realidade
Leva por demais a sério.
Ora, o sonho é que, em verdade,
Vale do Infindo o mistério.
Qualquer criança sabe isso
E é o que à adultez dá o feitiço.
Cabeça
Porque é que nós sempre andamos
Com a cabeça na lua?
Valer a pena apostamos
Sair então para a rua,
Que aí nada mais me aterra:
Ao sonho tudo se aferra.
Tirar
Sem tirar os pés do chão,
Ser feliz, só de maluco:
O chão queima, é um buracão,
A cada esquina, um trabuco...
Sem voar passar a vida
É a vida viver perdida.
Altos
Só quem não sonha é que julga
Que há sonhos altos demais.
Nem o salto duma pulga
Legitimarão os tais:
Ai, que se partiam todas!
Mas pulam, sem ver tais modas.
Valor
O valor de quem é grande
É o das lágrimas de espanto,
De maravilha que expande
Entre nós por quanto é canto.
Ali vislumbro quem sou
No Infindo a impelir meu voo.
Passar
O medo é que me protege.
Vou passar a vida inteira
A ver se ele me não rege,
A aprender da lida a leira,
Mesmo inteiramente aflito,
A entregar ao Infinito.
Crescer
Crescer não é findar sério,
Com um ar mui carrancudo,
A tratar do bem do império.
Crescer é agarrar em tudo
E dá-lo de mão beijada
Ao Infindo da jornada.
Brilho
A felicidade guarda
Tudo,
No meio da vida parda,
Um brilho agudo.
Para aí tudo conduz,
Na eterna busca da Luz.
Continuo
Dançar aos olhos da morte,
Que alegria,
Que sorte!
E não é uma fantasia:
Bem pode ela o corpo levar,
Continuo Além a dançar!
Rampas
Quando usamos as paredes
Como rampas de ir mais alto,
Paredes, muros são sedes
Daquilo em que a mim me falto.
Ao trepá-los sou mais eu,
Assalto do Infindo o céu.
Servir-me-á
Servir-me-á o sonho,
Se bem reparar
Aonde o disponho,
Para continuar.
Vida não é vida,
É o que é de seguida.
Do Sonho – Soneto
Paraíso
O paraíso na terra
Podemos aproximá-lo,
Nunca, porém, consumá-lo:
Quem trepa ao cume da serra?
Muitos crêem que é que traio
De amar a virtualidade
Mas é só meia verdade:
Não amando, é um facto, caio.
Mas mesmo que não caíra,
Que eu amara em plenitude,
Resta um Além, em virtude
Do qual sempre prosseguira.
O rumo abre ao Infinito:
Como enfastiar meu grito?
Do Sonho – Miscelânea com Métrica
Manipula
Qualquer ordem implantada
Manipula habilidosa
A palavra utilizada
A eternizar o que goza.
Tudo o que implicar a muda
Ao negativo ela o gruda.
E assim nos veda o destino
Bandeirante de Infinito:
Quão mais a ela me inclino,
Mais paro no que aqui fito.
É sempre traição humana
O que dali nos emana.
Falha
Falha o revolucionário
Porque aposta na utopia.
Este não é o trilho vário
Que o destino nos envia.
O sonho aponta o horizonte
Infinito do Infinito.
É de nós erguer a ponte
De aproximar-me ao que fito.
Mais longe ir sempre consigo,
O que me alimenta a festa,
Mas esgotar tal abrigo
Nada nunca a mim mo atesta.
Nem nesta nem noutra vida
Será tal meta atingida.
Basta-nos a plenitude:
Só o Infindo não ilude.
Se acaso fora esgotável,
A desgraça era infindável.
Ocorrer
Todo e qualquer objectivo
É de ocorrer no futuro.
No presente são motivo
De infeliz ser, é o que apuro?
Ora, quando for assim,
É de os varrer do patim.
Ao invés, se forem mola
Que ao presente impele e empola,
Então é de aí correr
Até o Infinito ver.
Amanhã
Num amanhã o Infinito
Nunca veio nem virá.
Já com ele sou se o fito,
Me organizo então por cá,
Gerindo aproximações,
Minhas únicas versões.
Nem meu bilhete da sorte
Que é sempre o da minha morte
Me virá pô-lo ao dispor:
Como englobá-lo supor?
Poderei em plenitude
É fruir da Infinitude.
Então, por definição,
É inesgotável função.
Ora, finito que sou,
Nunca ali finda meu voo...
Sabor
Arte culinária
Quão fugaz se some!
Mais sabor, mais área
A que cada come.
Mas fica o sorriso,
A alegre memória...
Na vida que viso?
Recordar tal glória!
É que o lado bom
Da vida concito
A saber ao tom
Que sabe o Infinito.
Declara
- Como se declara o réu?
- Por inteiro apaixonado,
Meritíssimo juiz.
Sei que não mereço o céu,
Mas o inferno é noutro lado
De tudo aquilo que fiz.
- Estás, pois, no bom caminho,
Entra, nunca estás sozinho.
Vai na rota que concito,
Romeiro que és do Infinito.
Meio
Nunca sou de meio copo.
Não está cheio? Não quero.
Meio nunca atinge o escopo,
Nem sequer é um copo mero.
Antes não quero beber
Que beber só o que é possível.
Arrebatar-me há-de ser
Só o impossível bebível.
Fácil
Fácil de entender
É a essência humana:
Quero vir a ter
O que não tiver.
E daqui dimana
Que, mal eu o apanho,
Mais quero querer
O que inda não ganho.
O que não se tem
Suga para o Além.
Fermento
Somos sempre muito mais
Que eu e minha circunstância,
Que o lugar dos arsenais
Que me moldam desde a infância,
Mais do que o molde empurrado
Por outrem por todo o lado.
Sou fermento de Infinito
No silêncio de meu grito.
Adultos
Os adultos só acreditam
No que andar diante dos olhos,
Por isso é que nunca fitam
O que anda além dos antolhos.
Deus vislumbro-o na maneira
De abraçar a minha mãe,
No que lhe digo se à beira
De chorar a vir também
Ou na mão que me amparar
Se ando céu fora a trepar.
Estiver
Se estiver sempre onde estou,
É que a vida é um pesadelo:
Perdi as asas do voo,
Perdi comigo o meu elo.
Estou cá mas não aqui,
Um pé do lado de lá
Onde o sonho me sorri:
Aí é que inteiro eu vá.
É que eu sou o que aqui vou
Mais sonho que inda não sou.
Envolvem-me
Tantos sonhos que nos vendem!
Casas e férias de sonho...
Ora, os sonhos que nos rendem
Envolvem-me onde me ponho,
Não requerem carros grandes
Nem férias grandes à toa.
Onde quer que os tu demandes
Querem é a grande pessoa.
Vidas de sonho há bem tristes!
Não é para tal que existes.
Transmuda
Vida é de quem melhor chora
Lágrimas no lugar certo
E que o longe, sem demora,
Transmuda logo no perto.
Ver bem ao longe é o amor
Mais amor então decerto
A germinar, flor a flor,
Onde antes tudo é deserto.
Quem no longe se transmuda
É que ao Infindo se gruda.
Amada
A minha amada me basta,
Tenho nela o mundo inteiro.
O amor sempre é de tal casta
Que do Infindo ali me abeiro.
Mal estejamos os dois,
Está quanto precisamos.
As carências vêm depois
E a dois é que nos lançamos.
E assim, ao abrir a porta,
O Infinito nos transporta.
Chegar
Chegar a qualquer destino
Principia por ansiar
No vazio onde me inclino,
Só então é de caminhar.
Sem atractivo de ausência
Que destino tem premência?
Quantas migalhas que fito
Do grito meu do Infinito!
Tanto
Tenho tanto sonho
E nenhum chegou.
Onde é que me ponho,
Para onde vou?
Ai esta mania
Dum seguro dia!
Tudo é sempre estrada,
Preciso é de guia
Para a caminhada.
Não da fantasia
Que anda só parada.
Somos caminheiros
Para a eternidade,
Não só pioneiros
Que a fadiga invade,
Á espera do dia
De parar na via.
O Cosmos não pára,
Nem nós, a energia
De alma que o dispara,
Na eterna euforia
Que nos alicia.
Do Sonho – Miscelânea com Ritmo
Contra
Não luto contra nada fora de mim
Nem nada cá dentro.
Antes me concentro,
Ao distinguir-me, eu consciente,
De quanto vive além de meu confim,
Coisas do íntimo, do mundo e da gente.
E acerca de tudo e todos verifico
A que é que me aplico
E se é por minha decisão
Ou porque preso aquilo me tem à mão.
Naquele caso,
A tudo darei azo.
Neste, refugio-me em meu abrigo:
Dele me desligo
Até o testemunhar e dominar,
A seguir,
E dele eventualmente aproveitar
Como eu por mim então decidir.
Portanto,
Não luto,
Crio em todo e qualquer recanto
O meu originário produto.
Sou eu, assim,
Cada vez mais rumo a mim,
Número insignificante
Adiante
Elevado em potência ao Absoluto.
Relevante
Não importa ser o melhor,
O mais rico,
O mais poderoso.
Relevante em seja o que for
É se aquilo em que pontifico,
Gozoso,
É o mais fundo potencial que verifico
Que em meu íntimo é mesmo o meu.
É o que me dá o antegozo
Dum pouco de céu.
Verdadeira
Verdadeira liberdade
É interior.
A exterior
Quenquer a invade,
Lhe destrói todo o teor,
Liberdade política, económica,
Comunitária, familiar...
- Por mais harmónica
Que cada uma se me antolhar,
É prenhe de desvãos,
Nunca está nas minhas mãos.
Como pode ser meu fito
Verdadeiro
O que me escapa por inteiro?
Por aí nunca viso,
Contrito,
Nem realizo
O Infinito.
Paraíso
O paraíso é um jardim
Murado.
Será um festival sem fim
Dentro dum muro enclausurado.
Por mais exaltante que seja, então
Será uma prisão.
Deus expulsou-nos deste paraíso,
Quer-nos livres de vez,
Mas com juízo.
Não há mais muros dele através:
O que fito
Abre-me progressivamente ao Infinito.
A minha plenitude
É convergir com ele naquilo a que me grude.
Maneira
A vida é minha,
Eu é que tenho de a viver:
Asinha
E à minha maneira há-de ser.
Tens mais experiência?
Sugere e aconselha.
De ordens não tenho carência,
Medida velha.
Seja lá qual for o preço
E o efeito,
Por ordens não tenho nenhum apreço
A todas rejeito.
De ninguém,
Portanto, as aceito.
Vou ser eu,
A ver o que isso tem
De céu.
Liberto
Quando me liberto de todo o condicionamento,
Descubro-me como um eu consciente vazio,
De braços abertos ao Infinito,
Pronto a acolher o fermento
Do rio
Da existência que através de mim concito.
O céu não tem limite
Quando nada me prende,
Nada me falseia,
Nada do que morre e em mim palpite
Comigo se confunde, que me ofende,
Porque eu sou quem arroteia,
Nunca o campo arroteado
Em nenhum lado.
Tudo o que é mortal por mim perpassa
E eu, em cada passo,
Sou o gerente da praça,
Nunca passo.
Gerindo a transitoriedade
Sem eu por mim ser transitório,
Germino imortalidade.
Sou já eternidade
A gerir e gerar meu envoltório.
Leitor
O leitor a meu lado
Não anda ao lado de mim,
Há escapado
Para um mundo noutro confim,
Livre e fluído,
Por ele escolhido,
Que a ninguém há revelado.
Para meu abalo,
Nem há como encontrá-lo.
Sem aqui se mexer,
Anda noutra dimensão a correr.
Por dentro dele, ali parado,
Ei-lo pelo Universo fora abalado.
País
Dos livros no mundo
E nos mil mundos que há neles,
Há sempre um país segundo
Para o apátrida nu e sem peles.
No negror concentracionário
Oferta um lampadário.
Na friura
Da prisão,
A quentura
Doutro chão.
E então
Quem se recriar na escrita,
Quanto sol, quanta lua, quantas estrelas
Concita
Para as humanas planetárias celas!
De repente até evita
O pior das letais procelas.
No reino do imaginário
Diviso
Uma fresta do primário
Paraíso.
Vale
Vale a pena esperar
Pelas coisas boas.
Quanto melhores eu aguardar,
Mais vai diferir, a par,
O tempo das broas.
Eis porque tanto demora o fito
De visar
O Infinito.
Vozes
Vozes a prometer a magia
De arrebóis,
Mais valia
Antes que depois.
Uma vez o fado consumado,
Outro fatalmente seria
Então o destinado.
Entre o sonho e o real,
Que negro sempre o vale!
Migalho
Viver em paz
Com o que não puder mudar
Longevidade
Traz
Muito para além da da idade:
É um migalho de eternidade
A espreitar.
Dificuldade
Crescer
É ter dificuldade em ver
O que há fora de meu lugar.
Ora, é nisto reparar
Que me faz desenvolver.
Porém, este requisito
Não há maneira
De pará-lo:
Viso, queira ou não queira,
O Infinito
Quando abalo
A correr por minha jeira.
Sempre
Quem andar sempre feliz
Vive vida entediante,
A daquela matriz
Constante.
Agora como Além,
Para ser feliz alguém,
Só no inesgotável fito
De conquistar o Infinito.
Então caminha
Do conflito à resolução e ao conflito,
Interminavelmente,
Enquanto adivinha
Os mistérios da Infinidade
Que tem em mente
E se lhe deparam em frente
Por toda a Eternidade.
Aí serei feliz,
Sempre a mover-me de raiz.
Aqui, sempre a meias,
Além, conforme a virtude,
De mãos cheias
Do Infinito a que me grude.
Abdicar
Ao abdicar dum sonho
Por revelar-se inviável,
É que outro então me proponho,
Transitável,
Que alimente a realidade
Que meu trilho invade.
Um sonho não alimento
Que devenha mero tormento.
Mútuo
Quando amamos,
O mútuo ajustamento tentamos
E nem sabíamos
Que o queríamos.
É de nos acomodarmos
Ao confortável
Ou de o desconfortável
Desafiarmos?
É de jogo um tabuleiro
Sem regras, sempre pioneiro.
Terei de inventar a jogada
Tendo sempre em mira
O fito da caminhada
Que me inspira.
Daí a importância
Deste quesito:
A relevância
De ter na mira o Infinito.
Em cada nada
A tentar semeá-lo pela estrada.
Implanto
Amar
É com meu eleito
Par
Sonhar,
De tal jeito
Que o implanto no meu peito
E ele aí vai germinar
Tão afeito
Que em nenhuma fronteira o delimito,
Voamos ambos para o Infinito.
Infância
A infância faz falta,
É o fermento
Da vida em maré alta
De crescimento.
E em todo e qualquer momento
É o que ressalta:
Só a eterna infância nos exalta
Dum Infinito porvir o advento.
Amores
Os amores fecundos
Que proclamo
São assim:
Conheço-a eu há segundos
E já desde sempre a amo
E vou amá-la até ao fim!
Completa falta de juízo
A exigir
De mim
Todo o meu siso.
Mais a descomunal vontade
De indefinidamente construir
Uma comum identidade.
Com todo o conflito
De caminhar ao Infinito.
Pés
É o amor aos pés ficar,
Submisso e mandão,
Dono e servo,
Mas sempre a estar,
Estar com o pendão,
Com a fragilidade e o nervo.
De todas as maneiras
Que peneiras
Até resultar.
Sempre que um precisa,
O outro o realiza.
O equilíbrio
Que não é equilíbrio nenhum,
Sem ludíbrio
A cada vez mais serem um.
Sem lógica nem matemática,
Apenas a prática.
Neste caminho
Cada vez mais comum,
Cada vez mais adivinho.
O amor é a balança
Que pende para os dois lados
E alcança
Vê-los mais e mais entrançados,
A ponto de vislumbrar no quesito
Inesperadas faíscas do Infinito.
Ligar-me
Amar quem amo
É também amar-me a mim,
O derradeiro tramo
A ligar-me ao meu confim.
Se me entrego,
De mim no definitivo desapego,
De vez concito
Minha entrega ao Infinito.
Do amor a alegria
É já luz que daqui apura
No gradiente da lonjura
O Grande Dia.